DO ENTRUDO AO “VALE-TUDO”

02/02/2013

Este artigo, com pequenas modificações,  foi publicado em 4 de fevereiro de 2008 na coluna que eu mantinha no extinto Jornal do Brasil.

entrNestes dias que antecedem o carnaval, a mais popular de nossas festas, falar de economia e de política não vale. É aconselhável dar um tempo, até para refrescar a cabeça. O melhor a fazer nesta época do ano é nos isolarmos dessa festa que já teve seus tempos de uma alegria ingênua, desmaliciosa e até inocente, nos desfiles de corsos, ranchos e nos préstitos das grandes sociedades carnavalescas, nos bons tempos de nossos pais e avós. Acho interessante nesta semana fazer algumas reflexões sobre como o carnaval vem evolvendo, desde meados do século XIX até os nossos dias, no Rio de Janeiro. Afinal, o chamado “tríduo momesco” faz parte da nossa cultura e, portanto, reflete os valores, hábitos, usos, tradições e costumes de cada época. O carnaval é uma ordem espontânea, portanto, e, como sempre acontece quando o estado mete seu impertinente, contraproducente, incoerente e incompetente bedelho em uma ordem espontânea, ele inevitavelmente a descaracteriza e quanto mais tenta controlar a coisa, mais ela se afasta de suas origens. 

 

zepereiO antecedente do carnaval carioca foi o entrudo, na primeira metade do século XIX, em que limões de cheiro e seringas de folha de flandres com água às vezes mal cheirosa eram usados para molhar outros foliões, ao lado de farinha de trigo, pó de sapateiro e piche para sujá-los. Era uma brincadeira algumas vezes violenta e sem música própria, animada por vaias e gritarias, até ser proibida no ano de 1853, por determinação do chefe de polícia. O carnaval carioca propriamente dito começou a delinear-se em 1852, quando o português José Nogueira de Azevedo Paredes foi para as ruas comandando um grupo de tocadores de bumbos, aos gritos de zé pereira, inaugurando a característica, que se mantém até hoje, de se usar instrumentos.de percussão para animar a festa. Curioso, não? A maior festa popular brasileira teve origens nas brincadeiras de um alegre - e, podemos imaginar, bonachão - português, daqueles que na época usavam bigodões e calçavam os indefectíveis tamancos...Esta é apenas uma das boas heranças que nossos descobridores nos deixaram, entre tantas outras.

chiqA primeira música efetivamente feita para o carnaval foi o famoso Ô Abre Alas, composto em 1899, pela famosa e talentosa maestrina Chiquinha Gonzaga que, morando no Andaraí e observando o ensaio do cordão Rosa de Ouro, sentou-se ao piano e criou aquela célebre marcha rancho, hoje um clássico da nossa música popular. A partir dali, ganhava o carnaval sons próprios e, do início até meados do século passado - o período de ouro da festa -, centenas de marchas e sambas, frevos e ranchos, de excelente qualidade, eram compostos todos os anos, especialmente para os festejos, em memoráveis concursos que revelaram verdadeiros gênios do gênero, como o maior de todos, Lamartine Babo, autor das letras e músicas dos hinos de todos os clubes de futebol cariocas (com exceção da marcha do Fluminense, cuja letra ele escreveu, mas cuja música foi composta pelo maestro Lyrio Panicalli). Tivemos também o grande Braguinha e o pernambucano Capiba, cujas marchinhas e frevos transformaram-se em inquestionáveis patrimônios populares. Havia os préstitos das grandes sociedades, os ranchos e as primeiras escolas de samba que desciam ao asfalto – ou melhor, ao paralelepípedo – e, também, os corsos de automóveis conversíveis, os cordões, os bondes e os bailes de clubes, realizados com muita alegria, mas em ambiente de respeito. A maioria dos foliões brincava pela justa alegria de cantar e dançar, já que – como diria o ex-boxeador Maguila -, as “saliências” ficavam para os outros 362 dias do ano... Bebiam-se alguns chopes na antiga Galeria Cruzeiro e pronto, todos à folia!

lalaDaquele carnaval, hoje, "agora é cinzas e nada mais". Desapareceram os préstitos e os ranchos, feneceram os corsos, silenciaram os clubes, sumiram o pierrô, a colombina e o arlequim, levando com eles o confete, a serpentina e o lança-perfume, escassearam os mascarados. Perdeu-se, enfim, a espontaneidade, exatamente a marca maior do carnaval. As escolas de samba, após a criação do Sambódromo e a excessiva regulamentação do desfile - o estado sempre estragando tudo em que se intromete! -, transformaram-se em holofotes para famosos e oportunistas; os sambas, sufocados pelo tempo exigido para o desfile, aceleraram-se – em breve chegarão ao prestíssimo! - e distanciaram-se, para pior, de suas raízes; vieram os “carnavalescos” das escolas, as “rainhas de bateria”, os carros alegóricos luxuosíssimos, o monopólio nefando da transmissão do evento, os terríveis “jurados” que atribuem notas com a precisão de uma casa decimal, a natural suspeita de corrupção e a espontaneidade – fora alguns blocos e bandas de bairros - foi passar os carnavais longe do Rio. Ao povo sem dinheiro e binóculos, o óbolo da pista da Presidente Vargas que leva para a Praça da Bandeira, que fica bem distante do evento...

Se no começo foi o entrudo, hoje o carnaval é um autêntico vale-tudo, em que a música é o sexo, com a harmonia do eros, a melodia  do sensual e o ritmo do pornô... Luxúria, nudez, lascívia, lubricidade, concupiscência, mulheres apresentando-se em público tal como vieram ao mundo... Incentiva-se tanto nesta época o erotismo que muitos milhões de reais de recursos públicos de ministérios e secretarias que poderiam melhorar o calamitoso estado da saúde são gastos na distribuição de também muitos milhões de preservativos, enquanto também muitos milhões de pobres coitados perambulam em hospitais públicos ou são forçados a permanecerem longas horas em filas, à espera de um agendamento para um futuro atendimento precário. É o estado acolhendo – e infelizmente, até estimulando - a libertinagem e é a sociedade aceitando que, já que os valores morais se degradaram tanto, é melhor aceitar esse fato e cair na gandaia do que investir em uma reeducação moral. O carnaval, tal como a sociedade de que é um reflexo, está doente, de cabeça, corpo, mente e espírito!

O melhor que podemos fazer é nos distanciarmos dele.