Ubiratan, como surgiu a sua relação com a Economia?

Acho que foi algo natural, porque eu gostava de Matemática e de História com a mesma intensidade e, sendo assim, eliminei Engenharia e História para ficar com ambas...

 

 

 

Você é um dos grandes expoentes no Brasil e no mundo da Escola Austríaca de Economia. Quais as principais características do pensamento desta Escola?

É difícil resumir, mas creio que as principais são o individualismo metodológico, ou seja, a ênfase nas ações humanas individuais; o reconhecimento de que nosso conhecimento tem limites e o tratamento dispensado ao fator tempo. Em poucas palavras: ação, tempo e conhecimento, título de meu livro mais recente.

 

Mas você já foi adepto de outros pensamentos econômicos, não é isso? Como foi largá-los e o que lhe levou a optar pela linha libertária?

Fiz o mestrado e o doutorado na Fundação Getulio Vargas do Rio, naquele tempo algo como uma filial do Departamento de Economia da Universidade de Chicago. Então, tive formação essencialmente monetarista, o que significa que, mesmo usando o instrumental matemático e econométrico da maistream, eu sempre defendi o livre mercado. Em 1989, o saudoso Professor Og Leme, do Instituto Liberal, apresentou-me a Mises, Hayek e outros economistas austríacos. Nas primeiras páginas de Ação Humana eu já era um “convertido”. O que me levou a isso? Bem, foi o fato de que enxerguei o mundo real na Escola Austríaca, algo que tinha dificuldade em enxergar na mainstream economics.

 

A crise econômica que se abate sobre Europa e EUA tem razões bem definidas, mas nem sempre bem esclarecidas pela mídia ou pelos Governos. O que dizer a respeito? Casos como o da Grécia e da Espanha têm explicação?

A explicação é uma só para todos os casos: bancos centrais emitindo moeda e expandindo o crédito sem o devido lastro em poupança.

 

E a União Européia está tomando as medidas corretas?

Tanto a EU como os EU estão colocando mais lenha na fogueira, ao adotar as recomendações keynesianas e monetaristas: as primeiras, ao expandirem (ainda mais) os gastos governamentais e as segundas ao expandirem fortemente a moeda e o crédito sem lastro.

 

Uma das críticas dos opositores do Presidente americano Barack Obama é a de que ele não retirou o país da crise; ao contrário, teria agravado. O que Obama fez, afinal? Qual é o seu legado para a economia norte-americana e mundial?

O legado de Obama, a meu ver, é o pior possível! Suas políticas são a negação da própria história de sucesso dos Estados Unidos, ao promover um avanço muito grande do setor público, em suas várias nuances, sobre o setor privado. Em minha avaliação, é um péssimo presidente.

 

Vindo agora para o Brasil, o Governo anunciou um crescimento muito baixo do PIB no segundo trimestre deste ano: apenas 0,4%. A seu ver, quais as causas de um resultado tão decepcionante? A crise, que Lula dizia ser uma “marolinha”, de repente chegou até nós ou este é um processo mais longo?

O Brasil reagiu à crise da maneira mais “eleitoreira” possível, sem uma boa fundamentação teórica. Por quê? Porque expandiu irresponsavelmente os incentivos ao consumo, algo que a boa teoria ensina que só tem efeitos benéficos temporários sobre a economia. No governo Dilma as coisas pioraram, porque a política econômica foi tomada de assalto pelos keynesianos, na Fazenda e no Banco Central. Uma das bobagens que vêm fazendo é a redução artificial da taxa Selic. Plantaram o retorno da inflação e alimentaram a recessão. O tempo da colheita está chegando.

 

O que se pode esperar para a economia brasileira nos próximos capítulos?

Crescimento pífio e inflação. Não é torcida contra, é a Escola Austríaca!

 

As medidas tomadas pelo Governo – redução de juros e de tributos, incentivos a empresas, concessões – são as mais efetivas para enfrentar o problema?

Como já disse, essas medidas, inclusive outras, como a suspensão temporária de impostos para a linha branca e automóveis, além de não atacarem o problema, tendem a agravá-lo no futuro.

 

O que realmente é preciso fazer?

Uma brutal redução do setor público. Uma também brutal redução da carga tributária. Privatizar o Banco do Brasil e a Caixa Econômica e extinguir o BNDES, para impedir que essas instituições sejam usadas politicamente, como vem acontecendo. Abandonar todas e quaisquer políticas fiscais e monetárias. Reduzir o custo Brasil. Abrir sem medo a economia para o exterior. E, embora isso seja muito difícil, acabar com o Banco Central e adotar o sistema de moedas competitivas (se isso não é ainda possível, que se volte ao regime do padrão ouro). Em suma, é preciso que se entenda que a economia pertence ao setor privado!

 

Uma palavra para os empresários que nos lêem: como agir neste momento? O que a Escola Austríaca indicaria?

Que não se metam em operações com o governo. No mais, cautela e canja de galinha, que não fazem mal a ninguém.

 

Ainda existem muitos movimentos que se definem como socialistas, comunistas ou ao menos “social-democratas”. As bandeiras defendidas por estes movimentos, contudo, parecem não gerar mais a mesma atração de outras épocas. Você faria alguma crítica ao socialismo? Qual?

O socialismo prometeu a todos, irresponsavelmente, a passagem direta para o céu, sem aquele estágio no Purgatório. É um sistema inconsistente, porque iguala todo o mundo nos resultados, burros e inteligentes, preguiçosos e trabalhadores, espertos e pascácios, sortudos e azarados. Não premia esforços. E, como aponto no meu livro mais recente, é um sistema absolutamente imoral, porque passa por cima da dignidade da pessoa humana, apesar de seu discurso agradável aos ouvidos não treinados.  É lamentável, sob todos os aspectos, que ainda existam movimentos socialistas no mundo de hoje.

 

Como libertário que tem relação muito próxima com conservadores, você considera importante uma coalizão de conservadores, liberais clássicos e libertários para defesa de valores comuns?

Acho essa união imprescindível, se quisermos avançar com a liberdade no Brasil. Nossas diferenças podem perfeitamente ficar para depois.

 

Um partido conservador e um partido libertário são necessários para o Brasil hoje?

Mais que isso, creio que precisamos, simplesmente, de partidos. Com ideários, algo que não temos hoje, a não ser naqueles mais radicais da chamada esquerda.