E AÍ, YOANI?

26/02/2013

yoaniUma blogueira visitou o Brasil, fato que poderíamos considerar como corriqueiro, habitual, banal e trivial. Mas sua simples presença aqui causou tanta celeuma, mostrou tanta intolerância, movimentou um aparato midiático tal que temos que nos perguntar o por quê disso tudo. A resposta é simples: ela é cubana, ou seja, nasceu e vive em um país dominado por uma ditadura comunista há mais de cinco décadas e veio para outro país governado há dez anos por gente que, embora jurando amor à democracia, nunca deixou de mostrar admiração patológica pelo regime que predomina na ilha-presídio, propriedade dos irmãos Castro, que fazem seu povo passar por duras agruras sem darem a mínima para o crime moral pelo qual são responsáveis.

Yoani, para postar em seu blog que ganhou notoriedade em todo o mundo precisa gastar - segundo disse na TV - seis dólares por mês, o equivalente à terça parte de seu salário, que é o preço cobrado por uma lan house, já que a internet no país miserável em que vive é precaríssima. Assim, ela escreve off line em seu computador e é obrigada a ir à loja (uma vez por mês, acredito) para postar em sua página.

Não quero aqui bater na tecla dos horrores do regime que tanto mal vem fazendo ao povo cubano pelos ditadores que o dominam e o mantêm dominado a todo o custo, inclusive o da própria vida dos que se atrevem a falar mal do governo. Não preciso falar por uma simples razão: meus leitores são inteligentes e já sabem tudo ou quase tudo o que eu poderia escrever. Desejo apenas frisar três pontos. Os dois primeiros são apenas interrogações especulativas, que ouvi aqui e ali; o terceiro, não.

O primeiro é sobre a própria Yoani, mulher que sem dúvida aparenta grande coragem. Mas o que sabemos dela, além do fato de manter um blog em que critica o regime político de seu país? O que levou o déspota Raúl Castro, depois de lhe negar sistematicamente o visto para sair de Cuba, a autorizar a “dissidente” a deixar o país? Quem bancou sua excursão, que não é limitada ao Brasil? E – o que acho mais importante em tudo isto -, o que ela pensa realmente do socialismo? Será uma libertária ou, pelo menos, uma social-democrata e, logo, anti-libertária? Acredita ainda no socialismo e crê que a miséria em que vive seu povo pode de fato ser atribuída a um embargo que, na prática, já não existe há bastante tempo? Finalmente, uma pergunta-bomba, que ouvi e não posso deixar de reproduzir: não estaria sendo usada pelo regime cubano como um sinal, um código (mentiroso, pelo que conhecemos dos Castro e seus asseclas), para passar a mensagem de que “se os Estados Unidos abolirem oficialmente o embargo, nós iremos acelerar as reformas no regime de servidão a que submetemos os cubanos comuns”? Se a resposta a esta última pergunta for sim, será um tiro no próprio pé dado por Raúl, porque com o fim oficial do embargo já não poderá mais explicar o estado de penúria de seu país com discursos retóricos. Confesso que não tenho opinião formada sobre essas questões, por isso as lanço apenas para reflexão. Daí, pergunto: e aí, Yoani?

O segundo ponto é menos polêmico, mas nem tanto. Tudo nos leva a crer que houve mesmo a tal reunião na embaixada de Cuba com os pit bulls do PT e do PCdoB, com a participação de pessoas ligadas ao nosso governo. Do ponto de vista dos cidadãos brasileiros, é claro que isso é uma afronta à democracia que deveria, no mínimo, ser questionada e – acrescento - punida. Mas não seriam esse encontro espúrio e a autorização para que ela pudesse deixar seu país partes de uma estratégia de Raúl para fazer crer ao mundo que seu regime é “tolerante” com dissidentes e que o fato de ela ter sido recebida com protestos mostraria ao mundo que nem tudo vai indo tão mal assim na ilha?  Novamente, convido você a pensar. Apenas estou repassando o que ouvi e li. E aí, Yoani?

gralhasO terceiro e último ponto não é polêmico nem especulativo, mas conclusivo: ainda existem no país, em pleno ano de 2013, pessoas que defendem o despotismo incrustrado em Cuba como cada um de nós defenderia a mãe, a mulher e um filho! Indivíduos que vão para um aeroporto, em um horário em que todos estão trabalhando, bater um bumbo e gritar palavras de ordens rupestres e confundem berros ensaiados e refrões surrados com argumentos, definitivamente não querem ouvir argumentos; e, se forem remunerados para isso, podemos qualificá-los também como pessoas completamente desprovidas de valores morais!

Nesse sentido, apesar de todas as minhas dúvidas, a viagem da moça ao Brasil serviu para mostrar a todos os que sabem observar, refletir e externar opinião própria que a imensa – eu diria, a quase totalidade dos brasileiros, apesar de todos os defeitos – repudia ditaduras e tiranias e que nosso governo insiste em bajular ditadores e déspotas, desde que sejam de esquerda. Nesse sentido, muito obrigado, Yoani, você deve ter despertado as consciências de muitas pessoas por aqui. Pelo menos é o que espero.

Você ontem viajou para Paris e depois visitará Praga. Na França, governada por um socialista, encontrará democracia, mas um povo que sempre manifestou simpatia pelo refrão Jean est pauvre, parce que Paul est riche, o que me leva a crer que pouco terá a aprender na cidade luz. Minhas esperanças estão em Praga, porque os tchecos, depois de terem passado décadas sob o impiedoso tacão soviético, conheceram as liberdades individuais e dificilmente permitirão que as tomem novamente, pois, entre outros fenômenos, na República Tcheca as universidades ensinam a obra de Mises e dos austríacos.

Resumindo: no Brasil, você deve ter percebido que há uma minoria da mesma laia daqueles que governam o seu país (incluindo nosso governo), mas que ainda há liberdade de expressão; em Paris, provavelmente vão tentar convencê-la de que um socialismo light, um troisième trajet, é a solução para ele; mas em Praga, você terá a oportunidade de ver de perto os benefícios econômicos, políticos e morais proporcionados pelo abandono de um regime comunista totalitário.

Tomara que você aprenda o valor da liberdade  – que não se limita a fins de embargos – com os tchecos! E aí, Yoani ?