GIOVANNI REALE E A "SAGGEZZA ANTICA"

24/01/2013

Ubiratan Iorio, Membro del Comitato Scientifico e Senior Fellow del Centro Tocqueville-Acton Italia, com sede em Roma. (Publicado em dezembro de 2008, em português, no site do Istituto Tocqueville Acton da Itália)

Link: http://www.cattolici-liberali.com/pubblicazioni/PublicPolicy/international/2008/GiovanniReale.aspx



realeNão há palavras suficientes para descrever a alegria intelectual e espiritual que me proporcionou a leitura de Saggezza Antica – Terapia per i Mali dell'Uomo d'Oggi, do filósofo italiano Giovanni Reale, publicado pela Loyola, tradução de Silvana Cobucci Leite, com o título "O Saber dos Antigos – Terapia para os Tempos Atuais". Recebi-o em evento realizado em agosto último em São Paulo, coordenado por meu prezado colega e amigo Nivaldo Cordeiro, em que discutimos a importância das obras de Ortega e Gasset e Eric Voegelin para os difíceis dias em que está submerso o nosso mundo. Tratando-se de regalo do Nivaldo, fiz o livro "furar a fila" e passei-o à frente de dezenas de outros que, preguiçosamente, esperam enfileirados na estante do escritório. Para que fui fazer isso? Na metade do livro, comprei mais dois do mesmo autor, Corpo, Alma e Saúde – O Conceito de Homem de Homero a Platão e Il Valore dell'Uomo, este escrito com o Cardeal Angelo Scola e ainda não traduzido para o português, além de encomendar Il Pensiero Occidentale dalle Origine ad Oggi, escrito a quatro mãos (ou a duas, se o fizeram em manuscrito) com o famoso filósofo Dario Antisseri. Com isso, a fila ficou desorganizada, mais parecendo, para minha surpresa, aquelas da Caixa Econômica Federal, do Banco do Brasil, dos hospitais públicos ou do INSS... Dado isto, estou pensando em alocar uma senha de atendimento para cada livro...



A Saggezza é uma crítica muito bem fundamentada ao niilismo de Nietzsche, Heidegger e outros badalados "filósofos" e escritores, corpo de idéias apontado por Reale como "a raiz de todos os males que atingem o homem de hoje", cuja erradicação requer um tratamento enérgico, que consiste em anulá-lo por meio da recuperação de ideais e de valores supremos, bem como a derrocada do ateísmo e do "assassinato de Deus", de que Nietzsche sempre fez questão de se vangloriar. Reale sugere, com formidável erudição, que parcela considerável dessa terapia pode ser encontrada na sabedoria grega, que conhece profundamente, especialmente em Platão e Aristóteles.

E mostra com clareza cristalina que a ideologia não passa de uma forma de fé imanente, abraçada automaticamente por milhões de homens (o "homem-massa" de Gasset) na crença cega de que seja fé em coisas verdadeiras (o que Voegelin chamava de "Segunda Realidade"); adotada por outros mediante simulação, em que se finge acreditar em sua realidade; e utilizada pelos ideólogos para levar multidões de incautos sem qualquer capacidade de percepção da realidade – a "Primeira Realidade" de Voegelin - a acreditarem que seja verdadeiro aquilo que eles incitam a crer, quer eles próprios acreditem naquilo, quer não. Como aparece nos "Fragmentos Póstumos" de Nietzsche, "é necessário que algo seja considerado verdadeiro; não que algo seja verdadeiro"... Coisa digna de farsantes da pior espécie.

A afirmativa de que "Deus está morto" é, para o filósofo italiano, o emblema do niilismo, significando que o mundo meta-sensível ou metafísico dos ideais e dos valores supremos, concebido como um ser e como uma realidade em si, como causa e como fim, como aquilo que dá sentido a todas as coisas materiais e à vida humana, perdeu toda a consistência e toda a importância.

É naturalmente impossível resumir em um pequeno artigo toda a argumentação de Reale, mas vale reproduzir os dez itens, aos quais dedica dez capítulos que são o cerne do livro e que, para ele, enfeixam os males modernos e os disfarces niilistas dos valores perdidos, que os vêm levando ao esquecimento:

  • o cientificismo e o redimensionamento da razão do homem em sentido tecnológico;
  • a absolutização do ideologismo e a rejeição do ideal do verdadeiro;
  • o praxismo, mediante sua exaltação da ação pela ação, em detrimento do ideal da contemplação;
  • a identificação do bem-estar material como sinônimo da felicidade;
  • a difusão da violência;
  • a perda do sentido da forma e a distorção da estética;
  • a redução do Eros à sua mera dimensão física, com o esquecimento da "escala de amor" platônica e a deturpação do verdadeiro amor;
  • a redução do homem a uma única dimensão e a exacerbação do individualismo;
  • a perda do sentido do cosmos e do fim último de todas as coisas;
  • o materialismo em todas as suas formas e o conseqüente esquecimento do ser.



saggPara curar esses terríveis males do espírito, Reale recorre à sabedoria – saggezza – dos antigos, que pode proporcionar uma série de remédios que, se não eliminam todos os males, podem, na pior das hipóteses, mitigá-los, impondo-se como pólo dialético e, portanto, como imprescindível termo de comparação na árdua tarefa de reconduzir o homem moderno à sua dignidade esquecida.

Em suma, o homem de hoje tenta a todo o custo eliminar o passado, em nome de pretensos "avanços e progressos", mas essa forma de tentar projetar-se no futuro é irracional, porque termina aniquilando o próprio futuro, exatamente porque o desprovê de um necessário passado que lhe sirva de termo de referência. Como observa Reale, não é extirpando as raízes de uma planta que se joga fora eventuais galhos que apodreceram com o tempo. O amanhã não pode existir sem o hoje e este não pode ser real sem o ontem!

Recomendo com todas as estrelas possíveis a leitura de O Saber dos Antigos, bem como de toda a obra de Giovanni Reale, um filósofo com F maiúsculo e com H também maiúsculo de homem, no sentido de que assume a condição e a dignidade humanas em sua integridade.

Precisamos combater o niilismo com todas nossas forças, para a nossa própria felicidade, aquela que só é compatível com a Primeira Realidade.