Jul. 2014 - POR UMA ESCOLA AUSTRÍACA “VIVA”

Artigo do Mês - Ano XIII– Nº 148 – Julho de 2014

livingTerminei recentemente de escrever meu primeiro livro sobre História do Pensamento Econômico, uma experiência nova e ao mesmo tempo gratificante. Esse trabalho acadêmico serviu-me, entre outras coisas, para fazer com que certas ideias, que eram simples intuições, se consolidassem em mim como fatos incontestáveis. Uma delas foi a percepção clara de quão importante é refletir sobre Teoria Econômica e História, para que não caiamos no erro comum de julgar cada pensador como se ele estivesse vivo hoje, como se fosse nosso contemporâneo, como se pudéssemos falar com ele pelo Skype, pelo celular ou whatsapp. À medida que escrevia cada capítulo, pude ir percebendo com clareza cada vez maior que não é assim e vou tentar explicar por quê.

 

Agrada-me o alerta do Prof. Peter J. Boettke, da  George Mason University, na Virgínia, um dos austríacos de maior renome acadêmico da atualidade, que no capítulo 11 (Back to the future: Austrian economics in the twenty-first century) e no Prefácio do livro Handbook on Contemporary Austrian Economic [publicado por  Edgard Elgar, em 2010, por ele editado], adverte com bastante propriedade que a Escola Austríaca contemporânea não é um corpo unificado de pensamento e que seria um grande erro sugerir que é. Nesse sentido, meu livro poderia muito bem ser intitulado ou considerado algo como “Volta ao passado: a Escola Austríaca do século XIV ao século XIX”, uma volta repleta de aprendizado, que é como espero que o leitor o absorva. [O título do livro é Dos protoaustríacos ao primeiro austríaco: uma pequena história da Escola Austríaca, que será publicado pelo Instituto Mises do Brasil muito em breve].

Boettke é o autor de Living Economics: yesterday, today and tomorrow [The Independent Institute-Universidad Francisco Marroquin, 2012]. Esse livro ganhou, em novembro de 2012, o Prêmio de melhor obra sobre a Escola Austríaca, concedido pela Foundation for Economic Education (FEE) em associação com a Society for Development of Austrian Economics (SDAE). Nele o autor introduz a ideia de que a ciência econômica afeta todas as esferas da vida, nos mercados, em uma cabine de voto, em uma igreja, em família ou em qualquer atividade humana. O Professor da George Mason University acredita que a economia não é apenas um jogo para ser disputado por profissionais inteligentes, mas uma disciplina que aborda as questões práticas mais urgentes em qualquer momento histórico. Na economia estão em jogo a riqueza e a pobreza das nações e a extensão e a qualidade de nossas vidas gira em torno das condições econômicas que nos condicionam. E, mais que tudo, que a Ciência Econômica não é um corpo consolidado, uma rocha, mas que ela vive, vale dizer, transforma-se e se aprimora ao longo do tempo.

O famoso historiador inglês Quentin Skinner, em Meaning and Understanding in the History of Ideas [in: History and Theory, Vol. 8, No. 1, 1969], já nos anos sessenta do século XX antecipava o mesmo alerta de Boettke a respeito do erro de considerarmos a História como um sistema fechado, que aqui repito:

“Este procedimento dá aos pensamentos de vários escritores clássicos uma coerência e um ar geral de um sistema fechado, que podem nunca ter alcançado ou até mesmo sido feitos para alcançar”. [tradução livre minha]

A ciência econômica e, portanto, a Escola Austríaca, não pode ser entendida nem tratada como um sistema fechado, pronto, acabado ou, para utilizarmos uma expressão do “economês”, em estado de equilíbrio geral de longo prazo. Ela vive, é dinâmica, altera-se conforme cada autor e cada época, utilizando-se de conhecimentos de autores pretéritos, elabora novas hipóteses, abordagens, introduz elementos que não existiam anteriormente, enfim, que a arejam e modernizam,  fazendo-a respirar em busca de novos ares a libertando-a definitivamente de concepções do tipo ótimo de Pareto.

