Dez. 2013 - A ESCOLA AUSTRÍACA E O CHARLATANISMO ON LINE

Artigo do Mês - Ano XII– Nº 141 – Dezembro de 2013

charl1Um charlatão, palavra que vem do italiano ciarlatano (vendedor loquaz de medicamentos e indulgências), segundo o dicionário Aulete, tem seis acepções: 1. Pessoa que explora a boa-fé de alguém para com isso obter ganho ou vantagens (dinheiro, prestígio), fingindo ou aparentando ter qualidades ou habilidades que na verdade não possui; impostor, embusteiro, trapaceiro; 2. Aquele que pratica a medicina ou técnicas curativas usando seus conhecimentos práticos, mas sem ter habilitação ou autorização oficial; 3. Aquele que anuncia e emprega produtos de composição secreta, supostamente capazes de curar diversos males e doenças; curandeiro; 4. Pessoa que anuncia e vende drogas e mezinhas, atribuindo-lhes propriedades curativas que não possuem; 5. Médico incompetente ou inescrupuloso, especialmente o que conquista clientela, prestígio ou fortuna por meios eticamente reprováveis; e 6. Que é ou age como charlatão (acps. 1 a 5); que explora a boa-fé de alguém, especialmente fazendo-se passar por profissional ou competente em determinada atividade (médico charlatão, cientista charlatão).

 

Tendo em vista essas definições, posso seguramente acrescentar que, infelizmente, o termo não se aplica apenas a médicos inescrupulosos. Há também economistas charlatães (ou charlatões) e, pelo que tenho observado, não são poucos. A lista de sinônimos é bastante extensa; vigaristas, trapaceiros, curandeiros, medicastoros, mezinheiros, pajés, raizeiros, embusteiros, burlões, carboteiros, ambidores, embromadores, angazopadores, falazes, impostores, intrujões, invencioneiros, maranhosos, mentirosos, pantomimeiros, traficantes, trampolineiros, trapalhões, velhacos, fariseus, fingidos, hipócritas, cabotinos, candongueiros, comediantes, fanfarrões, farsantes, filauciosos, gabarolas, gargantas, lambaceiros, paparrotões, parlapatões, potoqueiros, pretensiosos, tartufos, tratantes, boquirrotos, linguarudos, tagarelas, exploradores, balabregas, inconvenientes, indiscretos, intrigantes, loquazes, maldizentes, capadócios, algarvios, esparolabos, falaciosos, galpões, galreadores, gárrulos, palradores, taramelas e outros. A lista é tão extensa e contém palavras tão pouco usadas que as linhas que estou digitando estão repletas de avisos em vermelho...

Para simplificar, fiquemos apenas com falastrões, intrigantes, fanfarrões, falaciosos, inconvenientes, boquirrotos e tagarelas. Pelo que tenho observado em discussões no facebook – das quais deixei de participar por falta de paciência e para aproveitar melhor meu tempo - há indivíduos que conseguem atender a todos esses adjetivos.

Vejam, por exemplo, o que um economista – que não sei quem é, pois seus comentários me foram enviados em mensagem privada por um amigo do EPL -, postou ontem em uma “comunidade de economia” (relevo os inúmeros erros de português, pois ele deve ter escrito às pressas):

“A Escola Austríaca de Economia é um pequeno grupo de libertários em guerra com a economia mainstream. Eles rejeitam até mesmo o método científico que economistas usam, preferindo usar em vez de uma abordagem pré-científica que evita os dados do mundo real e é puramente baseado em premissas lógicas. Mas isso é o próprio método que milhares de religiões usam quando eles discutem suas crenças opostas, e o fato de que o mundo tem milhares de religiões demonstra a falibilidade desta abordagem. Academia tem, em geral ignorada a Escola Austríaca, e a única razão pela qual ela continua a existir é porque é financiado por doadores de negócios ricos no canto direito. O movimento não existe em seus próprios méritos acadêmicos”.

E mais:

“A escola austríaca do mises.org é perfeita, a realidade é que não é. O método da escola austríaca é, em presença de evidências empíricas que a contradizem, rejeitar o que é empírico e se masturbar com deduções (que não podem ser matemáticas, embora lógicas) a partir da tautologia da "ação humana" que jamais poderiam ser deduzidas de um princípio tão pobre.

Não há qualquer espaço pra esse método, em meio a acadêmicos sérios. Nem mesmo os neoclássicos supõem que a teoria deve ser totalmente deduzida de um princípio do tipo "praxeologia". Embora resistentes aos fatos reais, os ortodoxos ainda conseguem enxergar fatos óbvios, como a não-neutralidade da moeda, a ausência de pleno emprego, etc. Mesmo que sem abandonar a presuposição "cândida", de que vivemos no melhor dos mundos, a economia neoclássica pelo menos incorpora as falhas óbvias da sociedade de mercado no seu modelo.

