29/12/2012

elf2Muitas vezes me pergunto quando chegará o tempo feliz em que poderei escrever artigos sobre nossa economia que sejam elogiosos ou que, pelo menos, não sejam críticos ou ácidos. Confesso que isso me incomoda, porque quem me conhece sabe que nada tenho de mal humorado, arrogante ou mordaz. Quem duvidar do que estou dizendo pode perguntar a qualquer aluno ou ex-aluno ou a qualquer pessoa que me conheça bem, que ele ou ela lhe dirão, pelo menos, que: (1) gosto de usar o bom humor como ferramenta didática, para tornar interessantes e mais leves assuntos normalmente pesados; (2) tenho verdadeiro pavor a reprovações de alunos, porque me considero em constante aprendizado, apenas sou mais velho do que eles e, portanto, quando tinha sua idade média, talvez soubesse até menos do que hoje eles sabem; e (3) costumo ser um sujeito extremamente educado – com pouquíssimas explosões - atributo que devo, certamente, a meus pais (incluindo as raras explosões).

Mas, quando se trata de asneiras praticadas por cabeças coroadas do estado, aí passo por uma transformação muito forte: embora não fique verde nem meus músculos estufem a ponto de rasgarem minhas roupas como os do Hulk, uma espécie de cólera santa - para lembrar Nelson Rodrigues -, toma conta de mim. Por isso, a exemplo do que escrevi ontem, tenho que repetir a reprovação à rena do nariz vermelho e a seu duende da economia.

 

Ontem, bastou que eu folheasse os jornais e olhasse para duas manchetes, uma sobre a rena e outra sobre o elfo (ou, como é chamado em certas regiões da Itália, onde nasceu nosso epigrafado personagem, barabahen,) para reprovar “com louvor e distinção” as duas criaturas. Zero para ambas! Vamos lá?

A primeira manchete era sobre a rena - um animal até simpático, contrariamente à sua sátira que habita em Brasília – e dizia mais ou menos assim: “Dilma pressiona a Light para evitar novos apagões no Rio”. Lembrei-me imediatamente daquele antigo personagem de um programa humorístico de TV que dizia: “a inguinorânssia astravanca o pogréçio”... Como sempre acontece com mandatários petistas, a culpa nunca é deles! No caso, é da empresa que fornece os serviços de eletricidade na cidade do Rio de Janeiro e na baixada fluminense. Tudo bem, este é um monopólio concedido e controlado pelo estado, o que é algo terrivelmente indesejável, mas esse não é o caso. Onde estão e para que, afinal, servem a Aneel e o tal “operador nacional do sistema”, nome tão misterioso quanto sua inutilidade? Servem tão somente para empregar correligionários e apadrinhados? Para mentir seguidamente? Para dizer que não há risco de apagão, quando todos sabem que há?

re2Não adianta mesmo, essa nossa rena não engrena, não concatena, não coordena, só desordena. É uma rena obscena! Para completar o dia, o mesmo exemplar de cervídeo de grande porte e com chifres, que vive em manadas e habita em latitudes altas – embora algumas vivam também em planaltos e é único entre os veados, pois machos e fêmeas possuem chifres -, em uma festinha de final de ano, daquelas em que a bajulação chega às raias da indecência, declarou que “merecia uma gargalhada sempre que alguém falasse em apagão”. Pelo visto, o aludido cervídeo vai estourar como um balão, de tanto rir estrepitosamente...

E a segunda, no mesmo dia – será que estão competindo em um incrível torneio para ver quem consegue dizer mais sandices? – foi proporcionada pelo ministro duende. Segundo um site infantil de histórias, “duendes são pequeninos seres de orelhas pontudas e sorriso esquisito, que cuidam das plantas, árvores e sempre ajudam as sementinhas a brotar. Também gostam muito de brincar e, às vezes, pregam peças nas pessoas, fazendo as janelas estalarem e tirando coisas do lugar”. A história pode ser para crianças, mas acertou em cheio, pelo menos em sua frase final, porque nosso elfo de Brasília adora brincar (de economista) pregar peças (fazer pacotes e mais pacotes), quebrar janelas (para estimular a demanda) e tirar as coisas do lugar (especialmente os fundamentos macroeconômicos).

Bem, a manchete dava conta da reunião do pequenino ser da economia com os presidentes dos principais bancos que operam no país, em que ele lhes cobrou que “aumentassem o crédito e que fizessem mais empréstimos de longo prazo, com taxas de juros mais baixas, para investimentos”. Vou fazer apenas uma observação, a de que é possível imaginar a reação dos banqueiros, macacos velhos e matreiros: “Sim, Sr .Ministro”, mas, assim que se viram livres do elfo, talvez no hall dos elevadores, em tom de cochicho, sussurraram: “esse cara vive em que mundo”? Não vou comentar essa asneira. Não vale a pena. Só vou descrever algumas de suas características: gigantesca, simiesca, burlesca, animalesca, grotesca. Carnavalesca.

Relendo o que escrevi para fechar o artigo, acho que devo me desculpar pelo tom um tanto agressivo, mas não vou apagar uma só palavra do que escrevi. Incompetência sempre me incomodou. Incongruência sempre me indignou. Inconsistência sempre me alarmou. E reincidência sempre me irritou. Opa, meu bíceps está estourando a camisa e estou ficando verde...é melhor ficar por aqui.

A que ponto chegamos, gente: uma rena e um duende rupestres em pleno século XXI!