05/12/2012

 

tijoloMeu saudoso pai gostava de contar uma história que se passou com ele e que, mesmo sendo triste se analisada pelo ângulo da caridade, não deixava de despertar muitos risos em todos que a ouviam. Certo dia foi o velho Sylvio, sempre bem humorado, mas de gênio forte, visitar um amigo que não via há bastante tempo e que era diretor de um manicômio. Esse amigo ficou tão feliz com a visita de meu pai que fez questão de mostrar-lhe todas as dependências da instituição. Pois bem, ao passarem por um corredor margeado por quartos em que os doentes ficavam internados, de repente um deles abriu bruscamente uma das portas e, com um movimento rápido e semelhante ao daqueles arremessadores olímpicos de discos, atirou um tijolo na direção de meu pai e seu amigo, gritando: “Seguuuuuura o pombo”! O incidente não teve maiores consequências porque ambos se desviaram a tempo da “ave”, mas o diretor teve que aguentar por alguns minutos a indignação de meu pai, o que não era fácil – digo-o por experiência própria.

 

O leitor deve estar se perguntando a propósito de que relembro aqui esse episódio real de minha infância. Vou contar então por que.

Bem, nossa presidente anunciará nesta semana um pacote de medidas com regras e mais regras, planos de investimentos e de ações, planilhas e todo um arsenal regulatório centralizador, com o intuito de, segundo ela, “dar estabilidade ao investimento no setor, ampliar a competitividade e reduzir a burocracia”. De cara, duas observações: primeira, ninguém pode ser contra esses objetivos; e segunda, é um erro enorme esperar que o Estado os cumpra.

Segundo a presidente, seu governo lançará uma legislação de portos e definirá os investimentos que serão viabilizados, sempre – palavras dela – “olhando essa grande parceria [tenho incontrolável cisma com essa palavra - parceria] entre governos estaduais, federal e também trazendo a iniciativa privada”.

Estima a mandatária que o tal programa exigirá cerca de R$ 40 bilhões de investimentos, sendo R$ 10 bilhões no curtíssimo prazo nos terminais portuários com licenças vencidas ou a vencer, de acordo com a Associação Brasileira de Terminais Portuários. Mais R$ 10 bilhões serão destinados a investimentos em terminais de grãos e R$ 11 bilhões em terminais de contêineres. O governo espera que a iniciativa privada assuma a maior parte desses investimentos.

Pronto, cheguei onde queria!

O governo grita para os empresários: “Seguuuuuura o pombo”!

tijSim, no verdadeiro hospício regulatório, no autêntico manicômio intervencionista, no verdadeiro sanatório sindicalista que transformaram nossos portos em peças de museu e campeões de ineficiência, o governo, além de pretender regulamentar ainda mais o setor, ainda chama a iniciativa privada para ajudá-lo. Quem será louco de cair nessa esparrela em que o  Estado entra com as ordens e o comando e a iniciativa privada com a obediência e os recursos? O PAC é um fracasso retumbante exatamente por esse motivo. O governo atirou os tijolos chamando-os de pombos, mas os empresários sabiam que não eram pombos, eram tijolos. E se esquivaram. Como também vão se esquivar no caso dos portos.

Quando essas pessoas que comandam o país há dez anos vão entender que a solução para os portos é a sua total privatização?