Artigo do Mês - Ano IV - Nº 45 – Dezembro de 2005

 

 OLHOS E ANTOLHOS

                                      Ubiratan Iorio

 

 

“O samba, o futebol e outras bossas são – cantava Noel Rosa nos anos 30 do século passado – nossas coisas, são coisas nossas”. Caso o grande Poeta da Vila fosse ainda vivo, certamente consideraria entre as “outras bossas”, com a grande inteligência e agudeza de pensamento de que era dotado, a incrível e patológica mania que noventa e nove em cada cem brasileiros tem de se fixar apenas nos efeitos de qualquer questão e de revelar total despreocupação com as causas, como se efeito sem causa fosse mesmo um fenômeno factível.

 

Os antolhos que levam muitos a enxergarem apenas o curto prazo, sem se preocuparem com o longo prazo – e que os levam a acreditar que ataques isolados aos efeitos podem surtir bons efeitos, mesmo sem a busca das causas -, não atingem só os olhares dos brasileiros, nem tampouco os dos demais latino-americanos, é mundial, especialmente desde que Lorde Keynes decretou, com empáfia e sem qualquer dose de modéstia que, no longo prazo, estaríamos todos mortos... Um perigoso truísmo que, se levado a sério, pode nos levar a viver a filosofia das cigarras, deixando sempre para amanhã o que deveria ser feito hoje. Mas nós, filhos da Terra de Santa Cruz, indubitavelmente, somos os campeões mundiais dessa patologia do curto prazo. Somos um povo que vive com antolhos e, por isso mesmo, somos conduzidos pelos ditos “homens públicos” como burros, sempre a carregar sobre nossos ombros um peso igual ao somatório de nossa falta de visão com o oportunismo da classe política.

 

Deixar sempre para amanhã... Para que fazer as reformas no Estado e nas instituições, tão profundas quanto necessárias para que nossas vidas possam melhorar, para que deixemos de puxar a carroça lotada de gastos públicos desnecessários, supérfluos e, muitas vezes, criminosos? É mais cômodo e politicamente mais palatável irmos aumentando um impostozinho cá, outro acolá, baixando uma medida provisória aqui, outra ali, fazendo um ajustezinho algures, outro alhures... e assim, chegarmos, na estrada do desenvolvimento e da dignidade humana, a nenhures. “Deixar para amanhã”, se algumas vezes pode ser um ato indicativo de prudência, comedimento ou prudência, quando se torna uma ação permanente, transforma-se no lema dos vencidos...

 

Tais considerações vieram-me à mente a propósito da quizília que vem envolvendo a ministra/economista/cigarra Dilma Rousseff e o ministro/médico/formiga Antonio Palocci, a primeira querendo aumentar (e, efetivamente, aumentando, como o fez acintosamente há dias) gastos públicos e o segundo tentando contê-los. A querela, a esta altura do campeonato, nos remete a um passado de erros, nos traz de volta a um presente que mostra que os mesmos não foram absorvidos e nos envia a um futuro de mais problemas, todos facilmente previsíveis.

 

Esta discussão mais do que inoportuna – uma autêntica parlenga – ressuscitada pelos “desenvolvimentistas” com antolhos é antiga. Em agosto de 1979, o presidente Figueiredo trocou Mário Henrique Simonsen que, à evidência dos dois choques do petróleo e do choque da taxa de juros norte-americana, percebeu que nossa economia precisava de um forte ajuste fiscal, por Delfim Netto que, então na pasta da Agricultura e visando o comando da Economia, com o apoio da FIESP, prometeu que, “desenvolvimentista” como era, a economia brasileira voltaria a crescer. Deu no que deu... poucos meses de euforia, no primeiro semestre de 1980, seguidos de uma formidável ressaca, que nos levou a dois fundos, o do poço e o FMI.

 

Anos depois, em agosto de 1985, Sarney demitiu Dornelles da pasta da Fazenda e o substituiu por uma dupla que representava os interesses do PMDB e da FIESP, Funaro e Sayad que, com seus “cruzadeiros” heterodoxos, inauguraram no país a era das trevas dos congelamentos de preços, das desindexações, das “tablitas” e otras cositas más... Isto para não falarmos de Juscelino que, alertado pelo mestre Eugenio Gudin e por Lucas Lopes de que aquela maluquice de “avançar cinqüenta anos em cinco” agredia duas lógicas, a do tempo e a das leis econômicas, trocou-os por José Maria Alckmin, levando a economia a um crescimento que não tinha a menor possibilidade de ser sustentado e que, com a sanção de Jânio e o posterior sindicalismo bagunceiro de Jango, desorganizaram completamente o país.

 

Penso que seria mais do que tempo de aprendermos, se não com os bons livros de Economia, pelo menos com a boa conselheira que sempre foi a História. Se errar é humano e persistir no erro é demonstração de falta de inteligência, insistir na persistência, então, seria o que? Burrice incurável, puro oportunismo político ou ambos os defeitos?

 

Se o pior cego é aquele que não quer ver, o que dizer então daqueles – e daquelas, para sermos “politicamente corretos” – que, além de não desejarem ver, ainda colocam antolhos para potencializar ainda mais sua cegueira voluntária?

 

Ó filhos da Pátria, tão habituados à limitação dos antolhos, quando aprendereis que causa é causa e efeito é efeito? E que focinho de porco não é tomada?

 

 

 

 

 

 Presidente do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista - Cieep

 

 

 

 

 

 



 
                                                                           
                                                                          

                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           







                    

 

 

    Artigo do Mês - Ano IV - Nº 44 –Novembro de 2005

 

 

 

 

 

A “MP DO BEM”: SIMPLES ESMOLA

 

                                      Ubiratan Iorio

 

É mesmo impressionante como os brasileiros contentam-se com tão pouco. Explorados, enganados, iludidos, desiludidos e corroídos pelo Estado todo poderoso, mais se assemelham a um rebanho de pachorrentas ovelhas, ao sabor do cajado do pastor de ocasião. O que mais irrita, em muitas ocasiões, é que muitas cabeças desse rebanho, principalmente empresários, que deveriam ser os mais vigilantes do cumprimento de direitos elementares que lhes são subtraídos crescentemente, há décadas, pelos governantes, preferem agir inversamente ao que o caráter reto, a coragem e, mesmo, o patriotismo, exigem, pondo-se a festejar e a bajular qualquer esmola que o Estado, fingindo-se de bom moço, deixa cair em seus chapéus, covarde e subjugadamente estendidos, na rua das reivindicações.

 

A última demonstração de subserviência e de covardia servil pode ser vista nestes dias, após a edição da chamada “MP do Bem”, em que o governo, “generosamente”, como se nos estivesse prestando um grande favor, abriu temporariamente mão de uma receita de R$ 5 bilhões, ao reduzir incidências de PIS e COFINS e prazos de isenção de ICMS para taxistas e ao dobrar de R$ 1,2 bilhão para R$ 2,4 bilhões o teto máximo de receita das microempresas classificadas, na engenhosa e solerte terminologia burocrática, como “Simples”.

 

É com tristeza que temos visto o que deveria ser um grito ao governo, entoado harmonicamente por todos os que produzem, algo como “caramba, caracoles, deixa-me trabalhar, não me amoles”, ser substituído por dezenas de elogios ao gesto de “bondade” do dr. Palocci. Pior do que isso, na bajulação explícita dos encômios, muitos terminam afirmando que a MP será ótima porque, apesar de retirar receita do governo agora, a aumentará no futuro, já que, com o aquecimento da economia que certamente desencadeará, o Estado arrecadará no futuro mais do que os R$ 5 bilhões de que está, pleno de bondade, abrindo mão.

 

Anos e anos de keynesianismo acadêmico e de esquerdopatia prática acabaram produzindo muitos danos à própria maneira de pensar, exatamente de quem deveria bater-se por idéias opostas às que sustentam essas bajulações. De fato, muitos empresários – para não dizermos a grande maioria de nosso pacato povo - acreditam mesmo que um real nas mãos do Estado é melhor do que o mesmo real nas mãos de quem o ganhou com o seu trabalho, acordando cedo, esforçando-se e correndo todos os riscos inerentes à verdadeira atividade empresarial, ou, no caso de um trabalhador assalariado, empenhando-se com dignidade para executar as suas tarefas com perfeição humana. Isto é uma mentira plantada e é espantoso que ainda não tenham percebido sua escabrosidade  afirmativa!

 

Em uma economia sufocada, esganada e subjugada por 74 tributos, com uma carga tributária que se assemelha a um regime de trabalhos forçados e com um sistema tributário em tudo semelhante a um manicômio, é evidente que uma pequena generosidade dos entes arrecadadores deve ser vista com bons olhos. A crítica não é a esta medida em si, mas ao fato de tratar-se de uma simples esmola, um simples talento, quando o Estado poderia – e deveria –devolver aos verdadeiros donos milhões de talentos!

 

Mais talentos em mãos privadas e, portanto, menos nas do Estado significam menos mensalões, menos corrupção, menos nepotismo e menos burocracia e, certamente, mais empregos, mais produção, mais justiça e maior dignidade da pessoa humana.

 

É evidente que nossos vorazes publicanos sabem que a carga tributária no Brasil penaliza quem trabalha e impede a economia de crescer, tanto que a “MP do Bem” foi posta na ordem do dia como mais um diversionismo do governo petista para desviar a atenção das acusações de corrupção em que chafurda e também como medida eleitoreira, na expectativa de que os benefícios da medida possam carrear votos no ano que vem para reeleger nosso alienado, despreparado e desbocado presidente.

 

Mas por que não fazer a coisa correta de uma vez? Será que estão seguindo Maquiavel, pensando em fazer “o bem” aos poucos? Sinceramente, duvido! Eles gostam do Estado-rinoceronte, que, como sabemos, possui um estômago primitivo, o que o faz ruminar incessantemente, já que sua necessidade de comer é bem maior do que a de outros animais que remascam. Por isso, não conseguem parar de comer – seja a erva dos impostos, o capim da dívida interna ou a tiririca das maiores taxas de juros do mundo -, precisam comer, é imperioso comer sempre e mais, pois seu primevo estômago, formado por três poderes e três esferas, é insaciável.

 

Quando se trata de prover o bem comum, ensina-nos a ética que o bem deve ser feito de uma só vez. Por que não estender a “MP do Bem”, por que não aprofundá-la, por que não realizar uma reforma tributária decente, que estimule o trabalho e a livre iniciativa?

 

 Deixo a resposta para o leitor. Pista: um Cadillac 56 não bebe mais do que um Corsa 1.0?

 

 

 

 

 

 

 

 Presidente do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista - Cieep

 

 

 

 

 

 



 
                                                                           
                                                                          

                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           






                  

 

 

 

        Artigo do Mês - Ano IV - Nº 43 – Outubro de 2005

 

 

 

 

 

A ESQUERDOPATIA

 

                                             Ubiratan Iorio

 

(três artigos publicados no Jornal do Brasil, em 19 e 26/9 e 3/10/2005)

 

 

 A esquerdopatia ou sinistropatia é uma das mais perigosas e contagiosas manifestações endêmicas da América Latina, com a honrosa exceção do Chile, responsável por nosso enorme atraso em relação às sociedades desenvolvidas. Fruto do cruzamento incestuoso  da mentalidade excessivamente centralizadora e patrimonialista herdada da tradição ibérica com a estratégia de ocupação dos espaços de Antonio Gramsci e do encontro adulterino  de um tremendo complexo de inferioridade com uma dose desavergonhada do vício da inveja, a doença contaminou as universidades, os meios de comunicação, a cultura, a economia, a política, a linguagem e as próprias definições de moral e ética. Seus principais agentes propagadores são os chamados “intelectuais” de esquerda, para os quais a consecução de seus objetivos de se criar o “Outro Mundo Possível” justifica quaisquer meios utilizados para tal, entre os quais a mentira, o diversionismo, a tática de acusar os inimigos de práticas em que eles próprios são mestres e, como agora os brasileiros parecem perceber, a corrupção. Não foi sem razão que Paul Johnson debuxou e debochou de duas marcas dos intelectuais de esquerda: o egocentrismo e a falta de respeito para com a verdade dos fatos, sempre em nome do “social”...

 

      Um esquerdopata típico pode ser facilmente identificado a partir de alguns comportamentos peculiares, de natureza gestual e visual e, principalmente, pela forma simplista, embora arrogante, de ver o mundo e de se expressar.

