08/12/2012

handSempre que morre um músico o mundo fica mais triste, silencioso e melancólico.

Sou um economista e gosto muito do que faço, mas desde muito cedo me apaixonei pelo piano - o mais nobre dos instrumentos -, sua sonoridade, suas teclas. Minha mãe me ensinou a tocar quando eu tinha uns 4, talvez 5 anos e desde então nunca mais parei, mesmo não tendo optado por ser um músico profissional. Por isso, escrevo este artigo-elegia muito mais com o coração do que com o cérebro.

Juntamente com Bill Evans e Oscar Peterson, David marcou minha juventude, quando deixei o piano clássico e passei a me interessar pelo jazz e pela bossa nova. Outros existiram antes e depois, como Art Tatum, Fats Waller, Ted Wilson, Nat Cole, Thelonius Monk, Bud Powell, George Shearing, Wynton Kelly, Billy Taylor, Cedar Walton, Monty Alexander, Herbie Hancock, Chick Corea, Keith Jarret, mas foram três desses fenomenais artistas que marcaram para sempre minha paixão pelo piano e influenciaram meu modo de tocar. Foram,  por ordem de “chegada” à minha vida musical, Dave, Oscar e Bill.

 

No último dia 5, o Criador chamou à Sua presença o extraordinário pianista Dave Brubeck, na véspera do dia em que completaria 92 anos de uma vida dedicada à arte das artes. Suas biografias disponíveis na Internet ressaltam que David Warren Brubeck nasceu em Concord, Califórnia, em 6 de dezembro de 1920 no seio de uma família musical e aos quatro anos já aprendia piano com a mãe, pianista de música erudita. Aos nove anos, estudou também violoncelo. Mais tarde, foi aluno do talentoso compositor erudito francês Darius Milhaud, por sinal um apaixonado pelo Rio de Janeiro e pela riqueza de nossos ritmos e que compôs uma suíte em que cada tema homenageava um bairro da Cidade Maravilhosa do início do século XX, bem como Le Bœuf sur le Toit, um ballet surrealista fortemente influenciado por nossa música popular, como choros e tangos do século XIX, citados na composição.  

De gênio gênio forte, não era muito interessado em estudar pelos métodos convencionais e desde cedo passou a compor suas próprias melodias. Para não ter que ler durante as aulas com a mãe, alegava dificuldade de visão. Um jazzista, portanto, desde pequenino!

A primeira vez que ouvi um disco de seu famoso quarteto foi na casa de um colega do Colégio Metropolitano. Foi o LP Time Further Out, o segundo da série que começou com Time Out, um álbum experimental de 1959 que vendeu  um milhão de cópias, tendo como carros-chefes Take Five (a mais popular de suas gravações, no compasso composto 5/4, algo revolucionário para o jazz da época, composta pelo saxofonista-alto Paul Desmond,) e Blue Rondo a la Turk, de sua autoria, em que mesclava um rondó mozartiano com elementos turcos e tratamento bru1alternado entre o clássico e o jazz. As capas desses dois discos eram quadros do pintor de Barcelona Juan Miró. Voltando à minha primeira experiência de ouvir Dave, quando escutei a faixa inicial, uma valsa jazzística chamada It’s a Raggy Waltz, fiquei extasiado! E, claro, passei a querer imitar o seu modo de tocar. Seu Bru’s Boogie Woogie, do mesmo album, foi um prato feito para mim, que sempre gostei desse gênero derivado do blues.

O maior legado de Dave foi a simbiose que logrou fazer entre o jazz e a música clássica, algo absolutamente pioneiro no jazz dos anos 50. Aplicou as influências europeias herdadas de Milhaud ao ritmo dos músicos negros americanos, quebrando os padrões convencionais da época. Era mestre em usar diferentes tipos de compassos compostos, não se atendo ao padrão de 4/4 característico do jazz e da música americana, o que lhe angariou críticas fortes por parte dos puristas.

Depois, como disse, travei conhecimento com outras concepções musicais, especialmente com Oscar Peterson, com sua técnica espantosa e Bill Evans, que para mim sempre foi e será sinônimo da própria música. Mas jamais deixei de lado Dave e volta e meia tornava a ouvir suas gravações, agora no Youtube.

No site da Université of Fribourg, indicado por minha amiga Norma Braga, encontrei uma passagem emocionante da vida de Dave, narrada por Michael Shervin, O.P., que narra a experiência com a música religiosa vivida pelo grande artista.

A postagem está em http://www.unifr.ch/tmf/Jazz-goes-back-to-Church e transcrevo o item II,  To Hope - A Celebration : the Mass that led Brubeck to enter the Church,  no original em inglês:

 Brubeck reached a turning point in his religious development when he accepted a commission from Our Sunday Visitor to compose a Mass. Brubeck did not want to undertake the project. Not being a Catholic, he did not feel qualified. Yet, as Brubeck explains, the paper’s editor, Ed Murray, would not take no for an answer. "For two years he bugged me. . . . I’d kick him away like a dog you don’t want nipping at your heels, but he kept coming back." Finally, Brubeck agreed but only conditionally. "I told Ed, ’I’ll write three pieces and I want you to find the best Catholic expert to look at them and say whether they’re alright.’" Murray chose Sr. Theophane Hytrek. It was an inspired choice. "She got together a group of musicians in Milwaukee. The message came back, ’tell Dave to continue and don’t change a note.’" So Brubeck continued. The final result, To Hope : a Celebration (1979), is stunningly beautiful.

There was, however, one glitch. The "Our Father" was not listed among the parts given to Brubeck to set to music. When Fr. Ron Brassard heard the completed Mass, he noticed the oversight and pressed Brubeck to write music for it as well. Brubeck’s response was emphatic : he was tired and going on vacation with his family.

Eis agora o fato extraordinário, que fez o então protestante David converter-se ao Catolicismo : “Something, however, stirred in the composer. On the second night of his vacation he dreamt an entire "Our Father" : bru1"I jumped out of bed and wrote it down, because I knew its simplicity was working and I didn’t want it to get away from me. . . and it’s so simple ; but I heard the choir and the orchestration, everything." The experience had such a profound effect on Brubeck, he become a Catholic. That very night he said to himself : "If this is what’s happening I think I’ll join the Church."

Era a mão de Deus guiando as mãos de David! Este fato extraordinário, essa experiência transcendental, inexplicável e profunda vivida por David , converteu-o à fé católica, que conservou até a morte. A Universidade de Notre Dame concedeu a Brubeck, em 2006 a medalha Laetere, entregue todos os anos a um católico "cujo gênio enobreça as artes e ciências, ilustrando os ideais da Igreja e enriquecendo a herança da humanidade”.
Pelos muitos momentos de alegria que você proporcionou a mim e a todos os amantes da boa música, descanse na Paz do Senhor, Brubeck, e toque para ele a Missa - To Hope! A Celebration - que você compôs, com o Our Father que Ele fez o seu Espírito soprar em seus ouvidos privilegiados, para tocar o seu coração de músico e fazê-lo aproximar-se Dele!