Jun. 2014 - QUEM "DESCOBRIU" O PRINCÍPIO DA UTILIDADE MARGINAL?

Artigo do Mês - Ano XIII– Nº 147 – Junho de 2014

balmes[este artigo é um pequeno extrato do capítulo IX de meu livro Dos protoaustríacos ao primeiro austríaco: uma pequena história da Escola Austríaca, que deverá ser lançado no Brasil em setembro deste ano pelo Instituto Mises do Brasil]

Quem respondeu a essa pergunta dizendo Menger, Jevons e Walras, errou! De fato, qualquer estudante de economia, ou mesmo qualquer interessado nessa ciência, aprende desde cedo que o princípio (ou doutrina, ou lei) da utilidade marginal é uma descoberta daqueles três pensadores, que trabalharam independentemente, sem que qualquer um deles soubesse o que os outros dois estavam escrevendo, no ano de 1871. Carl Menger, William Stanley Jevons e Léon Walras são, assim, considerados os pais da doutrina da utilidade marginal, que resolveu o chamado paradoxo do valor, o que possibilitou desenvolvimentos extraordinários na teoria econômica, tanto na Escola Austríaca como na mainstream economics.

Isto vem sendo ensinado geração após geração, mas não corresponde à verdade,

embora – posso garantir – em cada dez mil economistas, talvez nove mil novecentos e noventa e nove não saibam disso, não por falha própria, mas porque lhes ensinaram diferente e, por sua vez, aqueles que lhes ensinaram também aprenderam da mesma forma tradicional.

Mas o que, afinal, estou querendo dizer com isso? Quem foi o verdadeiro “inventor” do princípio da utilidade marginal?

 

Em respeito à verdade e ao mérito, temos que afirmar que o verdadeiro “descobridor” da aludida – e importante – lei, na forma final em que ficou conhecida, foi Jaime Luciano Antonio Balmes y Urpiá (ou, em catalão,  Jaume Llucià Antoni Balmes i Urpià)!

Com efeito, incontestavelmente, foi Jaime Balmes (1810-1848) - como é mais conhecido -, sacerdote e filósofo catalão, que, em 1844, não apenas foi o primeiro a desatar o nó górdio do famoso paradoxo do valor que vinha desafiando os pensadores há séculos, como também o primeiro a expor claramente a lei da utilidade marginal. Balmes foi contemporâneo do prussiano Hermann Heinrich Gossen (nasceram ambos no ano de 1810), mas chegou a essa importante solução, que contribuiu para abrir o caminho para o posterior desenvolvimento da Escola Austríaca e da própria mainstream economics, em 1844 e, portanto, antes de Gossen, em seu artigo Verdadeira ideia do valor ou reflexões sobre a origem, natureza e variedade dos preços.

 Hermann Heinrich Gossen (1810-1858) chegou ao mesmo resultado – embora utilizando metodologia bem diferente, com forte apelo à matemática -, dez anos depois, ou seja, em 1854, em seu Die Entwickelung der Gesetze des menschlichen Verkehrs (Desenvolvimento das leis de trocas entre os homens). foi, portanto, Gossen o segundo a chegar à lei da utilidade marginal.

 Portanto, antes que Menger, Jevons e Walras chegassem ao princípio da utilidade marginal em 1871, dois outros estudiosos da economia já haviam cruzado a “linha de chegada”: Balmes foi o primeiro deles e Gossen o segundo.

 Jaime Balmes nasceu em Barcelona. Filósofo, teólogo, apologista, sociólogo e político, foi uma das personalidades mais interessantes da Espanha da primeira metade do Século XIX. Embora familiarizado com a doutrina de Tomás de Aquino e, portanto, guardando traços do pensamento do Aquinate, foi um filósofo original, sem pertencer a nenhuma escola específica.

 Embora seja totalmente desconhecido pelos economistas, que são tradicionalmente formados na tradição anglo-saxônica, ele é bastante popular no país catalão, onde, em quase todas as cidades, há uma rua ou praça que leva o seu nome, mas, mesmo na Catalunha, suas obras e contribuições são mais conhecidas agora do que durante o seu tempo.

 Em 7 de setembro de 1844, Balmes - o mais importante filósofo tomista da Espanha e da Europa do seu tempo - publicou um texto chamado Verdadeira ideia do valor ou reflexões sobre a origem, natureza e variedade dos preços, em que resolveu o paradoxo do valor, depois de séculos de respostas insatisfatórias ou parcialmente satisfatórias, apresentando claramente a noção de utilidade marginal, respondendo brilhantemente à questão; "por que uma pedra preciosa [que é um “bem de luxo”] tem um valor maior do que um pedaço de pão [um “bem essencial”]"?

 Sua questão e resposta peculiar e pioneira podem ser formuladas da seguinte maneira:

Como é que uma pedra preciosa vale mais do que um pedaço de pão, do que um vestido cômodo e, talvez, até do que uma saudável e grata vivenda? E responde:

 ..."Não é difícil explicá-lo; sendo o valor de uma coisa dado por sua utilidade ou aptidão para satisfazer as nossas necessidades, quanto mais precisa for para a satisfação delas, maior será o seu valor; deve-se considerar também que, se o número de meios aumenta, diminui a necessidade de cada um deles em particular, porque, podendo-se escolher entre muitos, nenhum é indispensável.  Aqui está por que razão há uma dependência necessária entre o aumento e diminuição do valor e a escassez e abundância de uma coisa.  Um pedaço de pão tem pouco valor, mas é porque tem relação necessária com a satisfação das nossas necessidades, porque há muita abundância de pão, mas diminuam a sua abundância e o seu valor rapidamente crescerá, até atingir um nível qualquer, fenômeno que se verifica em tempo de escassez, e que se torna mais palpável em todos os gêneros durante as calamidades da guerra numa praça acossada por um muito prolongado assédio" (Balmes, Ed. espanhola de 1949: 615-624). 