 

Neste primeiro artigo sobre a sinistropatia, enfatizarei a mais importante manifestação da endemia – e sua causa maior - que é a pia crença na hipótese de que a riqueza de João é condição necessária e suficiente para explicar a pobreza de Pedro, João e Pedro podendo ser indivíduos, “classes”, sexos, raças, estados, regiões ou países. Uma visão míope, herdada das idéias de exploração de Marx, que não leva em conta o fato óbvio de que esta seria apenas uma dentre inúmeras outras explicações para a existência de desigualdades, como o acesso ou não à educação e à saúde, a disposição ou indisposição para o trabalho, a inteligência ou a estultice, as boas ou más instituições e até mesmo a sorte ou o azar na vida,... É evidente que quem possui um caráter reto, mas é pouco observador dos fatos e da própria História, e acredita cegamente que Fulano é pobre porque é explorado por Beltrano, que é rico, será tentado a aceitar a tese de que, para acabar com as  desigualdades, será preciso o Estado (logo quem...) tirar de Beltrano para dar de mãos beijadas a Fulano; será também um defensor de políticas públicas perpetuadoras da miséria, como os diversos programas populistas existentes em nosso país; terá ódio – nutrido pela inveja – de toda e qualquer pessoa, “classe”, estado, região ou país bem sucedidos, que enxerga como exploradores e inimigos da fraternidade; e, se tiver uma veia religiosa, será facilmente iludido pelas falácias da Teologia da Libertação, que é absolutamente alheia à doutrina reta da Igreja, já que seu leif motiv é socialista – e, portanto, anticristão -  e porque, sob o escabeche de uma pretensa caridade (compulsória!), dissemina lutas fratricidas, incutindo nas cabeças dos fiéis que não conhecem a mensagem cristã que padres e bispos, ao invés de conduzirem suas ovelhas para o céu, devem levá-las para a terra, mesmo que esta seja de propriedade de terceiros...

 

Um sinistropata, ao mencionar a importância da educação, a imagina sempre controlada pelo Estado e sob o tacão do pensamento único e omite maldosamente a evidência de que, sem boas instituições democráticas, sem pluralismo de idéias e sem incentivos à livre iniciativa individual, a educação não garante o desenvolvimento econômico, como está aí a demonstrar a sua Disneylandia, aquela ilha subjugada pelo ditador barbudo, o grande Carniceiro do Caribe.

 

Apresentemos, agora, alguns dos mais batidos chavões usados pelos sinistropatas e seus respectivos contra-argumentos.

 

      O primeiro, já apontado no artigo anterior, é o de que a pobreza do Brasil, da América Latina e de outras regiões deve-se à sua “exploração” por parte das nações ricas. Contra-argumentos: Definitivamente, o que explica a pobreza de Fulano não é a riqueza de Beltrano, sejam eles pessoas, países ou regiões, pois as causas da riqueza são as recíprocas das da pobreza. O desenvolvimento econômico é como uma peça de teatro: para ser boa, exige um razoável “script”, um cenário adequado e excelentes atores. O “script” é a ampliação contínua da capacidade de produção, isto é, a acumulação de capital; o cenário são as instituições e os atores a população. Para  gerar-se riqueza de maneira a não concentrá-la, são necessários investimentos em capital humano e leis estáveis e que incentivem as pessoas a darem vazão à sua criatividade.

 

      O segundo chavão é o de que O Brasil precisaria promover uma “reforma agrária” para redistribuir a renda e fixar o homem no campo. Contra-argumentos: reforma agrária não é e nunca foi instrumento de redistribuição de renda; a questão não está no tamanho das propriedades, mas em sua produtividade; o percentual da população que vive no campo nas sociedades adiantadas e de agriculturas mais produtivas é inferior, em média, a 3%. Nos EEUU, é de 1,5%.

 

      A terceira falácia é a de que o país precisa de uma reforma tributária com impostos mais progressivos, para redistribuir a riqueza. Ora, o Brasil precisa, sim, de uma reforma tributária, mas que desonere cidadãos e empresas! Temos 74 tributos, muitos em “cascata”. A carga tributária subiu escandalosamente nos últimos anos e hoje beira os 40% do PIB. Ademais, a função dos impostos não é a de redistribuir a riqueza, mesmo porque não se pode redistribuir algo que não é fixo, pois a economia não é um jogo de soma zero. A função dos tributos é a de, simplesmente,  manter o Estado funcionando. Todos os países que tentaram redistribuir a riqueza com impostos altamente progressivos, conseguiram apenas desestimular o trabalho e o esforço individuais e estimular o comodismo, provocando apatia, evasão fiscal e fuga de capitais e nivelando todos - inteligentes e estultos, diligentes e preguiçosos, felizardos e azarados - por baixo. Além disso, não podemos nos esquecer de que o imposto gera a sua própria despesa: quanto maior a arrecadação, maior também o apetite gastador dos governos. E os nossos já comem em excesso. 

 

A quarta falácia é a de que o País precisa voltar a “crescer”, mesmo que abrindo mão do controle da inflação, pois existiria um dilema entre a inflação e o crescimento. Contra-argumento: poucas tolices são tão repetidas como esta! Na verdade, não há escolha entre inflação e desemprego, pela mesma razão que não se pode escolher entre comer demais e ter indigestão: se comermos muito, a indigestão é certa. Nenhuma economia cresce o que deseja crescer, mas sim o que pode crescer, que é determinado não pelos nossos desejos nem pelas máquinas da Casa da Moeda, mas por nossas capacidades. A inflação é provocada por investimentos mal feitos, lastreados em créditos artificialmente baratos e, na medida em que o caráter ineficiente desses investimentos é revelado pelo tempo, surge o desemprego. Ou seja, a inflação ocorre quando os governos, achando que estão optando pelo “crescimento”, geram empregos artificiais e o desemprego é a conseqüência inevitável dessas más políticas. “Desenvolvimentista” todo mundo é, mas primeiro temos que saber ao certo o que é desenvolvimento e, portanto, que ele não pode ocorrer na presença de inflação. Mas os sinistropatas latino-americanos, que tanto usam a História – desde que de acordo com as suas conveniências -, simulam não terem aprendido isso.

 

Por fim, eis mais três cacoetes esquerdopatas, para encerrar o tema. O primeiro é o de acreditar cegamente que as “soluções políticas” são socialmente melhores do que as proporcionadas pelo sistema econômico e pelo sistema moral, o que os leva, por exemplo, à defesa de “políticas públicas”, como a industrial, para fortalecer setores previamente selecionados, tornando-os competitivos. Esse argumento equivale a tentar remendar uma colcha nova com um retalho velho, o que estraga toda a peça. O século XX foi farto em demonstrar a ineficácia das soluções políticas e, no caso das políticas industriais planejadas, nem a colcha é nova, tratando-se  apenas de uma tentativa dissimulada de defender o tecido roto dos velhos argumentos protecionistas, sem qualquer espaço no mundo de hoje. Se os Estados Unidos e a Europa adotam práticas protecionistas, pior para eles, no longo prazo, pois vão perder. Se meu vizinho resolver drogar-se porque acha isso bom, eu vou imitá-lo, só porque ele é rico? As “políticas industriais”, na verdade, são frutos podres do processo político, em que burocratas travestidos de técnicos selecionam alguns setores para ganhar e, portanto, outros para perder. O grande derrotado - mais até do que os produtores não contemplados com as benesses -, é o consumidor, que fica com menos produtos à sua disposição, de pior qualidade e mais caros.

 

Outra característica da sinistropatia é a de ser uma seita de adoradores do Estado, diante do qual se ajoelham servilmente, como se estivessem diante de uma vaca sagrada. Por isso mesmo é que o governo petista criou nada menos do que 34 novas estatais, mais de uma por mês, desde que assomou ao poder. Privatizar empresas sugadoras dos contribuintes, no seu jargão infantil, equivaleria a “entregar o patrimônio público”... Público ou dos que detêm o poder político? Os Correios, a Eletrobrás, o IRB, a Petrobrás, a Caixa, o BNDES, o Banco do Brasil e dezenas de outros cartórios pertencem de fato ao público ou, mesmo, aos seus funcionários de carreira? É evidente que não, porque são controlados pelos governos, que indicam presidentes e diretores para eles, todos representantes do partido oficial e dos seus aliados. É mais do  que tempo de o Estado desfazer-se dessas empresas, para concentrar-se em suas tarefas essenciais, que vêm sendo postas de lado há muitos anos, como a segurança, a justiça, a educação, a saúde e a infra-estrutura e, mesmo assim, nas três últimas, atuando indiretamente, deixando que o setor privado cuide das ações diretas, simplesmente porque sai mais barato, tolhe a corrupção e é bem mais eficiente.

 

Por fim, para compor o ethos esquerdopata, há a semeadura do ódio de classes, porque, já que entendem que Pedro é rico se e somente se João é pobre, então é preciso semear no coração do segundo o ódio pelo primeiro, deixando o restante aos poderes ocultos da dialética. Não é à toa que “as esquerdas” – como gostam de autodenominar-se -, jogam, muitas vezes subliminarmente e outras nem tanto, “excluídos” contra “elites”, mulheres contra homens, negros e índios contra europeus e homossexuais contra heterossexuais, sempre sob o pretexto de defender “minorias”. Tudo em nome de uma fraternidade de fachada.. E olham com uma complacência que beira a simpatia atos terroristas hediondos, quando são cometidos contra países ricos, como os Estados Unidos, a Espanha e a Inglaterra. Trombeteiam o lamentável erro da polícia inglesa, que vitimou um brasileiro, mas silenciam diante do caso do engenheiro, também brasileiro, seqüestrado por fanáticos iraquianos e desaparecido há meses.

 

O fracasso do governo petista encerra um ciclo de 41 anos, iniciado em 1964. Neste longo período, a esquerdopatia contaminou o país, primeiro na oposição e depois nos governos do PMDB, do PSDB e do PT. É tempo de erradicá-la, com a vacina do federalismo e da tríplice liberdade: política, econômica e cultural. E com o antídoto dos argumentos e do bom senso!

 

 

 

 Presidente do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista - Cieep

 

 

 

 

 

 



 
                                                                           
                                                                          

                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           







        

 

 

 

Artigo do Mês - Ano IV - Nº 42 – Setembro de 2005

 

 

 

 

 

O FINAL DE UM CICLO POLÍTICO

 

                                                                   Ubiratan Iorio

 

 

 

O atual esfacelamento externo do PT – sim, externo, já que, internamente, o partido sempre foi uma evidente fragmentação de tendências e movimentos – marca, mais do que a derrocada prematura de um governo absolutamente despreparado para exercer o poder, o final de um ciclo de nossa história política. Quero com isto dizer que os últimos acordes da sinfonia que começou com a contra-revolução de 1964 somente agora estão sendo executados, em um fade que parece interminável, mas que pelo menos traz a certeza de que a música chegou ao fim e que o país deve preparar-se para uma outra sinfonia, embora nada indique que esta venha a ser mais brilhante, bem composta e executada do que a que se encerra no teatro político. 

 

Durante o que se convencionou chamar de “regime militar”, todos sabem que havia apenas dois partidos, a ARENA, do governo e o MDB, da oposição, que se transformaram posteriormente em PDS e PMDB. Após a entrega do poder pelo General Figueiredo, o posto que seria ocupado por Tancredo caiu de mãos beijadas no colo de Sarney e o PMDB teve cinco anos, de 1984 a 1989, para realizar o que sempre propugnava quando na oposição. O que fez? Três malfadados congelamentos de preços (nos planos Cruzado, Bresser e Verão), que incentivaram a explosão daquilo que denominei em meu livro “Economia e Liberdade” de super-estag-hiperinflação, palavra que inventei para descrever a combinação da forte estagnação econômica com uma hiperinflação que só não foi aberta porque os mecanismos de indexação então existentes a camuflaram durante mais de uma década. O PMDB teve a sua chance, seus economistas tiveram mais do que tempo para mostrar o que tinham a dizer, mas, ao cabo do período em que estiveram no poder, nada fizeram de bom, a não ser ensinar, para quem tivesse perspicácia para observar e apreender com a evidência dos fatos, que a heterodoxia mirabolante dos planos econômicos, os congelamentos de preços e o dirigismo nada mais são do que fracassos com datas marcadas.

