Fev. 2013 - ABYSSUS ABYSSUM INVOCAT

Artigo do Mês - Ano XII– Nº 131 – Fevereiro de 2013

abO abismo chama pelo abismo. Yeah, Messrs. Obama and Bernanke: deep calls to deep! Este conhecido trecho do Salmo 42 (41, na Vulgata latina) me parece um ótimo título para descrever a reação da economia dos Estados Unidos frente à batelada de medidas sucessivas do governo e do Fed cometidas nos últimos anos, em tentativas inúteis para debelar a crise. O insucesso se deve exatamente ao fato de que as causas da crise e sua resistência aos tratamentos foram os próprios “remédios” que foram e vêm sendo usados, mas quase ninguém consegue enxergar isso, daí a insistência nas terapias erradas. A frase serve também para o Brasil, a Argentina (un abismo llama a otro abismo), a Europa (l'abîme attire un autre abîme, ein Abgrund ruft den nächsten, un abisso chiama l’altro, κατά την άβυσσο, etc.) e para muitos outros países, mas hoje vou me concentrar no caso americano. 

 

A economia dos Estados Unidos encolheu 0,1% no último trimestre de 2012, para desespero e espanto de economistas keynesianos, monetaristas e novos clássicos e dos ditos “analistas econômicos”. Para os economistas austríacos, no entanto, não existe nenhuma novidade nisso, simplesmente porque quem planta colhe. Finis coronat opus: o fim coroa a obra. Quem planta crise, vai ter que colher...crise, ora pois!

Não vou repetir aqui a TACE – Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos, porque já escrevi sobre isto em dezenas de artigos. Vou apenas lembrar sua mensagem principal, a de que quando as taxas de juros são fixadas artificialmente baixas pelos bancos centrais, os consumidores reduzem a poupança e passam a consumir mais, e os empresários aumentam seus gastos com investimento. E então se cria um desequilíbrio entre poupança e investimento, uma falta de coordenação entre oferta e demanda. Tem-se então uma economia com crescimento insustentável. Essa é, em suma, a lição da crítica austríaca aos bancos centrais, desenvolvida nos anos 1920 e 1930.

E essa é também a causa da crise atual, que os analistas de plantão apregoavam ter sido debelada no segundo trimestre de 2009. Em relação à Grande Depressão, a diferença é que, 80 anos depois, os estados se agigantaram de tal forma, se intrometeram de tal sorte nos mercados e se endividaram de tal maneira que as taxas de juros “naturais”, ou seja, as que levariam à coordenação entre oferta e demanda, teriam que ser bem mais altas do que há oito décadas. Além disso, as permanentes mudanças nas regras do jogo que os governos passaram a promover contribuíram sensivelmente para dificultar essa coordenação tão necessária para o crescimento sustentado das economias.

Parece que nosso velho mundo enlouqueceu definitivamente. De fato, bancos centrais e bancos comerciais jamais criaram tanta moeda e tanto crédito e as dívidas públicas dos governos jamais atingiram os irresponsáveis níveis que hoje observamos, sob o olhar complacente do Comitê da Basileia, que se transformou em uma espécie de clube fechado, para zelar pelos bancos centrais e pelos banqueiros. E tudo sob as bênçãos "científicas" do keynesianismo e do monetarismo, teorias econômicas que já mostraram e continuam a demonstrar incapacidade para explicar o mundo real.

Para um economista austríaco, é motivo de riso ler o “diagnóstico”, que está hoje nos jornais, do recuo do PIB americano no final de 2012: “o pé no freio na produção das empresas e um histórico aperto de cintos do Pentágono”. Fala-se com verdadeiro pavor em um fiscal cliff (abismo fiscal), dilema que o governo dos EUA teria que enfrentar no final de 2012 (mas que conseguiu adiar por algumas semanas), quando os termos da Lei de Controle de Orçamento de 2011 estavam programados para entrar em vigor. Entre as mudanças, para simplificar, quedas de impostos e de gastos militares. Vejam só a que ponto de deformação o direcionamento dos currículos dos cursos de economia levou: medidas corretas, como essas duas, são tidas como “alimentadoras da crise” e causam terror. De outro lado, Bernanke e sua impressora de última geração continuam a pintar e lançar no mercado milhões de papéis com rostos de George Washington estampados. E quase todos acham isso muito bom.