Agora, essa galera do Mises... nem mesmo com todas as evidências contrárias que possam aparecer eles deixam de acreditar nas suas hipóteses surreais a respeito do funcionamento do mundo. A Escola Austríaca que essa organização política mises.org propaga não tem a menor relevância acadêmica e não pode sequer ser comparada com a teoria Marxista - Marx que é do conjunto de pensadores mais citados da história da Academia, juntamente com Nietzsche, Freud e Darwin.

Um conselho pra vcs, de quem já leu e acreditou nessas baboseiras, antes de ser exposto a uma verdadeira visão crítica a respeito da economia e do funcionamento da sociedade: parem de perder seu tempo precioso e vão estudar economia de verdade!”

Não vou perder meu tempo atirando pérolas em um chiqueiro, ou seja, rebatendo esse formidável conjunto de asneiras pretensiosas, eivadas de ideologia fantasiada de “ciência”, mas só quero ressaltar o charlatanismo, em várias das acepções que enumerei acima, contido em cada linha, cada afirmativa, cada sentença, cada expressão, cada opinião, em suma, em tudo!

charl2É evidente, desejável e imprescindível que qualquer indivíduo goze do direito de falar bem ou mal do que desejar, mas também é fundamental que, antes, ele tem a obrigação moral de saber o que está elogiando ou criticando. Se não atender a esse princípio elementar de ética, todos poderão dizer com razão que é um sujeito imoral e um charlatão da pior categoria.

A Escola Austríaca está – para desespero de seus “críticos” – crescendo a olhos vistos e isto, obviamente os está incomodando, porque é uma ameaça aos castelos de areia pretensamente científicos em que se refugiam. Pois bem, o que as normas éticas aconselham esses críticos a fazer em primeiro lugar? A resposta é óbvia: estudar a Escola Austríaca, seus autores, sua história, sua metodologia. Uma vez cumprida essa exigência moral, então, poderão criticá-la sem recorrerem à prática condenável do charlatanismo.

Será que esse cara estudou Marx, Nietzsche, Freud e Darwin (que ele cita)? Ou Richard Cantillon, David Hume, Adam Smith, David Ricardo, John Stuart Mill, Alfred Marshall, Leon Walras, Michal Kalecki, Piero Sraffa ou mesmo a Teoria Geral de Keynes? Duvido! Quanto aos austríacos, é desnecessário dizer que jamais os estudou, o que o desqualifica completamente para elogiá-los ou criticá-los. Quando critico esses autores que ele enaltece, é porque os li, é porque estudei suas obras, é porque me impus um mínimo de seriedade acadêmica, é porque detesto a prática do charlatanismo – e, mais ainda, do charlatanismo vulgar, de natureza ideológica, que demonstra claramente. Quando passei a me interessar pela Escola Austríaca, já tinha estudado esses e outros autores (como todos os economistas deveriam fazer), já tinha escrito um livro de Macroeconomia publicado pelo Ibmec e que foi um dos mais vendidos nos anos 80 (hoje, não acredito mais na Macroeconomia), já tinha dado inúmeros cursos sobre Keynes e os keynesianos, já tinha estudado com ex-alunos de Milton Friedman e outros expoentes da Escola de Chicago, já tinha concluído meu doutoramento na EPGE com uma tese repleta de Econometria, já tinha, enfim, percorrido meu caminho na maistream economics. Não me arrependo nem um pouco disso. Depois, foram incontáveis horas estudando a Escola Austríaca, desde sua história com os protoaustríacos até os autores do século XX. E continuo estudando até hoje, sempre achando que ainda falta muito para aprender.

Por isso, quando me deparo com um charlatão que mal deve conhecer a mainstream deitando falação sobre a própria mainstream e sobre a escola Austríaca, sinto pena. Sim, pena de sua pobreza intelectual, de sua ideologia barata, de sua preguiça para aprender, de sua aversão a outras ideias e de sua arrogância supostamente “intelectual”. Bastaria que esse economista desconhecido citado acima desse uma rápida espiada na página do Instituto Mises Brasil para verificar que nós não somos uma “instituição política”. Talvez não possamos atribuir a culpa total a ele, pois pode estar apenas repetindo o que ouviu de seus professores, tal é o estado do ensino da Economia atualmente, no Brasil e no mundo.

Mas, malgrado esse comportamento de charlatão venha crescendo na Internet, o que existe de bom é que está aumentando na razão direta do crescimento do prestígio da Escola Austríaca, já que a  mainstream está completamente desacreditada com seus diagnósticos e seus remédios para a crise econômica dos nossos dias. Vamos seguir nosso caminho, apesar dos ganidos dos que nos veem passando. Cara, vamos combinar uma coisa? Vai estudar primeiro e depois você volta para discutirmos seriamente...

Finalmente, quero frisar e reiterar que nós do Instituto Mises não nos consideramos donos da verdade e que a Revista Mises - Revista Interdisciplinar de Filosofia, Direito e Economia, da qual sou Editor, está aberta para receber artigos acadêmicos de qualquer corrente de pensamento.