 

Seguiu-se o governo de Fernando Collor e os economistas de esquerda, comandados por aquela senhora que nos tungou em março de 1990, mostraram que não haviam entendido os fracassos anteriores. Fizeram mais dois congelamentos de preços, com todas aquelas pirotecnias spielbergnianas e só conseguiram perpetuar a estagnação econômica e a inflação. A contribuição positiva de Collor foi levantar o debate sobre a abertura econômica e a reforma do Estado, além de ter iniciado o processo de privatizações, com a venda da Usiminas, após uma verdadeira guerra de liminares que tinham por trás o então detentor do monopólio da ética na política, este mesmo PT que hoje jaz apodrecido nas areias movediças da corrupção, bem como o PSDB, que entrementes emergira do PMDB assim que seus caciques perceberam que o Plano Cruzado estava fazendo água por todos os cantos, o que, apesar disso, não o impediu de eleger mais de uma vintena de governadores em 1986.

 

Com o impeachment de Collor, a ascensão de Itamar e a fragmentação indisfarçável do PMDB, o PSDB pouco a pouco foi se aproximando do poder, o que levou Fernando Henrique ao cargo de Ministro da Fazenda e, escorado em um plano de super-indexação via URV muito bem elaborado pelos economistas da PUC carioca, já então convencidos de que a inflação era mesmo um fenômeno monetário, acabou gerando o Real, que levou os tucanos ao Planalto por dois mandatos consecutivos. Só que o Real, que fora concebido para ser um simples meio para a criação de uma moeda forte para a consecução de um objetivo bem maior – o do crescimento sustentado com aumento das igualdades de oportunidades -, transformou-se em um fim para manter o poder nas indecisas mãos (ou bicos) tucanas, que não realizaram nem a décima parte das reformas do Estado que haviam prometido em duas campanhas presidenciais.

 

Portanto, os principais partidos de oposição aos governos militares, o PMDB e seu “filho”, o PSDB, tiveram, somando-se os anos, de 1984 até 1989 e de 1993 a 1994 o primeiro e, de 1995 até 2001 o segundo, para porem nossa economia nos trilhos do crescimento sustentado e apresentarem soluções para os graves problemas sociais – como sempre, associados aos econômicos – brasileiros. Não mostraram competência para fazê-lo, o que levou cerca de 30 milhões de descontentes e mais os 23 milhões de integrantes da seita petista, a colocarem Lula e seu partido – ou, dada a impossibilidade de dissociação de ambos, seu partido e Lula – no poder, nas eleições de 2002. O que aconteceu desde então é bastante recente para que precise ser comentado em pormenores. A política econômica do governo Lula-PT, que passaram as duas décadas anteriores bradando contra todas as que foram executadas, revelou ser a mesma aplicada pelo tucanato, ao passo que o lado político do governo, a par de uma formidável inoperância e de um paquidérmico imobilismo, meteu-se em negociatas espúrias que vieram à tona quando um dos ex-beneficiados, Roberto Jefferson, ao perder a parte que lhe cabia no latifúndio estatal, resolveu soltar a voz na estrada e, mesmo semitonando e desafinando a cada compasso, mostrou ao país que tipo de gente estava a nos governar.

 

O governo Lula-PT (ou PT-Lula) acabou antes de terminar, para contrariar a máxima do falecido Abelardo Barbosa, o Chacrinha. Daqui até o final de 2006, nada de novo tem condições de ocorrer debaixo do sol brasileiro, mesmo porque a tradição de nossa república mostra claramente que as segundas metades dos mandatos são apenas meras preparações para os mandatos seguintes, de acordo com o modo obscuro de pensar de quem quer esteja ocupando o poder. O impeachment de Lula é improvável, principalmente porque não interessa nem ao PSDB, nem ao PFL e tampouco ao PMDB, que julgam ser muito mais fácil, nas eleições do próximo ano, desfechar o direto final em um adversário que já foi à lona por diversas vezes, por sua própria incompetência. Aos partidos menores, nada resta senão aguardar os acontecimentos, esperar os prováveis vencedores do pleito de 2006 e tentar aproximar-se deles, em uma repetição do que sempre fizeram.

 

Portanto, creio que o presente desmantelamento do PT encerra um ciclo tão importante quanto lamentável de nossa história política, porque o Partido dos Trabalhadores é o terceiro e último partido importante que saiu das fileiras dos que se opunham ao regime militar. Todos – o PMDB, com Sarney; o PSDB, com Fernando Henrique: e o moribundo PT, com Lula – tiveram as suas oportunidades, democraticamente alcançadas, e nada mais fizeram do que contribuir para desencantar o povo com os políticos em geral e com o futuro econômico e social do país. Somando tudo, as duas fases do ciclo duraram de 1964 a 1984 e de 1985 até 2005, ou seja, 41 anos.

 

É tempo de início de um novo ciclo, a partir das eleições do ano que vem. Mas, sem uma reforma política de fôlego e corajosa, é muito difícil imaginar-se o novo como um círculo virtuoso. Acredito que uma simples pergunta convencerá o leitor desta minha convicção: em quem você pretende votar no ano que vem, amigo?

 

É tempo de experimentarmos o federalismo político, administrativo e econômico, partidos programáticos, voto distrital ou distrital misto, fidelidade partidária e cláusulas de barreira. Em especial, penso que a solução para o país passa necessariamente pelo federalismo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



 
                                                                           
                                                                          

                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           







        

           

 

 

Artigo do Mês - Ano IV - Nº 41 – Agosto de 2005

 

 

 

 

 

O VALOR DA EDUCAÇÃO*

 

                                                          Ubiratan Iorio

 

* Dedico este artigo a todos os educadores, professores, professoras, funcionários de escolas e universidades, alunos, alunas de todos os níveis e mães e pais que se preocupam com o futuro de seus filhos.

Prof. Ubiratan Iorio, Doutor em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (com muito orgulho, apesar do sr Luiz Inácio da Silva)

 

 

O presidente do Brasil, em mais um de seus discursos de improviso, cometeu outra agressão, dentre tantas em que se tem especializado, desta vez contra todas as pessoas que cultivam os valores mais sólidos da tradição ocidental, ao afirmar categoricamente, com os olhos rútilos de auto-suficiência e o rosto crispado de demagogia, que, para ser presidente da república, não é preciso ter curso superior.

 

É preciso distinguir entre forma e conteúdo, sr presidente! De fato, se na forma de nossa lei maior – a “Constituição dos Miseráveis” do dr Ulisses – até um semi-analfabeto pode exercer o mais alto cargo da nação, desde que obtenha os votos necessários para tal, no conteúdo – que, afinal, é o que importa – o próprio sr Luiz da Silva é a mais irrefutável das provas vivas e falantes (embora apenas precariamente pensantes) de que o presidente de qualquer país precisa ter curso superior.

 

Curiosamente, e mostrando o quanto o sr Lula é inconsistente naquilo que diz, apenas alguns dias após ter pronunciado aquela malfadada frase, na posse do novo ministro da Educação, ele aproveitou para lançar o projeto da suposta “reforma do ensino superior”, formulada, recusada, reformulada, novamente bloqueada e finalmente colocada nos ares brasileiros, ultimamente corroídos pelo almíscar de uma corrupção que beira a endemia, aquilo que, no estrito e estreito modo de ver do sr. Genro, ex-ministro da área, será a redenção do ensino superior em nosso maltratado país.

 

Este governo tem sido tão incompetente que fica até difícil escolher como criticá-lo, tal a quantidade de sandices que produz, e isto quando consegue “produzir” alguma coisa. Deparo-me, agora, com esta dificuldade: descer o malho na “reforma” do Ministério da Educação ou destruir a afirmativa do presidente de que ter curso superior não seria condição nem necessária e nem suficiente para alguém chegar ao cargo que ocupa. Por uma questão de espaço e, também, para não tratar de dois temas ao mesmo tempo, correndo assim o risco de cansar o leitor, elejo por enquanto a segunda opção, prometendo para um futuro próximo uma análise do malfadado projeto – uma ode ao atraso! – do MEC.

 

Que declaração infeliz, sr Silva! Certamente, o senhor, que tem tentado se colocar acima do bem e do mal, da lisura e da corrupção, da ética e de sua falta, deve ter-se mirado em seu próprio exemplo de nordestino pobre, que não teve na infância como estudar, mas que mesmo assim conseguiu chegar onde está no momento. Seu caso, no entanto, é único e não pode ser apresentado como um paradigma para crianças, jovens, pais, professores e funcionários que lidam com a educação, enfim, para o país ou, no seu linguajar característico das doninhas, para a “sociedade civil organizada”.

 

Que palpite infeliz, sr Luiz! Ah, se Noel Rosa, o “Filósofo do Samba”, fosse ainda vivo! Quanta inspiração teria certamente encontrado no senhor para compor aquelas sátiras geniais com que criticava os costumes brasileiros nos anos 20 e 30 do século passado, entre as quais “Onde está a honestidade”, cuja letra perguntava assim “e o povo já pergunta com maldade: onde está a honestidade, onde está a honestidade”?

 

Mesmo deixando à parte a honestidade e a desonestidade– finjamos esquecer, por exemplo, os 5 milhões de reais que a empresa de seu filho recebeu de uma operadora da área de telecomunicações -, sua assertiva de que o bacharelato é desnecessário para alguém exercer com competência a presidência do país é uma séria agressão à honra de todos os que estão envolvidos com a educação, em todos os seus níveis, à economia do país e, lamentavelmente, um deslize ético imperdoável para o magistrado maior da nação!

 

À honra, à dignidade e a valores insubstituíveis passados de geração a geração, porque, ao ouvir aquela sua frase, como um pai, ou mãe, ou educador, pode incentivar uma criança ou um jovem a estudar, sem ter que, pelo menos, explicar que o senhor está errado? Como louvar o mérito, se o senhor endeusa o demérito? Como incensar o trabalho duro das tarefas ligadas ao estudo sério, se o senhor acende velas para a ignorância? Sinceramente, é triste ser professor universitário (ou de qualquer outro nível), é triste ter um diploma de doutor obtido às custas de enormes esforços e renúncias a prazeres dos mais diversos, em um país que tem como presidente alguém que pensa como o senhor...  Por que o senhor, que teve pelo menos 30 anos para fazê-lo e se tinha aspirações políticas mais altas, não aproveitou todo aquele tempo para estudar? Só há uma resposta: por preguiça!

 

É uma agressão à economia porque, desde que Irving Fischer, em 1910, definiu capital como qualquer ativo que possa proporcionar fluxos de rendimentos ao longo do tempo, abrindo caminho para outros pesquisadores, tais como Theodore Schultz e Gary Becker, meio século depois, desenvolverem a Teoria do Capital Humano, sabe-se que os investimentos em educação melhoram a produtividade econômica, bem como a “produtividade” política, na medida em que formam mão de obra mais capacitada, tanto para produzir, como para fazer escolhas mais apuradas, nos campos econômico, político e social. Sr Inácio, por favor, olhe para o mundo – esse mesmo mundo que o sr adora percorrer no novo Boeing da Presidência da República – e observe, ou peça a alguém para dizer esta verdade irrefutável para o senhor, que educação é condição necessária para que uma nação possa desenvolver-se de forma auto-sustentada, ou seja, que não existe sequer um país hoje desenvolvido que não tenha levado a sério no passado e que não esteja também tratando com seriedade a questão da educação, embora haja alguns – como a sua amada Cuba – que, embora tendo investido em educação, não conseguiram se desenvolver, porque lhes faltou e falta a suficiência da condição, presos que ficaram a regimes autoritários como o que o facínora Fidel Castro impôs e continua impondo – com o seu aplauso - ao seu povo.

 

Por fim, é evidente que a sua afirmativa é por si só um deslize ético bastante grave, na medida em que atribui valores injustos para quem estuda e para quem se empenha, como o autor deste artigo e milhões de professores espalhados por nosso território, e como mães e pais que desejam ver os filhos progredirem intelectualmente. Ou não será falta de ética se uma professora ou mãe, ou mesmo um humilde funcionário de uma escola do primeiro grau, influenciado por sua frase e cansado de tanto lutar, der-se por vencido e disser ao aluno ou à filha algo como “deixe esses livros de lado, Joãozinho, porque isso não dá futuro”... Pois o sr, ao pronunciar para o país inteiro aquela frase, embora talvez sem ter a exata consciência do que fazia, nem tampouco das dimensões que qualquer palavra vinda da boca do presidente adquire, contribuiu decisivamente para essa atitude de desânimo em relação ao estudo que podemos sentir em nossa juventude!