Desta forma, Balmes foi capaz de fechar o círculo da tradição continental e deixá-lo preparado para que a mesma fosse completada, aperfeiçoada e impulsionada, poucas décadas depois, por Carl Menger e pelos seus discípulos da Escola Austríaca de Economia.

Além dessa contribuição pioneira, como mostra Alex Chafuen no seu interessante artigo Roman Catholic authors and the free society: Jaime Balmes (1810-1848), ‎ in: http://www.chafuen.com/catholiceconomicsxixcentury/jaime-balmes, escrevendo sobre Baimes, nos dá algumas características que nos permitem sem qualquer margem para dúvidas afirmar que Balmes foi um protoaustríaco - e dos melhores:

(a) Escreveu diversos artigos e ensaios sobre temas relevantes para a liberdade, publicados nas coleções de seus Estudios Sociales e originalmente publicados nos Cuadernos de La Sociedad: sete ensaios críticos sobre o socialismo, que abarcam desde a visão de Thomas More até os erros do sistema de Robert Owen;

(b) Foi, como assinalamos, o primeiro a encontrar, em 1844 - a explicação correta para a ideia do valor e sobre a origem, natureza a variedades dos preços, antecipando em dez anos a solução de Gossen e em vinte e sete anos a de Menger, Jevons e Walras. Contribuiu, portanto, decisivamente, para o desenvolvimento da tradição austríaca que se desenvolveu a partir dos Principles de Menger;

(c)  Dedicou cerca de vinte e cinco páginas, dos capítulos XVIII até o XXVI, de seu Curso de Filosofía Elemental aos temas da propriedade privada, do trabalho, dos tributos, da lei civil, da usura e  outros relevantes para a Escola Austríaca.

A essas podemos, creio, acrescentar uma quarta:

(d) Balmes deu um tratamento subjetivista e, portanto, marcadamente austríaco, à questão.

Uma ciência, seja ela social ou exata, não é algo que nasça pronto, a partir do nada. E uma ciência social como a economia é particularmente dinâmica. É sempre fruto do trabalho de gerações de pesquisadores, cientistas e pensadores que, a partir de algum ou de alguns colegas que os antecederam, contribuem com suas próprias ideias, deixando as tarefas que executaram para serem aperfeiçoadas ou ampliadas ou, mesmo, negadas pelos pesquisadores, cientistas e pensadores das gerações seguintes.

Assim como uma ciência não nasce pronta, ela também nunca fica pronta ou acabada. A evolução de uma ciência, seja ela qual for, é um fenômeno que caracteriza as ordens espontâneas, expressão que Hayek usou para designar os fenômenos, tal como a linguagem e a moeda, que são resultantes da livre ação humana, mas que não são planejados pelo Estado ou por grupos específicos.

É como um edifício em permanente reforma e construção, em que cada operário, desde aqueles que iniciaram a obra, acrescenta a sua pedra de contribuição ao prédio. Algumas dessas pedras são angulares e geralmente são colocadas pelos chamados fundadores da ciência; outras são menos grandiosas ou importantes, mas sem elas também não existiriam as pedras angulares.

Na ciência econômica, o pesquisador a quem se costuma atribuir sua paternidade é Adam Smith, com a publicação, em 1776, de A Riqueza das Nações, obra que sem dúvida deu uma importante contribuição para erigir o edifício. Porém, mais importante do que a contribuição daquele brilhante escocês foi a do irlandês de origem hispânica Richard Cantillon, que foi o primeiro a apresentar a economia de forma sistematizada, 46 anos antes da publicação de A Riqueza das Nações, em seu brilhantíssimo Essay sur la nature du commerce en général, escrito por volta de 1730 e publicado na França em 1755.

No caso da Escola Austríaca, a pedra fundamental foi colocada na obra pelo “pedreiro” Carl Menger, considerado por todos, com justiça, como o seu fundador. No entanto, Menger não colocou essa pedra no vazio, ele a cimentou sobre outras muito importantes que foram colocadas por muitos de seus antecessores nos séculos anteriores.

Fazendo analogia com o futebol (já que estamos em plena Copa do Mundo), podemos dizer que, quando Conca recebe a bola de Jean e, após driblar três adversários, a entrega para Fred fazer um gol, no futuro, todos se referirão a ele como “aquele gol do Fred contra o Flamengo”, mas, se Jean não tivesse entregado a bola para Conca e este não a tivesse lançado para Fred, não existiria “aquele golaço de Fred”. A “bola” chegou a Jaime Luciano Antonio Balmes y Urpiá de outros pensadores, desde os pós-escolásticos, que a passaram sucessivamente, em um olé  de séculos, para Cantillon, Turgot, Galiani, Bandini, Delfico, Say e Bastiat; este a entregou para Balmes, que então driblou três "rubronegros" e a lançou para que o artilheiro Menger fizesse o gol.

Portanto, o verdadeiro e incontestável pai do princípio da utilidade marginal não foi Menger, nem Jevons e nem Walras, mas Jaime Balmes. Vivendo e aprendendo, não?...