CATÓLICOS SIMBÓLICOS

21/12/2012leil

Os “teólogos da libertação”, aquele tipo de gente que se infiltrou na Igreja por volta dos anos 70 apenas com o intuito oculto de implantar o socialismo e que Nelson Rodrigues chamava de padres de passeata, causaram danos muito grandes e confundiram muitas pessoas de boa fé, antes de serem defenestrados por João Paulo II, desde que o atual Papa Bento XVI era o Cardeal Ratzinger e percebeu suas más intenções. Mas eles não desistem. São os católicos simbólicos, porque parecem ou se fazem parecer católicos por pura conveniência, devido a certas posições que assumem completamente contrárias à doutrina reta de Roma, para eles "conservadora". Ah, como não poderia deixar de ser, eles se autodenominam de "progressistas"...

Em artigo no Globo de anteontem, sob o título – que já deixava transparecer o que viria depois - "Ingenuidades moralistas", Manuela Rodríguez Piñeres, que se assina como "integrante do Instituto Irmãs Oblatas do Santíssimo Redentor" e, portanto, como católica, ao comentar a atitude de certas mulheres de venderem sua virgindade na Internet, regurgita ecos da extinta “teologia da libertação", expele pitadas de feminismo radical e transborda bordões marxistas politicamente corretos. Em um simples artigo, três emblemas oxidados pelo tempo, o mesmo tempo que destruiu a visão de Marx a respeito da História! Vou comentar sua coleção de falácias e, apenas para tornar o texto mais “animado”, marcar em fundo amarelo as palavras ou frases em que esses três atributos aparecem. Vou primeiro enumerar alguns dos “argumentos” da autora e depois os comentarei.

 

Bem, ela começa citando Rachel Soihet e Izilda Maria de Matos: “O corpo feminino reina e padece em diversas épocas de história; território há muito considerado de posse e cultivo masculino, “vaso receptor”, ora sagrado, ora laico”. Em seguida, com suas próprias palavras, formula a transcendental pergunta: “As mulheres continuam sendo o “vaso receptor”, a posse do masculino? Será que, em meio à transformação dos corpos femininos em espetáculo para homens e terreno de reprodução dominado por eles, como sublinha Michelle Perrot, emerge a mulher sem direitos sobre o próprio corpo?” ou, talvez, mulheres com o corpo fragmentado e “obrigado” a responder à procura masculina dentro de um sistema pornográfico, patriarcal e hegemônico no marco do capitalismo neoliberal excludente? [argh!]

leilE, sempre copiando e colando frases alheias: “Na perspectiva da exploração sexual e da chamada “indústria sexual”, citando Dusch que, por sua vez, cita Richard Poulin [a cópia da cópia, portanto, algo como um produto produzido em duas etapas por duas empresas paraguaias]: “a prostituição adquiriu um caráter de massa e espalhou-se pelo mundo inteiro, junto da pornografia”. Isto traz como consequência a chamada “mercantilização dos corpos”. Mas, talvez em uma distração, emenda uma pergunta precisa: “Haveria oferta se não houvesse uma procura”? Em seguida, após ponderar corretamente como o estereótipo de conquista de fama, celebridade e dinheiro fácil vai corroendo as mentes das mulheres desde meninas e que “nesta moldura mundial globalizada a superprodução pornográfica vai se tornando algo “quase natural” e, às vezes, utilizada como chance de obter lucros rápidos [seu ódio ao capitalismo e ignorância econômica a impedem de saber que apenas pessoas jurídicas podem auferir lucros] e conquista da fama”. E afirma que “hoje, no Brasil, o chamado turismo sexual e o tráfico de mulheres, crianças e adolescentes estão sendo direcionados a este ponto”. Antes de terminar, um festival de marxismo barato na forma de palavras politicamente corretas: “... pensamos que estes questionamentos podem nos ajudar a ampliar a visão sobre este tema”. “Refletir aguçará a consciência crítica e nos orientará a utilizar alternativas para desconstruir qualquer tipo de discurso propagandístico, definindo posicionamentos críticos para não compactuar com projetos desumanos que mercantilizam os corpos, sobretudo, das mulheres”. E o “brilhante” encerramento: “Ingenuidades moralistas levam pessoas a “atirarem a primeira pedra” [caramba, ela, finalmente, lembrou-se do Evangelho, mas para uso próprio] nas protagonistas que mais aparecem e não ver, ou deixar na sombra, as causas primeiras e principais”.

O que há de errado com o texto? Bem, em primeiro lugar, vamos ao pouco que não existe de errado, que são, a meu ver, as afirmativas de que não há oferta sem demanda e de que as cabeças de muitas meninas são direcionadas para a busca de ganhos pela exposição e/ou venda dos próprios corpos. Correto, mas atentemos para o seguinte: (1) essa demanda e essa oferta sempre existiram, não fosse a prostituição conhecida como a mais antiga das profissões e datasse, portanto, de milhares de anos antes do surgimento do capitalismo; (2) certamente não é o tal “capitalismo neoliberal excludente” o culpado por todos esses males, porque, se o fosse, não haveria prostituição nos países socialistas, a começar por Cuba, a Disneylândia da esquerda tupiniquim. Com relação a esse último ponto, vale reproduzir trecho de e-mail enviado à Frente Universitária Lepanto por Sylvia, uma cubana que escapou de morrer em fevereiro de 1996, quando Fidel Castro mandou derrubar aviões civis que buscavam resgatar balseiros cubanos no mar, em águas internacionais. A mensagem de Sylvia, de 22/06/99, foi sua resposta a uma simpatizante da ditadura cubana que havia escrito para a mesma Frente Universitária católica:

cub “Estimado Sr. V:… estimo que é importante que conteste à Sra. S. com a realidade cubana. Ela ouviu todos os mitos da “revolução” e do “homem novo”, propagados pelo regime castrista e apoiados por muitos interesses no nível internacional. A história é como segue: Antes de Fidel Castro, havia prostituição em Cuba… em bairros específicos, e havia leis para essas casas de prostituição. Normalmente, era um ofício que não motivava muitas mulheres. Depois do triunfo da “revolução”, Fidel Castro converteu Cuba, desde “Pinar del Rio” até o oriente, de ponta a ponta, em um prostíbulo para turistas e como meio de atrair moeda forte à decrépita e inoperante economia da “revolução”. Mas a culpa, claro, é do capitalismo neoliberal...