 

A todos os alunos, de todas idades – inclusive os meus queridos alunos da UERJ, da FGV e da PUC – que vierem a ler este artigo de agosto de 2005, peço que o passem adiante, como naquelas “correntes” que costumam circular no espaço da Internet. Só que esta é uma corrente para o bem, porque, como o dramaturgo britânico Addison observou há mais de trezentos anos, “o que a escultura é para um bloco de mármore, a educação é para o espírito”. O Brasil precisa, urgentemente, de presidentes humildes e que ao mesmo tempo cultivem o espírito. Collor não tinha humildade, a Fernando Henrique escapava o mesmo dom, mas o sr, presidente, não tem nem humildade e nem um mínimo necessário de sabedoria!

 

 

 

 

 

 

 

 



 
                                                                           
                                                                          

                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           







           

 

 

Artigo do Mês - Ano IV - Nº 40 – Julho de 2005

 

 

 

 

 

 GIÀ LO DICEVA DANTE...

 

                                                           Ubiratan Iorio

 

 

É curioso como muitas manifestações artísticas, como a pintura, a música, a escultura e a poesia, além, obviamente, da literatura, da comédia e da dramaturgia, desde a mais remota antiguidade foram utilizadas como formas de expressar descontentamentos com determinadas situações sociais, políticas e econômicas. Gregos e romanos, por exemplo, foram mestres nesse salutar empenho. Até russos e cubanos que,  embora dotados de alto senso artístico e literário,  eram forçados a expressar suas críticas de forma oculta, nem por isso deixaram de faze-lo.

 

A propósito de todas as espantosas evidências de corrupção que – felizmente – não têm saído das manchetes, eis que emergiu, de algum canto de minha infância alegrada por avós, mãe, tios,  tias, primos e primas calabreses, uma frase de Dante Alighieri (1265-1321), o  maior dos poetas da nossa querida Itália, que, em sua obra mais conhecida, escreveu, com a acuidade, a sem cerimônia e o sarcasmo comuns aos gênios: “Ahi serva Itália/ di dolore ostello/ nave senza nocchiere in gran tempesta/ non donna di province, ma bordello”! (“Oh, escravizada Itália/ lugar de decepções/ navio sem capitão em meio a grande tempestade/ mulher não respeitável, mas de bordel” - Divina Commedia, Purgatorio, VI, 76-78).... Fosse Dante brasileiro e vivesse nos dias que correm, teria apenas o trabalho de substituir “Itália” por Brasil e ainda poderia manter o que observou  a respeito da condição humana na mesma obra (IV, 9): “Vassene ‘l tempo e l’uom non se n’avvede”  (“Passa o tempo e o homem não o nota”).

 

A corrupção é coisa velha, muito anterior ao grande poeta florentino: nasceu com Adão e Eva e só irá desaparecer com o último dos mortais. Decorre da imperfeição humana e é apenas uma das manifestações do pecado original. Todos sabemos disso, mesmo os que simulam não saber.

 

 Mas os homens sensatos aprenderam com o maior dos professores, que é a História da Civilização o que é possível fazer para reduzir a corrupção a níveis pelo menos suportáveis, ou, pelo menos, não revoltantes: que corrupção se combate, antes de qualquer outra arma, com a solidez dos valores morais judaico-cristãos, tão atacados e desvirtuados hoje em dia e, na prática, com democracia, com balanceamento entre os três poderes e com desconcentração de poder político, econômico, administrativo e cultural. A corrupção é uma das conseqüências, ao lado da ineficiência econômica, da burocracia, da malversação dos recursos públicos e do fantasma da tributação excessiva, do gigantismo do Estado, esse devorador contumaz de cidadãos, que exige formidáveis mundos e proporciona minguados fundos... A correlação entre tamanho do Estado e corrupção é direta, conclusiva, irreprochável, bastando, para comprovar esta conclusão, ler os relatórios da International Transparency, encontráveis na internet.

 

Se boa parcela da humanidade aprendeu a lição e passou a entender que o Estado deve ser o menor possível e necessário para cada sociedade, parece que as inúmeras aulas – não aquelas ensinadas pelos professores marxistas que tomaram de assalto o ensino da matéria no Brasil, mas a própria História, como definida por Ortega y Gasset -, em que isto foi ensinado foram cabuladas por nossos ditos homens públicos e por certos “intelectuais”, que de intelectuais mesmo só têm as aspas... De fato, o Estado brasileiro encaixa-se perfeitamente no conhecido “paradoxo” de Daniel Bell: é grande demais para resolver os pequenos problemas e pequeno demais para solucionar os grandes problemas... Precisamos reformatá-lo com grande urgência, para que possa “rodar” de novo a serviço dos contribuintes e para que deixe de servir-se deles, aos olhos de todos.

 

O que mais causa descrença, em todos os tristes episódios que vêm revelando claramente a verdadeira face do PT e de seus aliados, tisnando em horário nobre toda a classe política (com pouquíssimas e honrosas exceções) e maculando a nação com o rubor da vergonha, é que ninguém, até o presente momento, nem os próceres da dita “oposição” e nem muito menos os homens do governo (estes sabidamente adoradores do Estado-elefante), sequer mencionou a urgência, para que os níveis de corrupção desçam aos primeiros degraus, de profundas reformas em nossas instituições, a começar pelo emagrecimento do Estado e de suas infinitas atribuições e a tomar forma com um federalismo descentralizador, que impeça Brasília de tornar-se o destino de todos os recursos, que para lá vão com o bilhete de ida garantido, mas com o de volta em aberto e sujeito a todos os tipos de negociatas espúrias para que possam chegar à frente da lista de espera e passar no check in.

 

      “Vassene ‘l tempo e l’uom non se n’avvede” . Já dizia o grande Dante!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



 
                                                                           
                                                                          

                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           







                    

 

 

Artigo do Mês - Ano IV - Nº 39 – Junho de 2005

 

 

 

 

 

UM PT “ÉTICO” E UM POVO CÉTICO

 

                                                                      Ubiratan Iorio

 

 

Foi preciso que, após mais de vinte anos bradando contra tudo e contra todos, exigindo CPIs para investigar até roubos de galinhas, caluniando, difamando e execrando, muitas vezes irresponsavelmente, a honra alheia, o Partido dos Trabalhadores que não trabalham chegasse finalmente ao poder, para que a formidável farsa fosse desmascarada, a impecável pose irremediavelmente arranhada e a horrenda nudez de caráter – last but not least – revelada para todos os que querem vê-la.

 

A comédia começou quando, já vitorioso nas eleições, o ex-partido da “ética” revelou aos mais argutos (ou menos tapados) que, rigorosamente, não dispunha de nenhum plano para governar o Brasil, algo que, depois de dois anos e meio, já se torna evidente até para os lorpas, pascácios e bovinos que acreditam em fisionomias carregadas forjando seriedade e em barbas e cavanhaques denotando honorabilidade.

 

Após a surpresa desagradável da montagem da máquina ministerial com trinta e cinco integrantes batendo cabeças uns com os outros, veio aquela viagem da ex-ministra Benedita da Silva para orar na Argentina com o nosso dinheiro, surgiu aquele prefeito petista de uma cidadezinha de Minas que, após três dias de “desaparecimento”, o que chegou a mobilizar até ministros, aviões e recursos oficiais, foi encontrado em um hotel, na companhia pouco – digamos – “ética” -, de duas prostitutas. Em seguida, o famoso “caso Waldomiro”, famoso para nós, porém sem a menor importância para os homens do governo, dado o seu formidável empenho para que não fosse investigado e caísse no esquecimento, não importa se com os “is” pingados ou não... Agora, esse caso de corrupção na ECT, com o mesmo denodado esforço dos ex-donos da ética para que não seja averiguado. Poderíamos citar inúmeros outros exemplos de falta de compostura pública e de atitudes imorais e anti-éticas por parte da caterva da estrelinha vermelha, sem que ao menos honrem a sua cor preferida e a manifestem, nem que seja por um mínimo de vergonha.

 

O PT é um partido igualzinho aos outros existentes no Brasil, com a diferença de que nenhum deles declarava-se monopolista e monopsonista da ética! Por isso, deve ser mais cobrado do que os demais. Quem bradava pela abertura de CPIs agora fecha-se em copas, em ouros, espadas e paus – e abre-se em recursos públicos – para abafá-las; quem fazia do FMI eterno bode expiatório, a ele recorreu em momento de necessidade; quem proclamava aos quatro – talvez, até, cinco ou seis – ventos que iria executar uma política econômica alternativa, limitou-se a seguir, endurecendo-a inclusive, a que foi posta em prática por Pedro Malan e Armínio Fraga; quem prometeu gerar “dez milhões de empregos”, até o momento, limitou-se a empregar, na administração direta, no legislativo e nos dinossauros estatais, milhares e milhares de “companheiros”, incluindo, logicamente, nesse tsunami avassalador sobre os bolsos do contribuinte, os candidatos petistas defenestrados pelo povo em 2002 e em 2004; quem jurou que iria reduzir a carga tributária, só fez aumentá-la; quem assegurou dar autonomia ao Banco Central, faz de conta que não o prometeu; quem comprometeu-se a fazer reformas profundas na previdência, na estrutura de impostos e na legislação trabalhista dá agora de ombros, como se os 52 milhões de votos dados ao presidente-viajante nada representassem e como se promessas fossem apenas para atender ao velho dito de que “promete-se de acordo com as necessidades [eleitoreiras] e paga-se de acordo com as possibilidades”.

 

O PT – repitamos – no governo mostra que nunca passou de uma grande farsa, alimentada anos a fio pelos holofotes e microfones da mídia esquerdopata, fazendo com que o sonho – para nós, pesadelo – do “Outro Mundo Possível” se transformasse na decepção da mesmice que paralisa a economia do país há quase trinta anos.

 

As vozes mais poderosas do partido alegam que as reformas não são realizadas porque o governo não dispõe de maioria estável no Congresso Nacional, argumento sem fundamento, que qualquer néscio pode refutar com uma pergunta: “será que vocês não sabiam disso antes, quando estavam na oposição e barravam as mesmas reformas que hoje defendem”? Ou com outra: “vocês desconhecem que os governos anteriores também não contavam com maioria estável”?

 

Podemos extrair duas lições do retumbante fracasso do “governo da esperança”: a primeira é que nada mudou no quartel de Abrantes e a outra é que, seja o PT governo ou oposição, nada vai se alterar enquanto não implantarmos no Brasil uma reforma política de fôlego, com a instituição de partidos programáticos e não mostrarmos capacidade para estabelecer um federalismo autêntico.

 

Que bela palavra, a ética! Mas que não passa, para esses homens públicos que atuam no Brasil, de uma palavra... só uma palavra, nada mais.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



 
                                                                           
                                                                          

                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           







 

 

 

Artigo do Mês - Ano IV - Nº 38 – Maio de 2005

 

 

 

 

 

RÓTULOS RÚTILOS

 

                                                   Ubiratan Iorio

 

 

Desde que, na segunda metade do século XIX, Nietzsche, em sua loucura, decretou a “morte” de Deus, o mundo passou a aderir progressivamente ao relativismo moral, o rompimento das barreiras entre o certo e o errado que, em nossa civilização, sempre foram as da tradição judaico-cristã. O relativismo moral, a maior das pragas que assola o mundo contemporâneo, manifesta-se em todos os campos da ação humana, da economia à sociologia, da política ao direito, da psicologia à história e até por parte de alguns membros e ex-membros da Igreja Católica e alguns rabinos, todos auto-denominados de “progressistas”. O que era certo ou errado passou a ser relativo, provocando um giro de 180 graus nos valores morais anteriormente aceitos, testados e aprovados: na economia, com Keynes, gastar passou a ser uma virtude e poupar um vício; na psicologia, com Freud, se um homem possuía cinco amantes e antes sentia-se culpado, a culpa passou a ser imputada à sua própria mãe; no direito, surgiu a mania de se interpretar a lei de acordo com as circunstâncias; a criminalidade passou a ser atribuída não aos criminosos, mas à “sociedade” (capitalista, naturalmente) e o sexo passou a ser mera mercadoria...

