Dez. 2017 - MISES ERA MACHISTA?

Artigo do Mês - Ano XVI– Nº 189 – Dezembro de 2017

 

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O que pensava Mises sobre os papéis da família e da mulher na sociedade? Em Socialismo (Socialism: An Economic and Sociological Analysis) ele combateu dois estratagemas retóricos socialistas de sucesso. O primeiro era o de  apresentar o socialismo como "indo além" do liberalismo, no mister de liberar o ser humano. Karl Marx (1818-1883)  e Friedrich Engels (1818-1883) haviam reconhecido os méritos do capitalismo para a produção sem restrições, mas o criticavam por não ter ido longe o suficiente para abolir as instituições que impediriam o florescimento da raça humana. A segunda artimanha, análoga, era usada pelas feministas socialistas dos século XVIII e XIX: admitiam que a condição das mulheres havia melhorado no curso dos séculos anteriores, com o capitalismo, mas não o suficiente. E que a instituição do casamento teria impedido que acontecessem progressos adicionais, porque o casamento estabelecia a dominação masculina sobre as mulheres, por natureza mais fracas, e impedia sua capacidade produtiva. A solução, na visão delas, era proibir o casamento e substituí-lo por laços espontâneos e soltos entre companheiros. Como se vê, nada diferente – a não ser o fato de a gravidade do problema ter aumentado -, em essência, do que se observa nos dias atuais, em que as instituições do casamento e da família sofrem ataques intermitentes, agora com apoio praticamente integral dos meios de comunicação, diferentemente do que acontecia há um século.

 

Mises, assim como mostrara que a crítica socialista à instituição da propriedade privada era falaciosa, apontou em Socialismo as falácias feministas contra a instituição do casamento, mostrando que o progresso histórico na condição da mulher era consequência de avanços nos princípios contratuais, que reconheceram os direitos de propriedade privada e a eliminação da violência contra os direitos de propriedade das mulheres. Argumentou que homens só podem dominar  mulheres se detiverem  a propriedade sobre elas e que, a partir do momento em  as mulheres passaram a ter seus direitos de propriedade reconhecidos como legítimos, a base econômica para a dominação foi destruída.

Mas esse tipo de feminismo era apenas um ramo do libertarianismo, na medida em que defendia a liberdade dentro dos limites da propriedade privada e plena igualdade jurídica entre homens e mulheres. Isso levou Mises a escrever que

 

"A luta da mulher para preservar sua personalidade no casamento é parte dessa luta pela integridade pessoal que caracteriza a sociedade racionalista da ordem econômica baseada na propriedade privada dos meios de produção. Não é exclusivamente  de interesse da mulher que ela deve ter sucesso nesta luta; contrastar os interesses de homens e mulheres, como as feministas extremadas tentam fazer, é uma tolice muito grande. Toda a humanidade sofreria se a mulher não conseguisse desenvolver seu ego e fosse incapaz de se unir com o homem como companheiros iguais, livres e camaradas"."(1)

 

Mas as feministas socialistas daquele tempo – tal como as atuais – não concordavam com isso, pois o que elas queriam mesmo era a proibição do casamento, que seria uma instituição prejudicial a elas. Ao rejeitarem o argumento da propriedade privada, não percebiam que seu repúdio ideológico  era insustentável, porque a história já demonstrara que a propriedade privada tinha cumprido uma função social que nenhuma outra instituição poderia exercer. Mas o que era, afinal, a  função social do casamento? Afinal, não havia nenhum dispositivo legal para as mulheres que as obrigasse a se casarem, elas simplesmente escolhiam voluntariamente se casar e, portanto, poderiam facilmente evitar o destino cruel que, de acordo com elas, o casamento lhes reservaria. Mises argumentou que o casamento servia a necessidades femininas específicas, e que servia melhor do que qualquer arranjo social alternativo. Essas necessidades específicas estavam enraizadas no fato de que a "função sexual", o desejo de "render-se a um homem” e “seu amor pelo marido e os filhos” consumiriam suas melhores energias.