Por outro lado a articulista, por assinar-se como católica, deveria saber muito bem que as causas dessa prostituição “globalizada” são de natureza moral e não política! A cura desse problema, para qualquer católico que siga a reta doutrina de Roma, passa, portanto, pela evangelização, pelo apostolado, pelos bons exemplos, pelo perdão sincero e pela correção fraterna e não por discursos políticos de corte marxista ou qualquer outro. Em todos os mercados, se existe demanda, logo surgirá oferta para supri-la; e no caso do mercado de prostituição não é diferente, como a própria autora reconheceu. O processo de mercado funciona sempre, para o bem ou para o mal!

Só que, primeiro, apenas valores morais sólidos podem reduzir drasticamente essa demanda e, portanto, desestimular a oferta (e não "aguçamentos da consciência crítica para desconstruir qualquer tipo de discurso propagandístico, definindo posicionamentos críticos para não compactuar com projetos desumanos que mercantilizam os corpos, sobretudo, das mulheres" - ou seja, trocando em miúdos, “políticas públicas” socialistas).

Segundo, a articulista parece colocar toda a “culpa” na demanda, nos tarados e “dominadores” homens. E ainda diz que são as tais “ingenuidades moralistas” que levam as pessoas a atirarem a primeira pedra, deixando de lado as “causas primeiras e principais” (que, a seu ver, são os males do capitalismo).

Trata-se de uma velha falácia, no caso a de distorcer os ensinamentos do Evangelho para tentar sustentar um argumento falso! Quando Jesus salvou aquela mulher adúltera de ser apedrejada, fez questão de dizer duas coisas: primeiro, que quem estivesse sem qualquer pecado que atirasse a primeira pedra e segundo, disse à mulher para ir e não voltar a pecar! Não se trata, por conseguinte, de “ingenuidade moralista” dizer que essas mulheres que se prostituem, ou que vendem sua virgindade na Internet para quem der mais estão menos erradas do que aqueles homens que se prestam a atendê-las. Então essas moças que vendem seu recato e seus corpos por vontade própria são modelos de virtudes e meras vítimas da maldade neoliberal? Ambos – homens e mulheres – estão errados ou, para usar a linguagem católica, são pecadores!

virCom toda a franqueza, a autora é uma religiosa ou uma militante de esquerda? Isso me faz lembrar um seminário organizado pelo Cieep há alguns anos, em que, em um dos painéis, havia um bispo sentado ao meu lado. No tempo dedicado às perguntas, levantou-se da plateia um padre que gastou uns cinco minutos criticando o Papa (que então era João Paulo II) e o capitalismo. A cada frase do padre de passeata, eu só ouvia o bispo murmurar: “Ai, meu Deus”! Como eu estava presidindo a mesa, perguntei então a Sua Eminência em um bilhetinho se ele me autorizava a responder ao “teólogo” comunista, ele me acenou com a cabeça que sim e pela primeira vez em minha vida tratei um sacerdote (mau) com aspereza, dizendo-lhe com firmeza: Ou o senhor cumpre o seu dever de respeitar o Papa e de seguir a doutrina reta, ou largue de uma vez o sacerdócio e vá concorrer a algum cargo pelo partido comunista! O sujeito ficou estupefato e murmurou algo ininteligível, foi consolado por uns três ou quatro simpatizantes da empresa Boff, Beto & Cia., enquanto o restante da plateia, jpIIformada por católicos de verdade, me aplaudia. Quero deixar claro que nada tenho de pessoal contra a autora do artigo e que defenderei até o fim o seu direito de ser comunista, mas não posso admitir ninguém se esconder sob um catolicismo de fachada para justificar-se como comunista: os que agem assim não são mais do que católicos simbólicos, uma vez que marxismo e catolicismo não são termos contrários, mas contraditórios, não admitem meio termo: ou se é católico ou se é marxista, mas jamais ambas as coisas ao mesmo tempo.

Esta imagem à esquerda é bem significativa e mostra o Papa João Paulo II advertindo publicamente, de dedo em riste, o sacerdote Ernesto Cardenal, um dos "teólogos da libertação" mais famosos. Essa clara demonstração de reprovação aconteceu em visita de Wojtyla à Guatemala  e foi uma das primeiras atitudes que o inesquecível Papa tomou assim que chegou àquele país, que na época era um foco dos católicos simbólicos diabólicos. Observem o semblante sério de Sua Santidade e o sorriso entre o sem graça e o debochado do mau sacerdote.

Por fim, uma perguntinha só, de que já ia me esquecendo: por que, já que vivemos no Brasil, a articulista escreve em politiquês corretês e não em  português? Vou dar a resposta: primeiro, porque pessoas assim, de tanto falarem a linguagem das doninhas, já nem lembram mais da de Camões e Machado e segundo, porque empregar essa linguagem tem o dom mágico de fazer quem as lê ou ouve aceitar pacificamente, sem pensar, turbilhões de falácias como se argumentos sólidos fossem.