 

A desinformação que assola o mundo, alimentada pela maioria gramsciana que controla os meios de comunicação, estabeleceu, com bastante competência, uma linguagem  que todos os que não têm o hábito de pensar sentem-se obrigados a utilizar, sob pena de serem fulminados por rútilos olhares enraivecidos e passarem a ser perseguidos como se fossem marginais. Um desses carimbos é o de ser “conservador”, algo que equivale a declarar que a genitora do rotulado exerce a mais antiga das profissões... Se você é um conservador no mundo de hoje, se é católico e aceita os “dogmas” do Vaticano, se é um economista ortodoxo e defende responsabilidade fiscal por parte do Estado, se é uma moça que preza a virgindade antes do casamento, então o relativismo moral e a esquerdopatia que assolam nosso atrasadíssimo continente, com sua baba bovina e elástica, afirmam que você é um fundamentalista e passam a persegui-lo e a boicotá-lo: é um(a) retrógrado(a)! Assim pensam sociólogos, jornalistas, psicanalistas, politicólogos e outros defensores do socialismo e do relativismo moral, dois companheiros que dependem um do outro.

 

Em nome de uma pretensa “diversidade” cultural, política e moral, essa gente defende uma Igreja “moderna”, o que significa – em poucas palavras – uma enorme ONG, com todos os vícios da esquerdopatia crônica e incurável que a maioria dessas organizações ostentam. Defendem o mico-leão dourado com unhas e dentes, ao mesmo tempo em que são favoráveis à eutanásia e ao aborto; lutam contra a  descriminalização das drogas, concomitantemente a seus vorazes ataques a quem briga por valores morais e religiosos e pela família, únicas formas de combater o mal pela raiz; enfim, são incoerentes, inconsistentes e incompetentes.

 

Interessante é que ser conservador, para um católico, é preservar os ensinamentos de Cristo, que são eternos; para um economista, é também defender a ética da poupança e do trabalho duro;  para um cônjuge fiel, é manter-se dentro dos padrões morais que forjaram a nossa civilização e, para uma moça casta, é saber valorizar-se moralmente como mulher.

 

Vivemos em um mundo em que defeitos decorrentes da condição humana passaram a ser tratados bombasticamente como virtudes e  virtudes a serem rotuladas de “conservadorismo”. Alguns que se dizem teólogos defendem abertamente o uso de métodos anticoncepcionais, as experiências com embriões humanos, a invasão de propriedades alheias, o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo e, até, o aborto, o mais covarde dos assassinatos. Na economia, defendem o Estado paquidérmico e gastador, sempre em nome de um “social” que lhes serve de camuflagem para suas intenções de construir o “outro mundo possível”, isto é, o socialismo. Quem segue a doutrina reta da Igreja – que, volto a afirmar, é eterna -, ou quem procura, dentro de suas limitações, viver uma vida virtuosa, é conservador, retrógrado e fundamentalista; mas quem desvirtua a doutrina de Cristo, moldando-a hereticamente ao marxismo, ou dedica-se aos prazeres do hedonismo, ou ainda, na economia, bate-se por um Estado interventor e gastador, este é considerado moderno, progressista e aberto... De fato, atuam a favor do progresso... do retrocesso.

 

Vida longa para Bento XVI, fiel combatente contra o relativismo moral e o socialismo. Com ele no comando da Igreja de Cristo, os católicos e cristãos em geral poderão sentir-se tranqüilos, sabendo que terão o  respaldo de sua autoridade de sucessor legítimo do trono de Pedro, para combaterem, sem qualquer receio de patrulhamento e falsos respeitos humanos, o bom combate.

 

 

 

 

 

 

 

 

 



 
                                                                           
                                                                          

                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                           




 

 

Artigo do Mês - Ano IV - Nº 37 – Abril de 2005

 

 

 

 

 

 

 

 

A ECONOMIA POLÍTICA DE JOÃO DE DEUS

 

 

                                 

 

                                                                              Ubiratan Iorio

 

 

 

INTRODUÇÃO

 

      O recente falecimento do Santo Padre João Paulo II, o Grande, tem suscitado discussões – alimentadas pela indústria da desinformação – sobre a escolha de seu sucessor no trono de São Pedro. Entre estas, destacam-se as que colocam o papa polonês no rol dos “conservadores” e as que o carimbam com o rótulo de progressista. Nada mais impróprio para tentar designar o representante de Cristo na terra, uma vez que Jesus nos falou de um reino que não pertence a este mundo e de uma vida que transcendo os 80, 90 anos que decorrem entre o nascimento e a morte de uma pessoa, porque nos fala da vida eterna.

 

      A Doutrina Social , ou Ensino Social ou, ainda, Magistério Social da Igreja, conjunto de ensinamentos contidos em diversas encíclicas e pronunciamentos  papais, tendo em vista orientar a atuação dos católicos na sociedade moderna, iniciou-se com a Rerum Novarum  de Leão XIII, de 1891  e foi ao longo do século XX  passando por um processo de aggiornamento, do qual participaram todos os seus sucessores na cátedra de São Pedro, com exceção de João Paulo I, devido, evidentemente, ao seu curtíssimo pontificado,

 

      Nos últimos vinte e seis anos, João Paulo II não apenas manteve, como aprimorou e fez crescer a preocupação da Igreja com as relações econômicas e sociais, apontando, em três encíclicas, os caminhos que os cristãos podem e devem seguir para harmonizar suas atividades cada vez mais complexas no mundo da economia com os princípios morais eternos, contidos nos Santos Evangelhos e nas cartas e atos escritos pelos primeiros apóstolos.

 

      Não é nosso objetivo neste artigo apresentar em sua integridade a Doutrina Social da Igreja, nem tampouco o de mostrar toda a Teoria Econômica. Desejamos   apenas evidenciar,  de uma forma breve, partindo, de um lado,  de princípios basilares fornecidos pelos últimos Pontífices – especialmente os contidos na Centesimus Annus, do Papa Wojtila – e, de outro, de fundamentos econômicos também essenciais – marcadamente os fornecidos pela chamada Escola Austríaca de Economia – como é plenamente possível harmonizar ambos os ensinamentos, o que permite conciliar os atos econômicos que todos cotidianamente praticamos com condutas  voltadas para a dignificação da pessoa humana.

 

     

 

 

 

1. DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA E PRAXEOLOGIA COMO PROCESSOS

 

 

 

 

 

A economia é apenas um dos elementos do complexo sistema que abrange o campo das atividades humanas. De fato, este último é formado pela integração de três grandes macro-sistemas: o econômico, o político e o ético-moral-cultural. Como diz textualmente João Paulo II, “se ela (a economia) for absolutizada, se a produção e o consumo das coisas acabar por ocupar o centro da vida social, tornando-se o único valor verdadeiro da sociedade, não subordinado a nenhum outro, a causa  (do envenenamento das sociedades) terá de ser procurada não tanto no próprio sistema econômico, quanto no fato de que todo o sistema sócio-cultural, ignorando a dimensão ética e religiosa, ficou debilitado, limitando-se apenas à produção dos bens e dos serviços”.

 

Lembremos que Sua Santidade, ao afirmar que a moderna economia empresarial comporta diversos aspectos positivos, enfatiza que a raiz de tal processo deve ser a liberdade da pessoa humana, ressaltando que a mesma se exprime não apenas no campo econômico, mas em muitos outros. Assim, “a economia, de fato, é apenas um setor da multiforme atividade humana e nela, como em qualquer outro campo, vale o direito à liberdade, da mesma forma que o dever de a usar responsavelmente “ .

 

Eis a primeira grande semelhança metodológica entre a Doutrina Social e a Praxeologia, que é o estudo da ação humana nos seus diversos campos de existência: devemos analisar uma das categorias praxeológicas, a saber, as escolhas que constituem os atos econômicos, sem desvinculá-la de suas demais dimensões, tanto as de natureza política, quanto as de caráter sociológico, psicológico, histórico e, last but not least, ético-morais-culturais.

 

A segunda similaridade está no fato de que tanto a Praxeologia quanto a Doutrina Social enfatizam o caráter subjetivo das escolhas que somos levados a fazer em todas as nossas atividades e que nos são condicionadas desde que começamos, na mais tenra infância, a adquirir consciência das coisas, fatos e atos, até o momento em que o Senhor nos chamar para prestarmos conta de nossas ações durante o tempo que nos será concedido neste mundo.

 

A terceira compatibilização está no individualismo metodológico, expresso na  doutrina reta da Igreja pelo princípio da liberdade de escolha ou livre arbítrio e enfatizado pela Teoria Econômica da Escola Austríaca quando ressalta que as escolhas, regidas pelo princípio básico ou axioma da ação humana – definido como qualquer ato voluntário que se pratica (ou se deixa de praticar) no sentido de se passar de um estado menos satisfatório para um estado mais satisfatório – são feitas por indivíduos, por empresas, por agentes microeconômicos e não por grandes agregados, ou por coletivos imaginários, tais como “classes” , “países” e assemelhados.

 

A quarta semelhança está, indubitavelmente, no respeito ao Princípio da Subsidiariedade, comum à Doutrina Social da Igreja e aos economistas “austríacos” e liberais-conservadores, de um modo geral.

 

O que vai ditar, no plano mais prático, a diferença entre a Economia Personalista e a meramente individualista, defendida pelos que consideram o mercado como um “deus”,  é o caráter moral das escolhas, já que devemos distinguir o individualismo metodológico do egoísmo, da corrupção, da inveja, da preguiça e de outros vícios, que podem determinar subjetivamente a qualidade moral das escolhas.

 

No complexo mundo dos atos econômicos, há determinantes objetivos, tais como renda, taxas de juros, taxas de câmbio e muitos outros, que influenciam as escolhas, mas há, decerto – e é uma pena que, dentre as diversas escolas de pensamento econômico, apenas a Austríaca mostre preocupações permanentes com isto –, determinantes subjetivos.  Entre estes, podemos listar a insuficiência e dispersão de nosso conhecimento; a incerteza genuína (não probabilística) delas decorrentes; o próprio axioma da ação humana; a percepção diferente que cada agente tem das oportunidades que os mercados oferecem e o conceito de tempo dinâmico (ou subjetivo, ou real, ou à la Bergson), em que o tempo, tal como se nos apresenta no mundo dos negócios e dos nossos demais atos,  contém as características de continuidade dinâmica, heterogeneidade e eficácia causal, o que o define como um fluxo contínuo de novas experiências, fluxo esse que é o tempo, e não simplesmente “está” no tempo, tal como no conceito estático ou newtoniano.

 

  Esse complexo conjunto de características que enfeixam as atividades econômicas (e, de um modo abrangente, envolvem todos os atos humanos) leva-nos a concluir que os mercados podem e devem ser considerados como processos de tentativas e erros, processos que – admitida a característica de racionalidade dos agentes - tendem para um equilíbrio ao longo do tempo, equilíbrio que, contudo, jamais será atingido, uma vez que, como o tempo é um fluxo contínuo de novas experiências, a cada instante nosso estoque de conhecimentos (ou memória) é alterado, o que significa que nossas expectativas, avaliações e, conseqüentemente, nossas escolhas também sofrem alterações contínuas conforme os ponteiros do relógio giram (6), tal como no velho dito popular “vivendo e aprendendo”.

 

 

     

3. OS ENSINAMENTOS ECONÔMICOS DE JOÃO PAULO II

 

 

A Doutrina Social da Igreja – e, nestes tempos de desinformação preconcebida, é importante frisarmos isto – não pertence ao âmbito das ideologias, mas ao da teologia, especialmente ao campo da teologia moral. A desconsideração deste importante fato tem levado a confusões que seriam perfeitamente evitáveis. É neste contexto, portanto, que as três encíclicas denominadas “sociais” do recém-falecido Pontífice – a Laborem Exercens  (LE), de 1981,  a Sollicitudo Rei Socialis (SRS), de 1988 e a mais famosa delas, a Centesimus Annus (CE), de 1991 – são exemplos insofismáveis do caráter de teologia moral de que se reveste a DSI.

 

 

 

Laborem Exercens

 

 

Nesta encíclica, o Papa ressalta a importância da co-propriedade dos meios de produção, sem qualquer referência a que isto implique “direitos dos trabalhadores”, mas com ênfase na empresa privada e na economia de mercado.

O segundo aspecto importante desta encíclica é o realce à dignidade da pessoa humana como um critério para estabelecimento de salários justos, mas sem qualquer alusão opinativa sobre eventuais critérios de política econômica para obter tal objetivo.