Obviamente, Mises não seria absolvido no tribunal da esquerda feminista atual, embora as opiniões que emitiu em Socialism não contivessem as idiossincracias da misoginia, mas apenas uma versão mais moderada da teoria mais amplamente aceita sobre as  diferenças de gênero de seu tempo, a teoria geral sobre homens e mulheres que Otto Weininger – aquele ex-colega de Mises que se suicidou teatralmente em 1903, sentado ao piano que pertencera a Beethoven - em Sexo e caráter, publicada no mesmo ano, com base em uma revisão abrangente dos dados científicos disponíveis naquele momento. (2) Weininger definia um princípio masculino (M) e um princípio feminino (F), que estariam presentes em diferentes proporções em cada indivíduoe as mulheres seriam, naturalmente, dominadas pelo princípio F. Enquanto F seria totalmente preenchido e tomado pela sexualidade, M seria atraído por muitas outras coisas, como  lutas, esportes, sociabilidade, discussão, ciência, negócios, política, religião e arte.  Segundo essa teoria, seria por isso que as mulheres tendem a escolher o casamento, renunciando às conquistas que poderiam ter obtido caso não tivessem se casado. Na opinião de Mises, aparentemente, isso poderia explicar por que as realizações femininas, até aquela época, não correspondiam às masculinas. Em Socialism, adotando postura mais cautelosa, ele escreve:

 

"Pode ser que uma mulher possa escolher entre enunciar à alegria feminina mais profunda,a alegria da maternidade, e o desenvolvimento mais masculino de sua personalidade em ações e esforços. E  pode ser que ela não tenha essa escolha. Pode ser que, reprimindo seu desejo de maternidade, que ela cause uma ferida que reage através de todas as outras funções de seu ser. Mas seja qual for a verdade sobre isso,o fato é que quando ela se torna mãe, com ou sem casamento, ela é impedida de liderar sua vida tão livre e independente quanto o homem. Extraordinariamente,mulheres superdotadas podem conseguir coisas boas apesar da maternidade, mas pelo fato da  função do sexo sera principal aspiração da mulher, o gênio e  as maiores conquistas lhes são negadas." (3)

 

Mas seria Mises machista, chauvinista ou misógino? A resposta é: não! Em primeiro lugar, temos que interpretá-lo sempre tendo em vista a época em que escreveu e o público a que se dirigia e isto é válido não só para Mises e seu livro Socialism, mas para toda a sua extensa obra e para qualquer outro autor, especialmente na área de ciências sociais.  Em segundo lugar, as definições de machismo, chauvinismo e misoginia pressupõem a crença de que homens são “superiores” às mulheres, algo que ele jamais escreveu ou afirmou. Pelo contrário, Mises foi um dos poucos homens em posição proeminente em seu tempo que promoveu ativamente várias jovens intelectuais femininas. Lene Lieser, Marianne Herzfeld e outras escreveram suas dissertações de doutorado sob sua orientação e ambas, assim como Ilse Mintz, Martha Stephanie Braun, Elisabeth Ephrussi e outras eram membros regulares de seu seminário particular. Se nenhuma dessas intelectuais chegou a obter uma cátedra, não foi certamente por culpa de Mises, pois ele não conseguiu isso também para seus estudantes do sexo masculino e nem mesmo para si próprio. O que estava ao seu alcance ele fez, ajudando alunos e alunas a obterem empregos bastante cobiçados e que permitiam desenvolver  interesses intelectuais. Esse foi o caso de Herzfeld e Lieser, ambas economistas da Associação Austríaca de Bancos e Banqueiros.

Quando Mises contrapôs-se às reivindicações do feminismo socialista radical, o fez não porque alimentava antipatia por suas associadas ou porque era conduzido por algum desejo vicioso de manter as mulheres "em seu devido lugar". Pelo contrário, era a integridade intelectual que o levava a insistir em suas opiniões sobre as relações de gênero, opiniões que, mesmo em seu círculo formado por anti-socialistas, provavelmente poderiam causar ressentimentos em alunas mais desprendidas, como Martha Stephanie Brown. Afirmou textualmente que: “Não há lei humana que possa prevenir a mulher que busca a felicidade em uma carreira de renunciar ao amor e ao casamento”. E, ainda, "Abolir o casamento não permite a ninguém fazer uma mulher mais livre e feliz,  mas sim  meramente tirar dela o conteúdo essencial de sua vida, e sem oferecer nada que possa substituí-lo”.  

            Portanto, se é que se possa fazer alguma acusação a Mises, é a de que ele era um homem típico do seu tempo e, até, relativamente adiante. E nada mais do que isso.

 

 

Notas

 

1. Ludwig von Mises. Socialism: An Economic and Sociological Analysis.p. 64.

 

2. Otto Weininger. Geschlecht und Charakter. Hulsman cita a 19ª ed. publicada por Braumüller.Vienna. 1920. Cap. 2.  pp. 106–08.

 

3. Mises. Socialism. p. 86

 

4. Ibidem.  p.90