Em minhas andanças e ensinanças como professor de Economia, um dos fenômenos que mais tenho gostado de observar é a reação de meus alunos, logo nas primeiras aulas dos cursos que ministro, quando lhes afirmo peremptoriamente que os bancos centrais precisam acabar, assim como quaisquer resquícios de políticas monetárias, fiscais, cambiais, industriais, de rendas e de preços.

 

Da primeira até mais ou menos a quarta ou quinta aula, assim que recebem o "choque", por exemplo, de que bancos centrais não só são desnecessários como perniciosos para qualquer país, suas fisionomias denotam um misto de incredulidade e espanto. Claro, até chegarem às minhas turmas, só encontraram pela frente colegas (competentes, deixe-me frisar) da mainstream, ou seja, professores que lhes ensinam que os bancos centrais são importantes como executores da política monetária, seja ela definida como a fixação da taxa de juros básica, o estabelecimento de metas de inflação ou de agregados monetários. O mesmo, evidentemente, acontece em relação às demais políticas que listei no primeiro parágrafo.

O estudante de Economia, no fundo, é um infeliz e essa infelicidade vem acontecendo pelo menos há sessenta anos, quando o chamado modelo IS-LM, uma interpretação das idéias de Keynes formulada por Alvin Hansen e John Hicks nos anos 40, popularizou-se. De lá para cá, os professores enfiam nas cabeças dos futuros economistas esses modelos (conhecidos como "a síntese neoclássica") e, quando abrem a economia para o setor externo, penduram neles as curvas BP (de balanço de pagamentos) que Mundell e Fleming ajudaram a espalhar pelo mundo. O resultado é que os jovens saem das faculdades achando que os governos têm poderes e capacidades que, na verdade, não possuem, como, por exemplo, o de saber qual a exata quantidade de moeda que deve circular na economia a cada momento do tempo para que a inflação fique entre x% e y% em um certo período de tempo. E passam o resto da vida acreditando nesses contos da Carochinha. Pior, se seguirem a carreira acadêmica, passarão anos a fio a repassar esses erros para as gerações futuras...

É muita pretensão! Ninguém pode saber isso, a não ser o processo de mercado! O falecido empresário Donald Stewart Jr, fundador do Instituto Liberal, gostava de contar um fato que se verificou com ele: ao visitar a antiga União Soviética, entrou em um mercado e viu um par de sapatos que, de tão feios, despertaram a sua atenção. Resolveu comprá-los para exibi-los como "troféu" quando voltasse ao Brasil. Chamou então o vendedor e pediu o seu número. Para seu espanto, além do funcionário público dizer-lhe que não tinha o seu número, informou que levaria ainda de três a quatro meses para chegar uma nova leva de calçados, porque a produção de cada bem era rigorosamente calculada pela autoridade central, ou seja, por um bando de tecno-burocratas metidos a besta, com os peitos cheios do ar da pretensão do conhecimento.

Ora, pois, se os tecnocratas não são capazes nem de saber quantos calçados e de que tamanho devem ser produzidos, como é que a imensa maioria das pessoas acredita na fábula de que os iluminados dos bancos centrais podem saber que exata quantidade de moeda deve circular em um país durante certo período de tempo? E mais, como podem saber quais os efeitos que essa quantidade de moeda irá provocar na economia, vale dizer, nas taxas de juros, nas preferências temporais, na estrutura de capital, na produção, no consumo, nos preços relativos e na inflação (ou deflação)?

Quando digo isso aos meus alunos na primeira aula, é um choque semi-fatal; na segunda, um soco no queixo; na terceira, um empurrãozinho; daí em diante, a grande maioria começa a entender que a defesa de um monopólio sobre a moeda é tão equivocada quanto a de qualquer outro monopólio legal, seja privado ou público.

Por esse e outros motivos é que não concordo com a pretensa dicotomia entre Mises e Hayek, ou entre ação humana e conhecimento, que alguns austríacos defendem. No caso dos bancos centrais, ambos os conceitos, aliados ao de tempo dinâmico, são petardos indefensáveis contra o monopólio descomunal dos bancos centrais e sua capacidade de estabelecer quantidades e preços melhor do que o processo de mercado.

Não há qualquer razão que justifique a existência de bancos centrais. Por isso, deveriam ser ou sumariamente extintos ou sujeitos à competição, caso em que se permitiria que bancos privados emitissem cada um deles a sua moeda. O mercado faria o resto, bem melhor do que qualquer PhD ou tecnocrata pretensioso!