O terceiro ponto é que, embora o Papa tenha escrito “temperatio” em latim (que pode significar “disposição” ou “ordenação”), a palavra foi traduzida como “planificação”, mas o fato é que João Paulo II jamais pretendeu recomendar um sistema de planificação central de viés socialista, mesmo porque fez questão de afirmar que esta “temperatio” deve subordinar-se à iniciativa das pessoas.  (grifo nosso)

O contexto teológico abrangente da LE permite que compreendamos o impulso que toma o tema da iniciativa privada em documentos posteriores elaborados pelo Papa. O capítulo II da LE ressalta a relação fundamental do homem com o trabalho, quando anuncia o relato da criação do homem descrito no Gênesis: Deus dá ao homem um mandato, de acordo com a sua natureza, de “submeter e dominar” a terra. E observemos que isto pertence a um contexto de antropologia teológica característico do núcleo central da DSI, quando destaca o caráter co-criador do homem e implica que a expressão “iniciativa privada” não seja empregada acidentalmente no pensamento social católico.

 

 

 

Sollicitudo Res Socialis

 

 

Escrita em 1988 – portanto, antes da queda do muro de Berlim e da tirania soviética que tanto afligiram um jovem polonês que teve que enfrentar os dois piores tipos de totalitarismo do século passado, o nazismo e o comunismo – a SRS inova ao agregar o conceito de direito à livre iniciativa econômica, o que parecia na época uma novidade, quando na verdade João Paulo II apenas retomava uma tradição de Leão XII, que defendeu os direitos de propriedade, de Pio XI, que insistiu no Princípio da Subsidiariedade, de Pio XII, que chegou a escrever que a economia é o fruto da livre iniciativa dos indivíduos e de João XXIII, que deu à iniciativa privada a “parte principal”no ordenamento econômico.

A crítica ao capitalismo “liberal” (não conservador, libertário) sempre foi uma característica do Magistério da Igreja e, na SRS, João Paulo II, que já havia desautorizado a chamada Teologia da Libertação, inclusive advertindo de dedo em riste um de seus mais ardorosos defensores, em visita à América Central. Mas essa posição da DSI não significa, nem de longe, uma crítica ou uma negação aos valores do capitalismo ou do mercado em si próprios, porém a um capitalismo sem uma demarcação jurídica-institucional voltada para o bem comum, para a dignidade da pessoa humana.

 

 

 

Centesimus Annus

 

 

 

Na mais importante de suas encíclicas sociais, a Centesimus Annus, de 1991, o Papa elabora uma nova interpretação da iniciativa, da capacidade empresarial, do lucro e do próprio sistema capitalista de produção, fundamentando sua interpretação nos princípios, que sempre foram caros ao Cristianismo, da destinação universal dos bens e da propriedade privada individual.

Ao analisar esta última, o Papa salienta a importância de uma forma de propriedade que transcende a definição tradicional de capital, que é a propriedade do conhecimento, da técnica e do saber, que vem a ser a capacidade de organizar processos produtivos que envolvam cada vez mais indivíduos, de forma a satisfazer as necessidades do homem moderno, bem como a capacidade de assumir responsável e realisticamente os riscos necessários. João Paulo II define esta forma de propriedadade como capacidade de iniciativa ou  empreendedora e tal consideração representa um importante passo adiante dado pela doutrina social na interpretação da história contemporânea, pelo destaque que dá ao lado criativo e subjetivo do trabalho humano, à inteligência e capacidade de assumir riscos e descobrir novas oportunidades no processo de mercado, que possam oferecer respostas mais eficientes a muitos problemas humanos ainda não solucionados.

A raiz ética e cultural da economia empresarial moderna é a liberdade integral da pessoa humana, no centro da qual está sua dimensão ética e religiosa, assentada em um sólido contexto político-jurídico, que seja capaz de prevenir danos e degenerações e de reduzir ao mínimo os efeitos indesejados.

O Pontífice, porém, embora nos lembre que o homem foi criado para a liberdade, carrega consigo o sinal do pecado original, que o torna permanentemente necessitado de redenção. Como observa Felice, trata-se de uma verdade que não é apenas parte da mensagem cristã, mas de um importante valor hermenêutico, na medida em que traça um retrato concreto da realidade humana. Ora, se os indivíduos não são perfeitos, então as sociedades também não são perfeitas. Portanto, o equilíbrio de um ordenamento social depende dessa falibilidade social de um lado e, de outro, da medida em que os sujeitos individuais que constituem a sociedade mostram-se mais ou menos capazes de fazerem uma síntese contínua entre os interesses pessoais e o interesse comunitário. Como podemos ler na Centesimus Annus:

 

“L’uomo tende verso il bene ma è pure capace di male; può trascendere il suo interesse immediato e, tuttavia, rimanere a esso legato...[...] Quando gli uomini ritengono di possedere il segreto di un’organizzazione sociale perfetta che rende impossibile il male, ritengono anche di potenziare tutti i mezzi, anche la violenza o la menzogna, per realizzarla. La politica diventa allora uma “religione secolare”, che si illude di costruire il paradiso in questo mondo”.

 

 

 

 

COMENTÁRIOS FINAIS

 

 

 

      A solução para o mundo pós-1989, expressa claramente no parágrafo 42 da Centesimus Annus, considera uma importante distinção entre dois tipos de capitalismo, um, bastante desejável, fundamentado no papel positivo desempenhado pela empresa moderna, pelo mercado, pela propriedade privada e pela liberdade responsável que motiva as ações das pessoas e ancorado em um sólido sistema jurídico e a um ideal dado pela verdade de Deus a respeito do homem; o outro, extremamente negativo, sem estar ancorado a um sólido sistema de regras de justa conduta à liberdade característica dessas regras, distanciado da verdade divina sobre o homem e sem estar a serviço da liberdade humana integral, cujo centro deve ser ético e religioso.

      A importância que a Doutrina Social dá ao espírito de iniciativa e à capacidade empreendedora provém do destaque que o Cristianismo sempre atribuiu à necessidade de iluminar os homens através da virtude e ao fato  dessas atividades pressuporem virtudes como a diligência, a fortaleza, a laboriosidade, a prudência, a confiança e a solidariedade, que preparam o espírito para enfrentar com a armadura cristã os desafios das decisões difíceis e dolorosas e dos revezes da vida.

      Assim, para João Paulo II, a economia moderna, com seu caráter personalista, merece a atenção e o reconhecimento de todos os cristãos, porque seus fundamentos são construídos sobre a rocha sólida da liberdade da pessoa humana, liberdade que se exprime tanto no campo econômico como nos campos político e religioso. A economia de mercado não pode ser separada dos valores morais e culturais que alimentam não apenas a virtude, mas os valores  dos quais depende a sua própria existência, o que leva João Paulo II a situá-la a serviço da liberdade humana integral, cujo centro é de natureza ético-religiosa.

         A ética da ação humana que a aceitação da Doutrina Social da Igreja produz nos campos econômico e político é muito mais ampla do que as questões meramente redistributivas,  que sempre foram a tônica dos argumentos da esquerda e é plenamente capaz de, mediante o conhecimento crítico dos meios, estabelecer objetivos de ordenamento social cujo ator central seja a liberdade humana integral e de estimular adequadamente o desenvolvimento econômico, a liberdade política e o aperfeiçoamento do sistema ético-cultural.

Observemos que o Cristianismo existe há dois milênios; portanto, historicamente, é anterior à economia de mercado e não depende dela para continuar existindo, inclusive porque, segundo palavras de seu próprio Fundador, será eterno, pois Ele estará conosco até o fim dos tempos.

Já a economia de mercado, para que seja capaz de gerar aquele tipo de capitalismo incentivado pela Doutrina Social, precisa incorporar em suas relações na sociedade o sistema moral proposto pelo Cristianismo e que é realizador da liberdade integral da pessoa humana. Se não o fizer, se basear-se em uma visão cética em relação à missão a que todos os humanos são chamados a cumprir no mundo, ou, pior ainda, se adotar em suas relações sociais o relativismo moral, tão bem analisado e criticado por Paul Johnson em “Tempos Modernos”, terminará fazendo germinar aquele capitalismo negativo, alheio à justiça porque carente de regras de justa conduta, avesso à verdadeira liberdade porque estimulador de privilégios e distante da verdade divina porque mais afeito à corrupção e a outros vícios.

Se examinarmos atentamente a situação da América Latina e de outras regiões do mundo, veremos que, infelizmente, é o tipo negativo de capitalismo que prevalece, ao qual sequer podemos chamar de economia de mercado ou de liberalismo econômico.  Na verdade, em diversos aspectos, a América Latina ainda vive uma fase pré-capitalista, algo entre o mercantilismo e o capitalismo, com todas as nuances conhecidas de patrimolianlismo, coronelismo, protecionismo, estatismo, populismo e falso nacionalismo.

Uma outra questão interessante que surge de uma reflexão sobre a Doutrina Social e que precisa de respostas concretas é a de como se pode incentivar uma comunidade sem causar danos à individualidade, como podem as pessoas humanas, especialmente os cristãos, apresentarem uma unidade sem perderem a liberdade de compreender e de escolher. A resposta, conforme veremos na parte final deste artigo, está no denominado “princípio de subsidiariedade”’, formulado por Pio XI em 1931, que serve para dar ênfase aos  pequenos grupos, tais como famílias, empresas,  igrejas e associações, que tendem a produzir resultados muito melhores do que os gerados pela ação do Estado, em termos de conseguir estimular a um só tempo a liberdade e a comunhão.

 Cumpre mencionar que, na Centesimus Annus, ao procurar mostrar como as características econômicas da economia de mercado devem ajustar-se ao principio da destinação universal dos bens, o Pontífice afirma claramente:

 

“Dio há dato la terra a tutto il genere umano, perché essa sosteni tutti i suoi membri, senza escludere né privilegiare nessuno”.

 

      E, ao referir-se à propriedade privada individual:

 

“È mediante il lavoro che l’uomo, usando la sua intelligenza e la sua libertà, riesce a dominarla ( la terra), e ne fa la sua degna dimora. In tal modo egli fa propria una parte della terra, che appunto è acquistata col lavoro”.

 

      Ou seja, a terra, talento dado desde a Criação a toda a humanidade, foi-nos legada para sustentar a todos nós, sem exclusões nem privilégios. E é através do trabalho e do esforço, usando a inteligência e a liberdade  - que também são talentos doados a todos - que somos chamados a adquiri-la. Ao dizer que as leis de Deus condenam as exclusões e os privilégios, contudo, o Papa não está insuflando grupos de “sem terra” a invadir propriedades de terceiros, pois isto o colocaria em conflito com sua veemente defesa da propriedade privada; o que está afirmando, em perfeita sintonia com a antropologia cristã e com a Economia Personalista, é a obrigação do gênero humano de trabalhar para que o produto da terra seja universalizado  sob o ponto de vista econômico e, sob o ponto de vista político-institucional, está conclamando  também  todos a colaborarem, direta ou indiretamente, mediante pressão sobre os legisladores, para a adoção por parte da sociedade de normas de justa conduta, que possam vir a eliminar as exclusões e os privilégios. Sempre usando os talentos da inteligência e da liberdade  de maneira a subordiná-los  aos princípios éticos básicos.

      Da mesma forma, ao propor, no Ano Jubilar de 2000, que os páises ricos perdoassem parte da dívida externa dos países pobres, João Paulo II os exortava, livremente, à prática da virtude da solidariedade e estava longe de supor que suas palavras seriam interpretadas como uma espécie de salvo-conduto moral, passado pela autoridade máxima  mundial nesses assuntos, para que os países pobres dessem um calote em suas dívidas externas. Também não poderia supor que suas palavras acabariam servindo de pretexto para que muitas pessoas, algumas  bem intencionadas, mas usadas por grupos políticos de esquerda e outras com intenções não tão pristinas,  organizassem aquele triste “plebiscito da dívida externa” no Brasil.

Como  maior autoridade da Igreja,  sucessor de São Pedro e representante de Cristo na terra poderia propor duas ações inteiramente avessas à moral cristã, como soem ser os vícios de agredir o direito de propriedade, infringindo assim a ordem legalmente estabelecida e de deixar de honrar compromissos previamente assumidos quando da tomada dos empréstimos externos? Pedir aos credores para perdoar parte das dívidas não é o mesmo que exortar devedores a não pagá-las por decisão unilateral, da mesma forma que declarar que todos têm direito aos frutos da terra não é a mesma coisa que afirmar que todas as pessoas humanas na face da terra têm o direito adquirido de ser proprietários rurais, mesmo que ocupando  terras à força e ao arrepio da lei...

