VENDER NÃO É “MELHOR” NEM “PIOR” DO QUE COMPRAR!

04/02/2013

testO Instituto Mises Brasil postou hoje um artigo bastante esclarecedor de Gary North, em que o ex-membro adjunto do Mises Institute  e autor de vários livros sobre economia, ética e história desmonta com clareza didática irrepreensível o mito de que “exportar é bom e importar é ruim para o pais”. A meu ver, é uma leitura obrigatória, porque essa lenda – que remonta ao mercantilismo – tornou-se, nas palavras do próprio North, “senso comum reinante entre os economistas convencionais, a mídia e os leigos”. Pensam que “um país estará em melhor situação se ele exportar mais bens e serviços do que ele importa.  A crença dominante é a de que, se um país é um exportador líquido, então este país é uma verdadeira usina de prosperidade”.

Não vou me alongar no assunto, porque acredito que no artigo ele explica muito bem o quão equivocada é essa ideia. Vou me limitar apenas a acrescentar dois argumentos adicionais para corroborar North.

 

O primeiro deriva de uma lição legada por Adam Smith, a de que o que é válido para um indivíduo ou para uma empresa também é válido para a economia. Deixem-me tentar explicar melhor: quando acontece uma troca entre dois indivíduos, por exemplo, quando Francesco vende seu carro usado para Claudineide, esta pagará o valor acertado voluntariamente entre os dois, aquele o receberá, o estado dará a sua mordida habitual e – isso é o relevante! – ambos, Francesco e Claudineide, sairão felizes, porque acharão naquele momento que a ação humana que acertaram praticar foi a melhor para eles. Assim, comprar o carro foi bom para ela e vender o mesmo carro foi bom para ele.

Da mesma forma, quando a empresa Confeitaria Moreira compra de sua fornecedora Farinha de Trigo Esperança o insumo essencial para fabricar pães, os gerentes de ambas também se sentirão satisfeitos, o da primeira por ter comprado farinha e o da segunda por ter vendido farinha. Portanto, comprar foi bom para a padaria e vender foi bom para a fornecedora de farinha.

trocaNinguém, a rigor, pode discordar do que acabo de escrever. Só que, quando se trata de analisar a economia de países, baixa como que um pensamento sinistro, herdado do mercantilismo barato, o de que “vender” enriquece o país, enquanto “comprar” empobrece os seus habitantes. Em outras palavras, “exportar é bom e importar é ruim”. Para não repetir Gary Norh em seu artigo, suponhamos agora que Francesco fosse um italiano residente em Turim e a Confeitaria Moreira fosse um famoso estabelecimento na cidade do Porto, em Portugal e que Claudineide e a Farinha de Trigo Esperança sejam ambas brasileiras, com residência aqui no Brasil. Agora faço apenas duas perguntas: o que é ser melhor ou pior “para o país”? Por que seriam, respectivamente, “más” para o “Brasil” e para “Portugal” as compras de Claudineide e da Confeitaria Silva e por que seriam “boas” para a “Itália” e para o “Brasil”, respectivamente, as vendas de Francesco e da Farinha de Trigo Esperança? Ora, o conceito de “país” é uma ilusão de ótica! O que importa são as trocas realizadas entre indivíduos, entre empresas e entre indivíduos e empresas, residentes ou não no espaço geográfico e político em questão. Um país, ou uma economia, pode ser visto como a soma de seus agentes, mas quem age, quem compra, vende, empresta, toma emprestado, etc., não são países, são indivíduos e empresas!

O segundo argumento é que essa ideia estapafúrdia de que “exportar é bom” e “importar é ruim” é mais um subproduto perverso da macroeconomia, especialmente do keynesianismo, doutrina que nasceu afirmando que as crises econômicas e o desemprego devem ser combatidos mediante aumentos na demanda agregada, outro conceito irrelevante no mundo real. Ora, como na Contabilidade Nacional as exportações fazem parte da demanda (externa) e as importações da oferta (doméstica) o senso comum acaba identificando as primeiras como boas para todos nós, quando na verdade, como mostra Norh, elas beneficiam o setor exportador, em detrimento de todos os demais, inclusive consumidores.

Fernando Pessoa, em Ulisses, escreveu: "O mito é o nada que é tudo./ O mesmo sol que abre os céus/ É um mito brilhante e mudo - / O corpo morto de Deus,/ Vivo e desnudo." Não resisto ao impulso de parodiar o grande poeta português, transplantando suas belas palavras do sagrado para o profano da economia: quando se acredita que exportações são boas e importações são ruins para o país, o mito é o tudo que é nada.