30/12/2012

thNa riquíssima mitologia grega, Themis representava a deusa da Justiça, da lei e da ordem; protegia os oprimidos; era a segunda esposa de Zeus, sentava-se ao seu lado e lhe dava conselhos; filha de Urano e Gaia, era por sangue uma titã. Personificava a ordem e o direito divinos e era considerada a deusa da Justiça, austera e com os olhos sempre vendados e tendo nas mãos uma balança e uma espada. Os romanos a chamavam de Justitia.

Mas Themis parece ter ficado lelé da cuca ou, no mínimo, perdido aquela compostura que podemos observar em todas as suas representações em estátuas e estampas, tão comuns nos escritórios de advocacia. Certamente, o comedimento e a discrição são exigências a que todo e qualquer ministro, seja do Judiciário ou do Executivo, deve estar sujeito, mas talvez a função de ministro da Justiça seja uma das que mais exigem tal sobriedade de comportamento. Nosso atual ministro, dentro do quadro geral de mediocridade que campeia no atual governo, sempre me pareceu, independentemente de pertencer ao partido ao qual pertence, um  homem sóbrio e lúcido, desde quando era deputado federal. Inclusive na maneira elegante de se vestir, no modo de falar e na ausência daquele vestuário vintage de revolucionários do Leblon, daquela habitual aparência de sujo, de envolvimento em negócios suspeitos e das barbas ou cavanhaques característicos e de mau gosto que seus correligionários costumam adotar, certamente em homenagem aos ídolos Fidel e Che. Mas o viés partidário, ao que parece, arranhou-lhe a usual compostura em dois episódios recentes.

 

O último aconteceu anteontem, em cerimônia realizada em Maceió, em que recebeu o título de cidadão honorário das Alagoas, quando comparou a queda da criminalidade naquele estado com as estatísticas de violência armada, adivinhem de onde? Nada mais nada menos com as da Suíça! Caramba, o homem desferiu um chute mais forte dos que o  o ex-jogador de futebol Roberto Rivellino costumava acertar e que o fizeram ficar conhecido em sua época como “a patada atômica”...

Sua excelência perpetrou essa barbaridade ao afirmar na cerimônia que, depois da implantação do programa “Brasil Mais Seguro” (como os petistas são craques em inventar siglas!), oito em cada dez assassinatos passaram a ser solucionados naquele estado nordestino. Virou- para o governador alagoano e disparou: “São números suíços, governador”! Em seguida, explicou que esse projeto foi implantado em Alagoas por ser aquele estado considerado o mais violento do Brasil e que ele deverá se estender a outras unidades federativas (o nome é esse, embora o federalismo aqui seja apenas um nome). Solucionar oito entre dez casos não é nada mau, senhor ministro, porque revela maior eficiência da polícia, mas a meta deve ser – ou não? – reduzir drasticamente o número de casos! Porque se houvesse 5.000 casos em um único dia em uma cidade e todos fossem solucionados, a polícia estaria de parabéns, mas a segurança nessa cidade seria inexistente.

A Secretaria de Defesa Social - olhem a palavra mágica “social” aí, sempre a nos azucrinar! – alagoana divulgou que em 2011 a média de assassinatos cometidos por dia era de 6,6 e que essa terrível estatística caiu em 2012 para 5,4 por dia, uma queda de 13,3%. Anunciou ainda a SDS que em 2001 houve 2.417 homicídios e que neste ano, até o final de novembro, foram assassinados “apenas” 1997 seres humanos. O número de assassinatos por cada cem mil habitantes em Alagoas em 2011 foi de 135,3, o que, sem dúvida, dá – no entendimento de um pascácio babando na gravata - inteira razão ao ministro: Alagoas – como de resto todo o país – é um modelo de segurança se    comparado com a Suíça, em que o número de homicídios em cada cem mil habitantes em 2012 é de 0,7, segundo a Declaração de Genebra sobre a criminalidade. Pelo menos o governador alagoano foi  menos afoito, já que evitou comparar os dados de seu estado com as estatísticas helvéticas.

piNão foi a primeira e nem a segunda escorregada de nosso representante de Themis. Só para não cair em esquecimento, lembremo-nos de que no mês passado ele declarou, logo após a condenação dos réus do mensalão, que “preferia morrer a ser preso em prisões brasileiras”, acrescentando que as mesmas são “medievais”. O que posso comentar? Apenas que se vivêssemos no Japão o ministro da Justiça, antes de proclamar essa verdade, cometeria suicídio, de vergonha. Mas nossa cultura é bem diferente, porque aqui, além do fato de os figurões da política nem de longe pensarem em suicidar-se - prática naturalmente correta, porque ninguém tem o direito de tirar a própria vida -, dizem o que querem e continuam com a mesma pose, como se nada tivessem dito.

Themis é uma divindade em que a justiça é definida, no sentido moral, como o sentimento da verdade, da equidade e da humanidade, colocado acima das paixões humanas. Mas  seu atual súdito brasileiro, ao comparar nossa taxa de crimes com a da Suíça e ao reconhecer o estado precário das prisões justo naquele momento em que alguns correligionários tinham acabado de ser condenados, feriu a verdade e deixou-se levar pela paixão partidária humana – o que vai contra a equidade e a humanidade que a simpática deusa grega representava.

Parece que agora, além de uma rena de nariz vermelho e de um duende da economia, temos também mais um – pois já existem tantos! - representante de Pinocchio em nosso lindo país...