 

      A Igreja sempre manifestou um renovado interesse pelas atividades que pertencem ao campo da praxeologia e, em particular, pelos atos que se desenrolam na assim denominada economia de mercado Um dos primeiros estudiosos de economia foi São Tomás de Aquino, ainda no século XIII, ao qual seguiram-se os grandes nomes da Escolástica Tardia, como Tomás de Mercado, São Bernardino de Sena, Santo Antonino de Florença, Martin de Azpilcueta e muitos outros. Antes e depois da popularização das idéias de Max Weber acerca das relações entre o capitalismo e a ética protestante, a Igreja sempre  manifestou, seja por seu magistério seja pelas obras de seus membros,  o referido interesse. Na verdade, o capitalismo e a economia de mercado são plenamente compatíveis com a ética cristã, que é, a rigor, a ética do trabalho, não podendo restringir-se essa compatibilidade apenas aos ensinamentos éticos protestantes.

 

      Embora admita-se que a economia, vista como um corpo de conhecimentos científicos, tenha nascido em 1776  com Adam Smith, não podemos nos esquecer que, muito antes, diversos estudiosos, com São Tomás de Aquino sendo a expressão maior entre eles, já se ocupavam com o estudo dos problemas envolvidos nas relações econômicas.  Assim, a economia nasceu e cresceu profundamente ligada aos ensinamentos morais. A separação entre moral e economia, cujas origens podem ser encontradas em Bernard de Mandeville,  é fato recente, data do século XIX, já com os discípulos de Smith.  O autor de A Riqueza das Nações, aliás, escreveu uma obra bastante interessante sobre os sentimentos morais. Esta ruptura verificada no meio acadêmico entre economia e moral acarretou diversos problemas. De um lado, a ciência econômica, também influenciada pelos preceitos positivistas que caracterizaram a segunda metade daquele século, passou a ser tratada de forma cada vez mais técnica, o que a foi distanciando dos problemas efetivamente encontrados no mundo real – na praxis – dos negócios. De outro, na medida em que os economistas foram progressivamente enveredando pelo caminho dos modelos matemáticos e, já no século XX, pela econometria, buscando transformar a economia em algo que ele nunca foi e nem será – uma ciência exata -, os problemas econômicos passaram a ser dissociados das questões políticas, culturais e éticas.

 

      O homem é um ser essencialmente ético, na medida em que suas ações precisam ser justificadas pela razão consciente. Ora, ao separar moral e economia, a ação humana no campo econômico fica circunscrita dentro de um subconjunto da razão, que nada mais é do que a razão instrumental ou utilitária e, desse modo, os atos econômicos tornam-se alheios à razão substantiva, que é a possibilidade de pensar o todo da própria existência humana. É como se corpo e alma pudessem, sob a perspectiva da eternidade, ser separados, o que, evidentemente, não ocorre.

 

      Todo esse processo de separação entre economia e moral, bem como entre as demais ciências humanas e a moral faz parte de um outro, mais amplo, o de secularização e segmentação do mundo moderno, que gerou domínios fragmentados e estanques da razão, cada um deles com sua lógica e racionalidade parciais. Na economia, é inegável que houve grandes avanços, na medida em que o mundo experimentou, desde Adam Smith, um desenvolvimento econômico sem precedentes. Porém, se muitos problemas foram resolvidos, lembremo-nos de que muitos permanecem à espera de soluções e também de que surgiram novos desafios para substituir os que foram equacionados. Com a fragmentação e secularização crescentes do mundo atual, vem brotando, tímida mas inexoravelmente, um desejo do fundo da anema, que é o de reencontrar o sentido da realidade vivida e de remontar a razão substantiva, desejo que pode ser percebido pela força que vem ganhando nos últimos anos o debate interdisciplinar Exatamente como Mises e os demais economistas da Escola Austríaca sempre sustentaram, desde o final do século XIX e do qual a Igreja jamais se afastou!

 

      Dentro dessa razão mais ampla e policrômica, economia, política, moral e religião deverão necessariamente reaproximar-se novamente no plano teórico, porquanto, no terreno das relações humanas que sempre regeram o mundo, sempre existiu essa “interdisciplinaridade” de ações.

 

      A leitura dos documentos da Igreja, em especial a Laborem Exercens, de 1981, a  Sollicitudo Rei Socialis, de 1988  e a  Centesimus Annus, de 1991, mostra que conceitos econômicos como capital, trabalho, terra, propriedade privada, destino universal dos bens, lucro, juros, riqueza, renda e muitos outros, quando utilizados com a finalidade de servir à pessoa humana e de promover a sua dignidade, não apenas são compatíveis com a reta doutrina do tesouro legado por Cristo, como são indispensáveis para a realização desse grande objetivo.

 

      Todos os nossos atos nos diversos campos da praxeologia só se revestem de um sentido mais profundo quando são calçados em princípios morais; toda a satisfação das necessidades no campo da economia só adquire verdadeira justificação perante Deus quando levar em conta os referidos princípios.

     

      Cada um de nós, em proporção aos talentos recebidos, é chamado a ser um santo no meio do mundo, de um mundo cada vez mais complexo, secularizado, fragmentado e em que o ter é visto como fim e o ser  é relegado a segundo plano. Mas é neste mesmo mundo, enfrentando todas as dificuldades da vida moderna, enfrentando todos os obstáculos que nos são impostos, que devemos tentar, na medida de nossas possibilidades e reconhecendo e procurando corrigir as nossas fraquezas, conciliar nossos atos econômicos com os princípios morais, para dotar os primeiros de verdadeiro sentido.

 

      Queremos encerrar com as observações sábias de um homem dos nossos tempos que conseguiu vivenciar durante toda a sua vida essa busca pela santidade no mundo, santidade que pode ser exercida em todos os nossos atos, quando tentamos executá-los, embora cientes de nossas limitações, com perfeição humana, sejam eles tarefas consideradas humildes ou importantes sob a ótica humana, desde um simples cumprimento a um vizinho até uma aula magna em uma universidade, desde a tarefa de lavar a louça após as refeições até a de formular um plano de investimentos para uma empresa. O que Deus espera de cada um é o cumprimento acabado de seus deveres profissionais, familiares e sociais. Em muitos casos, para cada dia e cada hora só há uma ação possível de ser a certa, sob o ponto de vista moral.  Corresponde a cada homem descobrir essa ação que é a “certa” para Deus, empregando nessa difícil busca todos os seus conhecimentos e todos os seus sentidos.

 

      Esta é a síntese dos ensinamentos que podemos extrair da Doutrina Social da Igreja, e que devemos ter em mente ao buscar harmonizar os ensinamentos de Cristo com nossas atividades econômicas, sociais, culturais, políticas, esportivas, de lazer, com tudo o que fazemos, enfim. É servir a Deus no mundo, tal como nos ensinou o homem de Deus a que me referi há pouco, nascido em 1902 e que nos deixou em 1975, sendo canonizado em maio de 2002 pelo Santo Padre: São Josemaría Escrivá, que escreveu, em Amar o Mundo Apaixonadamente, em 1967:

 

“É a vida corrente o verdadeiro lugar da existência cristã...Deus nos chama a servi-Lo em e a partir das tarefas civis, materiais, seculares da vida humana(...) e nos espera cada dia: no laboratório, na sala de operações do hospital, no quartel, na cátedra universitária, na fábrica, na oficina, no campo, no seio do lar e em todo o imenso panorama do trabalho”.

 

 

 

CONCLUSÕES

 

 

Os Papas, desde São Pedro, são, por delegação expressa do próprio Cristo ressuscitado, que fundou a Igreja Católica, os seus representantes na terra. Jesus, como é mais do que claro da leitura dos Evangelhos, das Cartas dos Apóstolos e de diversas encíclicas que compõem o Novo Testamento, afirmou peremptoriamente que o Reino de seu Pai não era deste mundo, porque, ao dizer que era o Caminho, a Verdade e a Vida, referia-se à vida eterna.

Por isso, quando a desinformação, maldosa ou ingenuamente, tenta classificar este ou aquele Papa como de “direita  (“conservador”) ou de “esquerda” (“progressista”), os verdadeiros católicos sabem que esse tipo de assunto não tem o menor cabimento, pois sabem que a Igreja mantém-se acima de qualquer sistema social particular. Evidentemente, em dois mil anos de História da Igreja, houve extraordinárias mudanças nos sistemas sociais, políticos e econômicos e cada um dos Papas, como não poderia deixar de ser, viveu a sua época, tentando passar a mensagem eterna de Cristo para as circunstâncias temporais do mundo.

João Paulo II, em particular, ao perceber que a Teologia da Libertação era mais uma dentre as tantas heresias que permearam a História da Igreja, não hesitou em condena-la abertamente, sendo por isto rotulado como sendo um papa “conservador”. Por outro lado, ao esgarçar as mazelas do chamado capitalismo “selvagem”, movido pelo puro egoísmo e sem qualquer preocupação de natureza moral – o libertarianismo – foi por outros considerado como sendo um Papa ‘progressista”. Palavras, nada mais do que palavras.

A mensagem de Cristo é eterna e, assim como não é o rabo que sacode o cachorro, não é a Igreja que deve se “modernizar”, deixando de lado todo o legado moral que Cristo lhe confiou, para adaptar-se ao mundo; é, antes, o mundo que deve procurar seguir os ensinamentos do Senhor, para que os indivíduos possam ganhar a vida eterna.

Assim crêem os católicos. Por isso, não nos preocupamos com a eleição do sucessor de João Paulo II, o Grande! Qualquer que seja o cardeal eleito, saberá defender os valores do Evangelho. Aborto, matrimônio entre pessoas do mesmo sexo, experiências com fetos e outros erros continuarão, qualquer que seja o novo líder da Igreja Romana, sendo considerados como erros e inadmissíveis perante a doutrina de Cristo.

Os hereges, pretensos “teólogos” de uma libertação à la Marx, continuarão fazendo o seu barulho, enquanto a caravana de Cristo continuará a passar, conforme ele nos prometeu.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Doutor em Economia (EPGE/FGV), Presidente do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (Cieep) e Professor da UERJ, da FGV, da PUC e  do IBMEC.

 

 

                                                                            
                                                                                                                                                     
                                                                                                                                                                                                                                                                                                      
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                 

 

 

Artigo do Mês - Ano IV - Nº 36 – Março de 2005

 

 

 

 

 

 

 

 

O TEOREMA DA INCOMPETÊNCIA LATINO-AMERICANA

 

                                     

                        

 

 Em 1776, quando as treze colônias originais formaram os Estados Unidos da América, o seu PIB total era equivalente ao dos dez países da América do Sul. Éramos, portanto, tão pobres quanto a nação que se tornaria a economia mais poderosa do mundo. E, se éramos “explorados” por nossos colonizadores europeus, eles também o eram. Por que, então, ao longo dos últimos duzentos e vinte e nove anos, os desempenhos econômicos da América do Sul – e da América Latina, em geral – se distanciaram tanto? Por que permanecemos pobres e eles enriqueceram

 

Estou convencido de que só há uma resposta geral e plausível: é que as instituições que os norte-americanos lograram construir foram e continuam sendo muito superiores às que os países latino-americanos resolveram seguir. Enquanto lá se estimulava o trabalho e a iniciativa individuais, aqui se desestimulava; enquanto eles enquadravam o Estado para servi-los, nós preferimos nos deixar aprisionar pelo Estado, para de nós se servir; enquanto lá se adotava um federalismo descentralizado, aqui se seguia um modelo de decisões políticas excessivamente centralizador; lá, a liberdade econômica, aqui, o Estado se metendo na vida dos cidadãos; lá, a liberdade política, aqui, um vai e vem de períodos de ditaduras entremeados por anos de uma democracia viciada, porque pouco representativa; lá, a lei, definida como normas gerais e concisas de conduta, justas, prospectivas e iguais para todos, aqui, uma furibunda incontinência legislatória, baseada em comandos e ordens; lá,  a autoridade da lei, aqui, a lei da autoridade; lá, a educação tratada com seriedade, aqui, como um componente da política.

 

Quase dois séculos e meio não foram suficientes para nos ensinarem essas lições da História, isto para não falarmos de diversos países asiáticos que conseguiram se desenvolver. À evidência, o atual governo do Brasil, juntamente com outros da nossa pobre América Latina e da África, parece crer piamente no falso teorema de que “o somatório das pobrezas é igual à riqueza”...

 

Assim, acreditam que uma união política e econômica do Brasil com Venezuela, Cuba, Argentina e outras economias pobres da África e do mundo árabe poderá produzir uma potência política e econômica, como se fosse possível formar um time do nível de um Real Madrid a partir de uma seleção de jogadores do Íbis, do Tabajara e do Arranca-Toco Futebol Clube...

