ASNO DE MUCHOS LOS LOBOS LO COMEN

25/01/2013

asnoOs bens que pertencem a mais de um proprietário terminam sendo descuidados, porque cada um de seus donos acredita que sempre algum outro fará o que tiver que fazer para cuidar do bem. Isso não é uma invenção, é uma constatação prática, inerente à própria condição humana.

Foi essa verdade que levou Juan de Mariana (1536-1624), jesuíta escolástico da Escola de Salamanca e talvez o principal entre os protoaustríacos a escrever a célebre frase “Quando un asno es de muchos, los lobos se lo comen”. Mariana foi um grande defensor da propriedade privada, que via como um elemento essencial para o desenvolvimento das atividades comerciais. Chegou a escrever também que se a propriedade das terras fosse comum, elas seriam mal administradas e que os mais poderosos ou fortes explorariam os mais pobres ou fracos. Com meio milênio de antecedência, foi um crítico dos sem terra.

É impressionante como, utilizando uma frase com apenas sete palavras, mas que contém enorme sabedoria sobre a maneira como se comportam os seres humanos, ele demoliu todas as teorias socialistas e redistributivistas. E é impressionante, também, como, quinhentos anos depois, muitos ainda não compreenderam as suas lições! Hollande, presidente francês, é um destes, para não citarmos exemplos domésticos e da América Latina.

Mariana – que dá nome ao Instituto Juan de Mariana (http://www.juandemariana.org/), fundado em 2005 e com sede em Madri um dos melhores centros de irradiação do pensamento liberal da atualidade -, em seu livro “De rege et regis institution” (Sobre o rei e a instituição real), publicado em 1598, observou que “qualquer cidadão pode com justiça assassinar um rei que imponha impostos sem o consentimento do povo, apreenda a propriedade dos indivíduos e a desperdice, ou impeça a existência de um parlamento democrático”. Evidentemente, o rei de Espanha não deve ter gostado nada de saber disso... E notemos que era um religioso!

marianaMas ele foi mais longe: deduziu que o rei não pode cobrar impostos sem o consentimento da população, já que impostos nada mais são do que apropriações de parte da riqueza de um indivíduo pelo estado. Para que tal apropriação fosse considerada legítima, ambas as partes teriam que estar de acordo.

Foi também um atroz inimigo das práticas inflacionistas, no mesmo livro acima citado, criticando  a adulteração e a manipulação pelo estado do valor de mercado da moeda: "Somente um tolo iria tentar separar esses valores de tal maneira que o preço legítimo tivesse que diferir do preço natural. Insensato, mais ainda, perverso é o soberano que ordena que algo que as pessoas comuns valoram em, digamos, cinco deva ser vendido a dez. Os homens são guiados nessa questão pela estimativa comum encontrada nas considerações sobre a qualidade das coisas, e pela sua abundância e escassez. Seria inútil para um Príncipe tentar solapar esses princípios de comércio. É muito melhor deixá-los intactos ao invés de atacá-los a força em detrimento do povo".

Foi em verdadeiro campeão da liberdade, escrevendo, sempre mencionando e explicando porque tais práticas violam a ordem natural dos mercados, sobre: os controles de preços, a impossibilidade de governos organizarem a sociedade em ordens coercivas e as intervenções dos governos nos mercados.

É impressionante como há tantos anos já existiam homens que, mesmo sem serem "doutores em economia", já enxergavam  o mundo real dos mercados com muito mais propriedade e realismo do que a maioria dos doutores da atualidade. O único tipo de crítica que estes podem lhe dirigir é que "o mundo mudou muito" ou "sua análise é simplista demais", ambas improcedentes, porque, primeiro, o mundo realmente mudou bastante, mas as leis que regem a ação humana sempre foram e serão as mesmas, tão bem retratadas por Mariana e segundo, porque as grandes verdades são mesmo simples, para desespero dos falsos doutores.

Juan de Mariana, um grande precursor! A ele, meu respeito e minha singela homenagem.