MULTIS ANGUES LATET IN HERBA AERARIUM!

(HÁ MUITAS SERPENTES ESCONDIDAS NO GRAMADO DO ERÁRIO)

22/01/2013

lanOs comandantes de nossa economia, no desespero de transformar o pibinho em pibão, estão articulando novas trapalhadas que só irão agravar a falta de coordenação entre poupança e investimento, ou seja, irão bagunçar de vez a estrutura de capital da economia. 

A esse propósito, podemos nos remeter - tal como Machado de Assis em A Mão e a Luva, ao descrever o encontro fortuito entre Estácio e Guiomar nos jardins de uma chácara na bucólica Praia de Botafogo do século XIX - ao poeta Virgílio (Eclogae 3.93): latet anguis in herba” (há uma cobra escondida na grama)! Peçamos desculpas à memória do grande poeta e adaptemos sua frase ao caso brasileiro, escrevendo: multis angues latet in herba aerarium, ou seja, há muitas cobras escondidas no gramado do erário, que é como os romanos chamavam o Tesouro Público. Em termos – digamos - menos literários, isto equivale à afirmativa de que em baixo desse angu tem caroço... Aliás, depois de tantas manobras contorcionistas e malabarísticas de Mantega & Cia para ocultar o verdadeiro estado das contas públicas, a experiência tem mostrado com clareza contundente que os angus desses economistas têm caroços e suas tubas têm gatos entoando a incompetência de seus donos e miando hinos de louvor ao estado onipotente.

 

O mais novo truque – aliás, novo uma pinoia, pois é mais velho do que Matusalém - consiste no que a mídia vem chamando de “nova ofensiva por crédito”, em que o governo cobra dos bancos, em conversas regadas a cafezinho e água mineral com os banqueiros, a ampliação do crédito e vai obrigar o Banco do Brasil e a Caixa Econômica a reduzir os juros de suas operações de empréstimos. Parece um filme de terror, não?

Qui legitis flores et humi nascentia fraga, frigidus, o pueri, fugite hinc, latet anguis in herba! (Eclogae 3.92)! (Ó crianças que colheis flores e morangos que nascem no chão, fugi daqui, há uma fria cobra escondida no capim)... Eles – os homens da Fazenda, mentores do gesto despudorado – pensam, decerto, que banqueiros privados, empresários e demais agentes econômicos são como um bando de crianças a colher inocentemente flores e morangos e incapazes de enxergar as víboras que, escondidas em relvas aparentemente macias e inofensivas, apenas esperam para dar o bote. Esses ofídios bastante venenosos são conhecidos pelos nomes de inflação, desemprego, poupança forçada, efeito concertina, ausência de coordenação na economia, efeito Ricardo, quebra de empresas, desestímulos à atividade empresarial, dívidas. Dúvidas, enfim.

Essa gente não tem mesmo a menor ideia de como os mercados reagirão a tamanho despautério, o que, aliás, é perfeitamente compreensível, pois nem remotamente são capazes de compreender o que vem a ser o processo de mercado... A taxa de juros média para as pessoas físicas era de 6,4% ao mês em janeiro do ano passado, de 6,2% em junho e de 5,6% em novembro, mas a inadimplência, que em janeiro de 2012 era de 5,7%, alcançou em novembro 5,8%, o equivalente a cerca de 30% do spread bancário. O crédito bancário como proporção do PIB cresceu de 49% em janeiro do ano passado para 53% em novembro. Os gênios heterodoxos conseguiram desmontar os três fundamentos macroeconômicos – a saber, os regimes fiscal, monetário e cambial -, sem os quais é impossível sequer sonhar com crescimento sustentado. No bojo de mais essa medida inflacionária, mais uma pajelança primária: para garantir que os gastos públicos (que eles veem como o “motor” do crescimento) aumentem sem romper o “equilíbrio” das contas públicas (que equilíbrio?), os trapalhões de Brasília já pensam em alterar a meta de superávit primário, estabelecida em 3,1% do PIB. E – pasmem! – uma das alternativas que estão estudando é reduzir de maneira oficial a meta para 2% do PIB, ou – pasmem ainda mais! – aumentar os gastos com o PAC que, como se sabe, por conta de sua magia contábil, o governo pode deduzir do superávit primário. Ou seja, gastos com o PAC não são gastos, assim como gatos não são gatos, João não é João, mas Guido... é Guido.

Inflação e desemprego, eis o resultado certo do que estão plantando há algum tempo. A inflação já está aí, basta olhar para a expansão monetária. (Para quem desejar saber a razão dessa firme crença de minha parte, aconselho o artigo de Mark Thornton que o IMB publicou na semana passada, "Onde está a inflação de preços nos EUA?". Troque “Estados Unidos” por “Brasil”, apenas). A inflação não é aquilo que os índices medem; ela é a emissão de moeda e crédito não lastreados em poupança genuína, tal como vem acontecendo nos Estados Unidos, na Europa e no Brasil. Mais cedo ou mais tarde, os índices apenas confirmarão isso. Aliás, isso já está acontecendo, haja vista que nossos mantegueros voltaram às práticas execráveis tão usadas no passado de manipular os índices de inflação, estultice que jamais alguém poderia imaginar que voltasse a ser praticada. 

Com toda a convicção asseguro que, desde os tristes tempos dos cruzadeiros do Sarney, nunca vi equipe econômica tão incompetente, primária e arrogante como a atual! E a presidente, não menos arrogante, berrou na semana passada, cercada por aqueles execráveis bajuladores profissionais: “os pessimistas vão ver que suas previsões para a economia brasileira estão erradas”. Pessimismo, uma ova! É somente boa teoria econômica, minha senhora!

Multis angues latet in herba. Nesta moita há muitas víboras escondidas... Alguém ainda pode ter alguma dúvida?