COMO O ESTADO E UM MONOPÓLIO PRIVADO DESTRUIRAM O SAMBA-ENREDO

06/02/2013

test3Você pode não concordar com minha opinião, mas devo dizer antes duas coisas: primeiro, que é a de um músico e não a de um artista plástico, ou de um diretor de TV, ou de um prefeito, ou de um secretário de turismo, ou de um turista, ou de um empresário dessa área, ou de um gerente de hotel. Tendo um piano sempre à frente e música em minha volta desde que fui gerado e sendo época de Carnaval, vou comentar um fato que vem me incomodando há alguns anos: a deterioração melódica, harmônica e rítmica, bastante perceptível, dos sambas-enredo das escolas cariocas e, por motivos óbvios, as de São Paulo e dos outros estados. A segunda coisa que devo mencionar é que há muito tempo deixei de assistir aos desfiles e ao Carnaval, que  substituí por temporadas na praia, filmes e outros afazeres mais interessantes. Dito isso, vamos à pergunta que não quer calar:  em quem colocar a culpa pela progressiva transformação dos sambas-enredo quase que em marchas?

A meu ver a queda na qualidade do samba-enredo tem dois culpados: o estado e o monopólio de transmissão do desfile. Eis uma combinação letal: estado e monopólios! E, na maioria das vezes, os segundos são consequência do primeiro.

 

Os desfiles das escolas de samba começaram a perder sua naturalidade e a se afastar de suas raízes a partir do momento em que a secretaria de turismo da cidade meteu o seu bedelho para controlar o espetáculo, que anteriormente estava sujeito apenas à Liga das Escolas de Samba. E onde o estado mete a mão, sempre e em qualquer lugar, ele só causa estragos. O espetáculo, antes, era transmitido por todas as emissoras de TV (não havia ainda TV a cabo), o que gerava competição entre elas, o que é sempre saudável: as que fizessem melhores transmissões ganhavam público. Simples assim.

test4Quando Brizola e seu populismo paleolítico, em seu primeiro mandato como governador, no início dos anos 80, resolveu construir o Sambódromo, a transformação do samba-enredo para pior foi forçada a acontecer, porque as alterações, especialmente nos critérios de cronometragem dos desfiles, tornaram-nos cada vez mais parecidos com competições de atletismo (100 metros rasos) ou de Fórmula 1. Os chamados puxadores de samba, dos quais o melhor e mais famoso foi sem dúvida Jamelão da Mangueira (na foto à direita), atualmente se esgoelam de tanto berrar, no que são auxiliados por puxadores auxiliares, porque cantar em ritmo acelerado, acreditem, cansa. E os compositores dos sambas viram-se obrigados a acelerar os seus andamentos, para que suas escolas não fossem prejudicadas. Agora, as novas gerações de compositores provavelmente já não sabem compor com a qualidade genuína das gerações anteriores. E a coisa tende a piorar com o tempo.

Depois, tudo degringolou de vez quando uma emissora de TV passou a monopolizar o desfile, obrigando-o paulatinamente a atender a seus “padrões de qualidade” que, em termos musicais, sempre foram sofríveis  e de péssimo gosto para qualquer pessoa que tenha alguma sensibilidade para a boa música, bem como a impor às escolas os seus critérios comerciais e éticos (sic).

test2Então tivemos uma combinação fatal, como já disse: de um lado, a imposição de regras e mais regras aos desfiles, em clara interferência externa na ordem espontânea por parte do estado, descaracterizando-a; e de outro o monopólio da TV, que transformou um evento antes autêntico em um show business de cores, luzes, artistas plásticos e de novelas, “madrinhas de bateria”, nudez, sexo, “carnavalescos”, devassidão, luxúria e hedonismo, que fulminou os antigos bailes dos clubes e os tradicionais sambas e marchinhas (de que Lamartine e Braguinha foram as maiores expressões), distanciando-o cada vez mais da sua origem genuinamente negra e da sua pureza musical sadia. Houve também como consequência desse monopólio uma invasão crescente de gente que jamais participou de uma roda de samba genuína ou subiu em uma favela ou mesmo frequentou um botequim de um subúrbio carioca para tomar uma cerveja e ouvir um samba, sentado em uma das cadeiras de um círculo em redor de uma mesinha e as escolhas dos “jurados” passaram a ter critérios e sistemas de pontuação esdrúxulos e duvidosos.

