ONDE ESTÁ A HONESTIDADE?

18/12/2012

 desonEm 1933, o fenomenal compositor popular carioca Noel Rosa criticava aquilo que já era um grande mal da sociedade brasileira, a corrupção, escrevendo: Você tem palacete reluzente/ Tem joias e criados à vontade/ Sem ter nenhuma herança ou parente/ Só anda de automóvel na cidade.../ E o povo já pergunta com maldade:/ Onde está a honestidade?/Onde está a honestidade?

Já havia, portanto, algo de podre no ar de nosso lindo país, captado pelo chamado filósofo do samba com sua ironia genial. Mas isso vem – todos o sabemos - de muito antes de Noel, nascido em 1910: na verdade, desconfio que data do ano da graça de 1500, por volta do final do mês de abril... Que tal fazermos um pequeno exercício, o de classificar as notícias veiculadas nos meios de comunicação segundo três categorias: boas, indiferentes e más? Certamente, ficaremos espantados com a larga vantagem das últimas em relação às duas primeiras. São usos indevidos de informações privilegiadas, tráficos de influências, mensalões, mensalinhos, crimes e mais crimes, juízes que vendem sentenças, funcionários públicos com salários baixos mas levando vida de milionários, poluição nas praias, governadores bajuladores de Brasília, prefeitos malucos derrubando viadutos, assaltos, furtos, sequestros, assaltos, assassinatos, assembleias legislando em causa própria, etc.

 

Para compreendermos as causas dessa deterioração, creio que devemos recorrer ao método analítico usado por vários filósofos políticos, como, por exemplo, Daniel Bell, que classifica a sociedade em três grandes sistemas: o econômico, o político e, em terceiro lugar, servindo de sustentação para os dois anteriores, o sistema ético-moral-cultural.

Se nós, economistas, nos limitarmos a analisar os fatos prendendo-nos apenas ao que ocorre no sistema econômico, ficaremos com uma visão parcial. Como ensinou o Prof. Hayek ao ganhar o Nobel de Economia em 1974, “o economista que só sabe Economia não pode ser um bom economista”, o que nos empurra, se de fato desejarmos realizar análises realistas, a tentar integrar a Economia com as demais ciências que buscam explicar o comportamento das pessoas. E continua Noel:

O seu dinheiro nasce de repente/ E embora não se saiba se é verdade/ Você acha nas ruas diariamente/ Anéis, dinheiro e até felicidade.../ E o povo já pergunta com maldade:/ Onde está a honestidade?/ Onde está a honestidade?

Os seres humanos não vivem apenas de pão e de circo. Em sua imensa maioria, apenas encontram lugar para a paz em suas consciências quando acreditam que suas atividades econômicas e políticas se revestem de significado moral. Virtudes como trabalho duro,  perseverança nas dificuldades da vida,  frugalidade e  esperança só fazem sentido enquanto incentivadoras do bem-estar material – que faz parte da dignidade humana – se encontrarem respaldo em instituições que valorizem valores morais sólidos. Não existem crises econômicas ou políticas sem causas éticas e morais! Isto quer dizer que o déficit público, a inflação, a dívida interna, o desemprego, as mazelas de nosso sistema político, a corrupção, o desmantelamento da família e outros males são meras manifestações da contaminação do sistema ético.

A crise moral, por sua vez, é reflexo parcial de uma dupla de fenômenos recorrentes, característicos dos tempos modernos. O primeiro é o culto ao relativismo, que justifica por si só a busca desenfreada à riqueza, ao poder e ao prazer pelo prazer, ao isentar os culpados de suas culpas (preferindo atribuí-las a entes abstratos, como, por exemplo, a “sociedade”) e ao tornar lícitas práticas que desde tempos imemoriais sempre foram universalmente tidas como ilícitas. E o segundo, que é resultado do primeiro, é o crescimento desenfreado do Estado, especialmente pelas facilidades à corrupção que acarretou sobre as atividades sociais e econômicas.

corrÀs vezes temos a impressão de que certos valores morais - no caso, o da honestidade - foram para as calendas há muito tempo e pouquíssimas pessoas os praticam, embora quase todos vivam a falar que são contra a corrupção. Faça uma pergunta a você mesmo: que percentual dessas pessoas que vivem a falar mal (com toda a razão) do maior escândalo de corrupção de toda a nossa história, o do “mensalão”, caso estivessem no lugar dos protagonistas que tanto criticam, não teriam agido exatamente da mesma forma? Será que alguns desses críticos não roubam no peso, na padaria ou açougue em que trabalham, por exemplo? Ou, se a moça da caixa do supermercado lhe der troco em excesso, devolverá a ela o que recebeu a mais? Ou, se for aluno e tiver oportunidade, não “colará” naquela prova mais difícil? E finaliza Noel:

Vassoura dos salões da sociedade/ Que varre o que encontrar em sua frente/ Promove festivais de caridade/ Em nome de qualquer defunto ausente.../ E o povo já pergunta com maldade:/ Onde está a honestidade?/ Onde está a honestidade?

Mas, felizmente, ainda nascem flores e há notícias boas. Conforme publiquei no jornal O Dia, em que tinha uma coluna semanal, no dia 11 de maio de 1999, “na página três da edição de sábado, 1º de maio, um taxista, Levi de Souza, de 63 anos (este, sim, merecia ter seu nome divulgado), devolveu a uma passageira a bolsa que a mesma havia esquecido, com R$ 4 mil em joias, sem aceitar qualquer recompensa”. Por que cito aquele episódio, mais de treze anos depois? Bem, é apenas para perguntar: algum de nós se lembra dele? A imprensa deu ao Sr. Levi o destaque devido, ou apenas noticiou o fato no dia seguinte e ficou por isso mesmo? Só mencionei o episódio naquele meu artigo porque senti falta de maior destaque na mídia à demonstração de honestidade do taxista.  Alguma revista o chamou para ser capa de sua próxima edição ou seus editores preferiram, como sempre, recorrer a alguma “modelo” - meu pai se referia a elas com uma palavra um tanto diferente, mas não consigo me lembrar -..., com a parte de baixo da saia na altura do abdômen (se é que usaria saia) e disposta a fazer qualquer coisa para aparecer?  

Com isso, não quero absolutamente afirmar que todos são corruptos - é óbvio que não; quero tão somente fazer você refletir sobre até que ponto a deterioração moral generalizada – de que a corrupção é apenas uma de suas diversas manifestações – não é consequência dos estímulos do mundo nihilista em que vivemos atualmente, como tão bem observou o filósofo Eric Voegelin. O sistema ético-moral-cultural está literalmente podre!

Se o grande filósofo do samba ainda vivesse teria 102 anos, mas talvez ainda tivesse inspiração para homenagear o humilde Sr. Levi - exemplo para tantos poderosos – e todos os “levis”, com um samba daqueles que já não se fazem mais...