 

Um teorema sinistro nos dois sentidos, porque só nos condenará a permanecer na pobreza e porque é enunciado pela esquerda. Quando os países da América Latina vão abandonar o marxismo de botequim e aprender que, se somos pobres, não é porque os ricos nos “exploram” - mesmo porque eles também eram “explorados” há duzentos e cinqüenta anos atrás - mas sim porque nossas instituições políticas, econômicas e morais estão contaminadas pela idolatria ao Estado, pela suspeição permanente sobre os cidadãos, pela corrupção, pela estúpida burocracia, pela estulta carga tributária, pelo paternalismo, pelo sindicalismo político, por empresários viciados em benesses públicas, pelo corporativismo, pelo desrespeito para com o federalismo, pelo desperdício de recursos públicos, pela falta de respeito para com a educação e a saúde, pela inexistência de programas por parte dos partidos políticos e por tantas outras manias, cacoetes e distúrbios compulsivos que caracterizam a tão exaltada “latinoamericanidad”?

 

    O Brasil do PT, a Venezuela do inacreditável Hugo Chávez e a ilha-prisão do ditador Fidel vão somar esforços, visando a  promover, cooptando outros países,  a “revolução bolivariana”, cujos princípios estão contidos naquele livrinho que o presidente venezuelano carrega para onde vai, brandindo-o como flamejante espada. O Tabajara Futebol Clube vai entrar em campo. E as montanhas vão entrar em trabalho de parto, de onde nascerá  um ridículo rato.

 

Ah, América Latina, tão cheia de recursos naturais, tão beneficiada pelas condições climáticas, tão rica em potencial, mas tão pobre e estúpida em termos de organização social, política e econômica...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                     
                                                                                                                                                                                                                                                                                                            
                                                                           
                                                                           
                                                                          

 

 

Artigo do Mês - Ano IV - Nº 35 - Fevereiro de 2005

 

 

 

 

 

 

 

 

O “OUTRO MUNDO POSSÍVEL” DO FSM

 

 

                                       

                        

 

 Qual um Woodstock extemporâneo, milhares de militantes de esquerda, reunidos em Porto Alegre, a bela – e maltratada – capital gaúcha, entre debates, festas, passeatas e – quem é bobo? – comes e bebes dos bons, estão participando, nessa verdadeira ode ao atraso chamada “Forum Social Mundial”, dos infindáveis e monotônicos debates sobre o tal “outro mundo possível”...

 

Nada decidem, nada deliberam, mas falam, discursam, berram e gritam, xingam e põem para fora as suas frustrações, recalques e idiossincrasias, contra o famigerado capitalismo, os Estados Unidos, os bem-sucedidos, os transgênicos, o FMI, os banqueiros, o “capital financeiro” e, naturalmente, contra o maior dos males, que, do ponto de vista de seus QI’s de protozoários, é o “neoliberalismo globalizante e excludente”...

 

Já que nenhum de seus participantes parece ter a coragem de assumir o que realmente defende, que tal listarmos, em poucas linhas, o que vem a ser esse “outro mundo possível”, tentativa mais do que realizada em diversos países desde o século passado e que fracassou retumbantemente em todos os sentidos, principalmente no que se refere ao objetivo de tornar os cidadãos mais felizes.

 

O que vem a ser, afinal, esse tal “outro mundo possível”, além de uma torpe máscara para encobrir a sua verdadeira face – o socialismo-comunismo?

 

Primeiro, é um mundo de formigas, cupins, abelhas e de outros animais gregários, mas não de homens e mulheres! Para uma abelha, por sua natureza – abelhas não pensam! – a colméia é o grande objetivo, o que as torna “coletivistas”. Para qualquer ser humano normal, pensar na “sociedade” como um fim não passa de um simples sonho secundário, isto exatamente porque pensamos e, por isso, somos individualistas (o que não quer dizer egoístas): primeiro, nós e nossas famílias, depois, os parentes, depois, os amigos, depois, enfim, a “sociedade”... Se isto é “certo” ou “errado” não vem ao caso no contexto deste artigo, mas é simplesmente assim que as coisas acontecem e vão continuar a acontecer, desde Adão e Eva. Querer transformar seres racionais e dados ao individualismo em formigas é uma formidável burrice. Essa individualidade, ao contrário do que muitos defensores do “outro mundo possível”, com seus usuais argumentos de amebas, apregoam, não exclui virtudes como as da amizade, da compaixão, da solidariedade e outras. 

 

Segundo, é um mundo sem liberdade, a não ser a “liberdade para” ou “liberdade positiva” a que se referia Isaiah Berlin: nesse inferno pintado de paraíso do “outro mundo possível”, os cidadãos são livres, sim, mas para fazerem apenas o que a autoridade – geralmente, o partido comunista – determinam que pode ser feito. Iniciativa individual? Liberdade de pensamento? Criatividade? Para que, se gênios do tipo Fidel Castro, Pol Pot, Lenin, o histriônico Hugo Chávez e outras tristes figuras desse quilate sabem sempre o que é melhor ou pior para cada um dos que subjugam? É impressionante a desfaçatez com que essa gente do FSM fala em “democracia” e em “liberdade”, assim como é uma incongruência denominar-se um partido político de “Partido do Socialismo e da Liberdade”, algo como um tricolor rubro-negro ou um gremista colorado... Pois socialismo e liberdade são contraditórios, embora a maioria dos brasileiros, que não lêem ou não entendem o que lêem, nem desconfie disso...

 

Terceiro, é um mundo de pobreza, porque desde que Adam Smith lançou as bases do que hoje chamamos de desenvolvimento econômico, a principal causa da riqueza é a liberdade, liberdade de produzir, de comprar, de vender, de exportar, de poupar, de investir, de importar, de plantar... Não há sequer um exemplo de nação que tenha caído no canto da sereia do “outro mundo possível” que tenha assegurado um padrão de vida minimamente digno para os seus cidadãos. O que conseguiram – e conseguem, como em Cuba, no Vietnã do Norte e na Coréia do Norte atuais – é distribuir eqüitativamente a pobreza... Todos são iguais – “igualdade na chegada” -: burros, pascácios, inteligentes, lorpas, preguiçosos, diligentes, trabalhadores, malandros, sortudos, vigaristas, azarados, enfim, todos ganham praticamente o mesmo salário do Estado, desde o grande cirurgião até o vendedor de “elixir da juventude” que promete curar todas as doenças...

 

Por fim, para não nos alongarmos, o “outro mundo possível” é um mundo sem transcendência! Todos são forçados a serem ateus, mas não por escolha própria – o que, afinal, seria um direito de cada um – mas por imposição dos mandantes. Quantos sacerdotes católicos são presos, torturados e mortos na China, anualmente? Quantos judeus, protestantes e fiéis de outras religiões podem professá-las publicamente, nos países que optaram pelo “outro mundo possível”?

 

É um absurdo a cobertura que a mídia dá anualmente a esse festival de baboseiras, embora seja um absurdo compreensível, pois quase toda a mídia também acredita nesse “outro mundo possível”. Mas é também um absurdo – e não é compreensível! – que recursos dos contribuintes sejam usados para bancar essa festa onde se reúne o que há de mais atrasado no pensamento mundial. Na verdade, é um crime.

 

 

 

 



 
                                                                           
                                                                          

                                                                                                                                                  
                                                                           
                                                                           
                                                                           
                                                                                                                                                      
                                                                                                                                                                                                                        

 

 

Artigo do Mês - Ano IV - Nº 34 - Janeiro de 2005

 

 

 

 

 

 

 

 

RESOLUÇÕES DE ANO NOVO

 

 

                                       

                        

Janeiro é tempo de férias, de sol, de mar e de pré-carnaval, o que, em um país que parece gozar férias permanentemente, onde o sol levanta-se cedo e deita-se bem tarde, o mar é mais feliz e o carnaval marca registrada, não quer dizer muita coisa...

 

Mas é o primeiro mês do calendário e, portanto, época de se tentar mudar o que o tempo ensinou - para quem sabe apreender o seu descortinar - que precisa ser alterado. Ah, o tempo, esse moto perpétuo paganiniano de novas experiências, em que o velho se transforma em memória e acende as expectativas para o novo, o futuro, o nosso, o de todos e, em especial, o do “país do futuro”...  

 

Imaginemos que um “cidadão” chamado Brasil, deitado em berço esplêndido há cinco séculos, adquirisse alma, inteligência e consciência,  tomasse uma folha de papel e, como muitos mortais fazem a cada passagem de ano, desse asas à  superstição de escrever resoluções para os próximos doze meses, obstinadamente disposto a segui-las. O que escreveria?

 

No alto da página, como proposição principal, sublinharia:  “Não vou mais permitir que me chamem de país do futuro, porque ninguém agüenta carregar um peso desses por quinhentos e três anos seguidos; vou recuperar o tempo que me fizeram perder, obrigando-me a dormir com soníferos e sacrificando milhões e milhões dos meus filhos, geração após geração, governo após governo, ilusão após ilusão, para o que tomarei, entre outras, as medidas a seguir”.

 

              E prosseguiria:

 

“Primeira: chega de corrupção, de imoralidade, de mentiras e de vícios!

 

Segunda: fica proibido fazer uso eleitoral e demagógico da pobreza e da fé alheia para angariar votos e enriquecer!

 

Terceira: basta de centralização de poder: daqui em diante, vou ser uma república federativa de verdade!

 

 Quarta: o Estado passará a servir aos cidadãos e deixará de servir-se deles, o que significa que precisa de reformas profundas!

 

Quinta: para tanto, para início de conversa, promoverei uma reforma política para valer, com partidos programáticos e fidelidade a eles por parte dos políticos!

 

 Sexta: toda a burocracia será profissionalizada e reduzida ao mínimo indispensável, ficando terminantemente proibido inchar a máquina pública de “funcionários companheiros”, como o atual governo vem fazendo!

 

Sétima: qualquer político ou partido que, chegando ao poder, não cumprir o que prometeu em campanha - a não ser em casos excepcionais, como catástrofes, choques externos e guerras - será processado e proibido de concorrer a novos mandatos!

 

Oitava: prefeitos, governadores, presidentes e ministros deverão ter curso superior, para que não ajam como bonecos de ventríloquos e nem derramem bobagens quando se pronunciarem em público, ficando claro ser esta deliberação fruto de um conceito formado, firmado e comprovado, e não de qualquer preconceito!

 

Nona: quem quiser abrir um negócio legal, terá automaticamente autorização para fazê-lo, no prazo máximo de três dias úteis!

 

 Décima: ficam abolidos todos os setenta impostos,  taxas e contribuições existentes e adotado o imposto único, em âmbito municipal!

 

Décima primeira: fica instituído o princípio da subsidiariedade, em que os estados da federação serão supridos pelos respectivos municípios e a União pelos estados!

 

Décima segunda: o Judiciário e o Legislativo, nas três esferas de governo, passam a ser independentes de fato dos Executivos!

 

Décima terceira: institui-se a liberdade econômica e a de expressão, adotando-se a economia de mercado e obstruindo-se qualquer agressão a essas liberdades, como os monstrengos do “Conselho Nacional de Jornalismo” e da “Ancinave”, verdadeiros frutos de um autoritarismo serôdio, de caráter nazi-fascista-comunista!”

 

Como a praxe, segundo contam, é de escrever apenas treze resoluções, o nosso amigo Brasil ficaria por aí. Mas, como post scriptum, ainda anotaria um pedido:“quero que todos os brasileiros aprendam duas coisas básicas:  entender o que lêem e   deixar de confundir causas com efeitos!“ 

        

Essas proposições, evidentemente, têm que ser adotadas não por uma cabeça ou por um partido, ou por um iluminado de plantão, mas por um consenso entre as partes que formam, no mundo real, o “cidadão Brasil”, o que só se tornará factível a partir de uma enorme mudança de mentalidade e de atitudes por parte dos cidadãos, algo que, infelizmente, é impossível ocorrer em um horizonte razoável de tempo, já que estamos tratando de valores morais e culturais profundos e, ademais,  que  vivemos em uma sociedade ainda crente na ilusão fatal de que o Estado é um pai benfeitor e que deve nos prover de tudo o que necessitamos.

 

Não nos iludamos: o sono deve continuar por um bom tempo, empurrando irresponsavelmente para o amanhã uma coleção fantástica de coisas boas... Só que o amanhã, quando é permanentemente adiado, deixa de ser prudência, para tornar-se o advérbio dos vencidos!

 

Não obstante, Feliz 2005 para todos!