Os enredos das escolas, em algumas épocas, já mostraram elementos políticos, especialmente no período do estado novo de Getulio e no início dos anos 70, mas esse fenômeno atingiu o seu ápice em 2006, quando o ditador da Venezuela financiou a Vila Isabel para enaltecer Simon Bolívar - e a Vila venceu o desfile, digamos, de maneira polêmica...

Mas, como nem tudo não são flores, vejo um aspecto positivo em toda essa história, que podemos chamar de globalização dos enredos, que deixaram de se limitar a exaltar nossas cachoeiras, matas e cascatas para homenagear também outras culturas de todo o mundo.

O samba – e a música, em geral - é uma ordem espontânea, ou seja, um fenômeno que, embora gerado pela ação humana, não é fruto de planejamento deliberado e, portanto, evolve naturalmente ao longo do tempo, tal como a linguagem. Certamente, interferências do estado descaracterizam essa ordem espontânea. E monopólios, sob as bênçãos do estado (porque há muitos milhões de reais envolvidos) tendem a agravar a descaracterização.  E foi o que aconteceu e continua acontecendo.

teste1A Deixa Falar, do bairro do Estácio (na foto), que na verdade era um bloco, foi a rigor a primeira escola de samba, já que seus componentes cantavam, ensinavam e difundiam o samba. Mas os primeiros sambas-enredo remontam a 1933, na Unidos da Tijuca e na Mangueira (com um samba composto pelo famoso Carlos “Cachaça”), com letras de temática patriótica, exaltando as belezas e riquezas do Brasil, característica dos desfiles até os anos 70. No início, as músicas não possuíam segunda parte, que era improvisada durante os desfiles, a exemplo do que ainda fazem os geniais repentistas nordestinos. Com a imposição dessa segunda parte, não improvisada – mais um exemplo de desrespeito à ordem espontânea -, os sambistas passaram a pesquisar em livros para comporem longas letras sobre os mais variados temas dos quais jamais tinham ouvido sequer falar, prática que Sérgio Porto – o famoso Stanislaw Ponte Preta -, com sua irreverência, glosou em um famoso samba, que hoje talvez chamasse, para ser “politicamente correto”, de “Samba do Afrodescendente Doido”...

test5As linhas melódicas até os anos 60 eram em geral ricas, frequentemente com modulações alternadas em tons maiores e menores e estruturadas sobre um andamento moderato, com riqueza harmônica (vários acordes), em contraposição aos sambas-enredo atuais, cada vez mais ligeiros – qualquer dia, Ferraris, Williams e McLarens substituirão os carros alegóricos, em empolgantes corridas de semifusas - e paupérrimos de melodia e harmonia (três ou quatro acordes são considerados como mais do que suficientes, “para não complicar”). E ai da escola que tentar levar para o Sambódromo um samba rico em harmonia e melodia - e sem aqueles ahs, obas e uhs repetidos -, porque os jurados a penalizarão, já que as letras foram se tornando cada vez mais simples, formadas por colagens, justaposições de palavras e recursos abusivos a refrões, para tentar empolgar a plateia, formada em sua maioria por turistas e pessoas sem qualquer ligação com as raízes do processo espontâneo de criação! Malgrado seu esplendor, os desfiles na Sapucaí transformaram-se em correrias loucas contra o tempo, prejudicando, pela velocidade e compactação exigidas, a qualidade das letras e os três elementos essenciais da arte musical - melodia, harmonia e ritmo. Podem ter crescido como espetáculo, mas perderam em qualidade musical.

O samba-enredo pede socorro, depois das marchinhas e sambas carnavalescos que ele próprio, por uma ironia, ajudou a destruir, a partir dos anos 70. Para salvá-lo, bem como as marchinhas e sambas de carnaval, seria preciso deixar refluir a espontaneidade, tal como os blocos carnavalescos vêm fazendo, resgatando uma tradição. Mas a mão pesada do estado já viu isso e está impondo a cada ano mais regulamentações até a esses desfiles de blocos.

Talvez chegue o dia em que, para fugir da “mão boba” e destruidora do estado, os foliões se vejam forçados a brincar apenas dentro de suas casas. Assim mesmo, com as portas fechadas. Senão o estado pode entrar e sentar no sofá da sala.