A teoria econômica, tal como os mercados, a moeda, a linguagem e muitos outros fenômenos sociais, é uma ordem espontânea. Ninguém “planeja” uma teoria econômica perfeita e imutável. Simplesmente ela vai evolvendo de acordo com o confronto entre os pensamentos dos acadêmicos do presente, do confronto destes com os grandes autores do passado e do desafio de encontrar explicações científicas que nos permitam entender o que para as gerações anteriores era o futuro, mas que, para nós, já é o presente, da mesma forma que aquilo que para nós é hoje o futuro será o presente para nossos colegas que nos sucederem.

Assim como a Escola Austríaca não poderia ter “parado” nas obras dos protoaustríacos (desde os pós-escolásticos até Menger), ela não pode ser sintetizada em Menger, ou Wieser, ou Böhm-Bawerk, ou Mises, ou Hayek, ou Kirzner, ou Rothbard, ou em nenhum outro, por mais brilhante que seja ou tenha sido. Sem dúvida, essa estagnação lhe seria fatal e não apenas para ela, mas para qualquer teoria que trata de uma ciência social.

Na visão de Ortega y Gasset, famoso filósofo liberal do século XX, a História, é um sistema que tem um papel muito importante, no sentido de que é por meio de seu estudo que, conhecendo o passado, o ambiente, os usos e costumes dos pensadores e, especialmente, em um sentido prático, dos agentes pretéritos, podemos compreender adequadamente o presente, para que no futuro tentemos evitar o que não deu certo,  procurar apreender o que deu certo e, então, aplicá-lo ao estado das artes vigente que, certamente, mudou em relação ao dos estudiosos do passado. Na verdade, nem a Escola Austríaca nem qualquer outra, em qualquer área científica, jamais foram corpos unificados de pensamento: foram e ainda são muito mais conjuntos de fragmentos colhidos aqui e ali, de diversos autores e que com o passar do tempo foram constituindo um corpo comum de conhecimentos, compartilhado pelos estudiosos de cada tendência.

Isso pode ser escrito, como vimos, de outra forma: a História – para usarmos a linguagem de Hayek (e que foi sugerida por Menger em 1871) – é uma ordem espontânea, ou seja, um processo dinâmico de acontecimentos e decisões movidos pela ação humana, porém sem que obedeçam a estruturas previamente planejadas. Mergulhar, portanto, na História, é estudar a ação humana dos nossos antepassados, aprender em que erraram e acertaram e investigar porque erraram e acertaram, de acordo com as circunstâncias das épocas em que viveram. A História, assim como a linguagem, o sistema monetário e os mercados, são processos de tentativas e erros, são procedimentos de descobertas dinâmicos e permanentes.

Voltando a Boettke, vejamos o que escreve no Prefácio do livro a que aludimos:

“Kirznerianos, rothbardianos e lachmannianos são vários rótulos que têm sido utilizados para caracterizar indivíduos e as suas contribuições. Misesianos e hayekianos são metaetiquetas que têm sido muitas vezes usadas por amigos e inimigos das respectivas vertentes de pensamento dentro da Escola Austríaca Moderna. Da forma como a enxergo, a Economia Austríaca contemporânea é um programa de pesquisas progressivo e não um corpo resolvido de pensamento e esse é o único caminho a seguir - o que significa que não devemos nos preocupar com a fidelidade às obras de qualquer pensador passado ou presente e sim em apenas buscar a verdade tal como a enxergarmos, acharmos e tomarmos ideias produtivas onde quer que possamos encontrá-las”. [tradução livre minha]

Na verdade, não há nada de novo nessa afirmativa. Esta era a maneira como Mises e Hayek enxergavam as ciências sociais. O cruzamento das ideias de Menger e Böhm-Bawerk com as de economistas ingleses como Wicksteed (tinturas austríacas) ou mesmo Mill (cuja famosa quarta proposição fundamental influenciou a Teoria Austríaca do Capital), economistas suecos, como Wicksell (de quem a Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos absorveu o conceito de taxa natural de juros), economistas franceses como Turgot e Bastiat, belgas como De Molinari, italianos, como Bandini, Galiani e Delfico, espanhóis (como a maioria dos mais proeminentes pós-escolásticos e, no século XIX, Jaime Balmes)e economistas americanos (como Knight e Clark), era a melhor alternativa que Mises e Hayek vislumbravam a respeito da atividade intelectual de um economista. Tal cruzamento não significa completa concordância ou consistência, mas sim uma seleção capaz de melhorar as concepções sobre a economia.