Gente, está tudo errado! Como observa Leandro Roque em artigo no site do Instituto Mises Brasil, “o economista americano Steve Hanke, professor de Economia Aplicada da Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, EUA, considerado uma sumidade em assuntos monetários (foi ele quem acabou com todas as hiperinflações das ex-repúblicas soviéticas no Leste Europeu, da Bósnia e da Argentina), cunhou uma frase da qual todo cidadão comum jamais deveria se esquecer.  Hanke a rotulou de 'regra dos 95%': "noventa e cinco por cento de tudo que é escrito sobre economia ou está errado ou é irrelevante" [negrito meu]. Só discordo do Prof. Hanke em um ponto, que é a sua modéstia. Para mim, 95% é pouco, eu colocaria 99,99%. E, já que usei expressões latinas, vou abusar da sua paciência e escrever outra, bem apropriada para esse fato: medice, cura te ipsum (médico, cura a ti próprio).

Em outras palavras, é necessário que os economistas abandonem os velhos manuais de ciência econômica que, direta ou indiretamente, forjaram  sua formação, especialmente dois livros famosos que, juntamente com a Teoria Geral de Keynes, de 1936, deturparam a ciência econômica a ponto de transformá-la em algo inútil para explicar crises, embora de enorme utilidade em sua criação e perpetuação. O primeiro é o de Paul A. Samuelson, publicado em 1947, “Foundations of Economic Analysis”, uma ode ao keynesianismo, ao equilíbrio nos mercados e ao positivismo,  e o segundo é o de Milton Friedman, “Essays in Positive Economics” (1953), um hino de louvor à “economia positiva”, matematizada, econométrica e também intervencionista, apesar da fama de que desfruta Friedman, de ter sido um defensor do livre mercado. Foi, mas em parte, senão vejamos: como um verdadeiro defensor do livre mercado pode aceitar a existência de um banco central e, mais do que isso, sustentar que esse ente do estado imponha a todos os cidadãos e empresas uma “regra x” de crescimento monetário anual, segundo a qual os gênios do Fed determinariam, com base em previsões econométricas sobre o crescimento da demanda de moeda, qual deveria ser ou deixaria de ser a taxa de crescimento da oferta monetária? Pró-mercado? Sim, ma non troppo...

O mundo enlouqueceu? Vejo na Bloomberg um analista de um grande banco dos Estados Unidos afirmar que “não acredita em desaceleração acentuada, embora tema o ajuste fiscal” [negrito meu]. Isso lembra uma criança que leva um tombo, arranha o joelho e chora porque sua mãe quer fazer um curativo. Ora, ajustes fiscais não são para serem temidos, são para serem buscados, perseguidos, requeridos a qualquer custo de curto prazo, porque no longo prazo os cidadãos vão melhorar de vida!

A recessão só vai terminar quando suas causas desaparecerem por elas mesmas, ou seja, quando quem agiu no passado de maneira a quebrar, quebre, sem ajuda do estado para que não quebre, e os mercados fizerem o seu trabalho de ajuste. O curativo na criança pode arder, mas vai curá-la. Os “médicos” da economia, além de não fazerem o curativo, estão como que jogando terra suja na ferida e isto significa ou não infecção? No entanto, tenho consciência de que, tal como São João Batista, falo sozinho no deserto – na verdade, não estou só, há mais uns cinco ou seis economistas que pensam como eu no Brasil (na verdade, lembro-me neste momento de seis, a saber, Antony Muller, Fabio Barbieri, Fernando Ulrich, Domingos Branda e Ricardo Sulyak, além de Helio Beltrão, que não é economista mas sabe mais economia do que a imensa maioria deles). Minha esperança é que, em cinco anos, sejamos cem, em vinte anos mil, em trinta anos... -, e nesse sentido só posso dizer, de novo recorrendo ao latim, tempus est optimus judex rerum omnium (o tempo é o melhor juiz de todas as coisas).

Acho que em três gerações os economistas e o mundo financeiro vão parar de pensar exclusivamente no curto prazo e deixar de se comportar como cigarras barulhentas. Uma coisa é a recomendação evangélica de que “a cada dia basta as sua preocupação” (Mt 6:34), mas outra, bem diferente, é agir imprudentemente. Na economia quem não pensa no longo prazo está sendo imprudente e será certamente castigado pelas leis que regem a ação humana nos mercados: “A sabedoria do homem sagaz é conhecer o seu caminho e a imprudência dos insensatos é errante” (Prov., XIV, 8).

Políticas irresponsáveis, insensatas e imprudentes estão levando a economia mundial a errar, perambular, vaguear na geena dos ciclos econômicos, entre choros e ranger de dentes. A boa teoria econômica, aquela da tradição de Carl Menger, já nos ensinou isto, mas não custa repetir: “vincit omnia veritas” (a verdade vence todas as coisas). É só esperar. Com muita, mas muita paciência.