ANO NOVO, VELHOS PROBLEMAS

31/12/2012

anEste artigo tem uma história curiosa: publicado em 07/01/04 no Jornal do Brasil, foi escolhido para tema da prova de Português realizada naquele ano, em um concurso para o Poder Judiciário do estado do Rio de Janeiro. Os doutos formuladores da prova elaboraram 20 questões sobre o meu artigo sem que eu soubesse, pois ninguém me pediu autorização para tal (o estado não paga direitos autorais)! No dia seguinte ao da prova, uma segunda-feira, minha secretária me disse algo como: “Puxa, Professor, o senhor me derrubou na prova de ontem”... Ao saber que minha modesta saudação ao ano de 2004 fora tema de um concurso público, pedi a ela as questões da prova e, por curiosidade, tentei resolvê-las. Estava repleta de perguntas sobre anacolutos, sístoles, diástoles, metaplasmos e aquelas coisas que os professores adoram incluir em provas, além de perguntas do tipo “o que o autor quis dizer com tal frase”?... Ao pedir a ela o gabarito, verifiquei que, das 20, acertei apenas 8... Disse então a ela: “Console-se porque não derrubei só você, derrubei a mim também”. Resumindo: descobri que os autores das questões sabiam mais sobre o que eu quis dizer no artigo do que eu mesmo! Foi minha única reprovação em português... Coisas da vida. Reproduzo hoje o artigo ipsis litteris, porque não perdeu atualidade.

 

 

A cada início de ano, é costume renovar esperanças e fortalecer confianças em relação ao futuro. Tempo de arrumar armários, limpar gavetas, fazer faxinas e vestir cores que – acreditam muitos – ajudem a realizar antigos desejos e aspirações. Nada existe de errado com esses hábitos, descontado o teor de superstição que costuma motivá-los, nem com o fato de se os estender para o campo das relações econômicas. Afinal, também na economia a esperança pode, assim como a fé, mover montanhas.  Mas, para tal, precisa fundamentar-se em fatos concretos e não em crenças escatológicas ou mitos ideológicos.

Um pouco de realismo sempre faz bem, mesmo ao elevado custo de eventualmente abalar as confianças e esperanças que os cidadãos brasileiros, pacientemente, procuram robustecer em cada réveillon, desde que Cabral aqui aportou.

Os atos econômicos não são praticados em um vazio institucional, já que o homo economicus, aquele robô frio, calculista e sempre pronto a maximizar resultados, sejam eles lucros, utilidades, taxas de retornos ou quaisquer outros, só existe nos livros de economia. Na vida real, as relações entre economia, política, direito, ética e outros campos da ação humana objetiva e subjetiva são inevitáveis, sendo a soma dessas inter-relações o que se chama, reverentemente, de sociedade. Em outras palavras, como dizia o sábio Professor Eugenio Gudin, coeteris non sunt paribus... O hábito arraigado de separar-se o econômico do social, do político, do ético e do legal, de que é exemplo o discurso de contrapor o “mercado” ao “social” – quase sempre denegrindo o primeiro e enaltecendo o segundo – é uma das causas das repetidas frustrações das esperanças de crescimento econômico sustentado.

Ora, como pessimistas nada mais são do que otimistas bem informados, tentemos não ser nem uma coisa nem outra: busquemos, apenas, ser realistas e olhemos para as instituições que nos circundam. O que vemos, neste início de ano, não é diferente do que sempre vimos em muitos outros janeiros: (a) no seio do próprio governo, um cabo-de-guerra, particularmente perigoso em ano de eleições, confrontando, de um lado, pragmáticos que em boa hora acolheram o princípio moral da responsabilidade fiscal e, de outro, pretensos progressistas, presos a dogmas ideológicos e para quem responsabilidade fiscal é coisa de neoliberais; (b) observando o episódio das convocações extraordinárias do Congresso e de algumas assembleias estaduais, para não citarmos outros, vemos um legislativo desacreditado e alheio aos males que uma explosão de gastos públicos provocará em nossa precária situação fiscal; (c) o judiciário, em condições semelhantes e emitindo sinais inoportunos de politização; (d) uma carga tributária extorsiva e crescente; (e) uma burocracia sufocante e cada vez maior, mais politizada e menos profissionalizada; (f) uma crença generalizada na seita de que a pobreza de muitos é fruto da riqueza de poucos; (g) uma perigosa incitação ao ódio, derivada do conceito de lutas de classes, em que se lança, sob o nome de políticas afirmativas, negros contra brancos, pobres contra bem sucedidos, mulheres contra homens e homossexuais contra heterossexuais; (h) valores morais em clara decomposição e (i) centralização crescente de poder, em detrimento do federalismo.

A consequência disso tudo é uma anomia generalizada, em que o cidadão, tornado servo de um Estado que há muito tempo pouco ou nada lhe oferece, simplesmente, passa a descrer nas instituições. O país clama por um banho institucional de bom senso, sem o qual toda a esperança dos rituais de passagem de ano não passará de um transtorno obsessivo compulsivo coletivo, repetido ano após ano, até o fim dos tempos.