A questão essencial com que nos confrontamos ao estudar qualquer texto, é o que o seu autor, no momento em que escreveu para o público que pretendia alcançar, desejava comunicar alguma ideia ou proposta. Portanto, o objetivo essencial de qualquer tentativa de compreender as afirmativas do autor, deve ser o de identificar essa sua complexa intenção. Consequentemente, a metodologia apropriada para a história das ideias deve se preocupar, antes de qualquer outra coisa, com a demarcação de todo o conjunto de comunicações que poderia ter sido convencionalmente realizado por ocasião do enunciado dado pelo autor e, depois, com o delineamento das relações entre o enunciado dado e o contexto linguístico mais amplo, como um meio de decodificar a intenção real do pensador.

Uma crença quase metafísica a que a mitologia da coerência - isto é, a de que as doutrinas são corpos unificados de pensamento -, dá origem é que ela leva a se esperar de um escritor que não apenas mostre coerência interna - que se transforma, assim, em um dever de cada intérprete revelar, mas também que todas as barreiras aparentes a essa revelação, constituídas por quaisquer contradições aparentes que o trabalho do escritor possa sugerir conter, não podem ser barreiras de fato, simplesmente porque não podem existir contradições.

Uma constante vítima dessa mitologia da coerência, inclusive por parte de muitos austríacos, é Hayek. Tenho lido muitas críticas a ele no sentido de que teria sido um “social democrata” ou um “intervencionista”, o que os levam a classificá-lo  simplesmente como um teórico liberal do século XX; entretanto, o que esses críticos deixam em segundo plano é que os pontos de vista dele e, principalmente, o público para quem escrevia e as circunstâncias da época em que ele tinha quarenta anos, em plena era dos autoritarismos, eram completamente diferentes de seus pontos de vista, do público e das circunstâncias existentes quando ele tinha oitenta e tantos anos. 

Por isso, quando me perguntam – e isso ocorre com certa frequência – se sou misesiano ou hayekiano, gosto de responder que “sou” não apenas esses dois grandes economistas, mas, também, mengeriano, bawerkiano, kirzneriano, lachmanniano, rothbardiano, garrisoniano e outros anos, porque “sendo” todos eles e acrescentando a isso minhas próprias reflexões e as de alguns de meus diletos colegas, somente assim posso ser eu mesmo.

Muitos dos críticos de botequim da Escola Austríaca, portanto, estão absolutamente equivocados quando dizem que ela “parou no tempo” e que de Mises e Hayek em diante nada mais produziu. Erram, obviamente, porque não leram os autores que se seguiram a esses dois citados, o que torna suas críticas intelectualmente desonestas; mas erram também porque desconhecem os argumentos que alinhavamos neste artigo, mostrando que a ciência econômica e, portanto, a Escola Austríaca, é um corpo vivo de conhecimentos, um corpo não unificado e sempre inacabado de pensamento.

Como economistas austríacos deste início do século XXI, nossa grande tarefa é trabalhar para desenvolver esse organismo vivo, adaptando-o às circunstâncias do mundo moderno, mas sempre respeitando os postulados invariantes ao tempo que aprendemos com nossos magistrais antecessores, como o da ação humana e o da limitação e dispersão do conhecimento (o último mesmo com a fantástica e veloz disseminação de conhecimentos que a revolução tecnológica produziu nos últimos anos). Uma das propostas da revista do IMB, MISES – Revista Interdisciplinar de Filosofia, Direito e Economia é exatamente a de servir, além de elemento de divulgação de ideias consagradas de grandes autores, também como palco caracterizado por essa busca permanente pela vitalidade por parte da Escola Austríaca.