UMA DEFESA LIBERTÁRIA DOS PRECONCEITOS (DANIELA SILVA)

11/03/2013

[Daniela Silva, portuguesa, é mestranda na Universidade de Aveiro, sendo seus orientadores os distintos professores austríacos André Azevedo Alves e José Manuel Moreira. Este artigo foi publicado em ML – Movimento Libertário, http://movimentolibertario.net/?p=619 , em 10/03/2013]

 

defesa«Ao repudiar os ritos, o homem se reduz a animal que copula e come.»   

(Nicolás Gómez Dávila)

 

«Se estamos interessados em alargar o raio de influência dos princípios libertários – numa sociedade, académica e mediaticamente, presa e fustigada pela propaganda emitida pelo sistema – convém, de vez em quando, ir averiguar, humildemente, se algum fracasso ou estagnação da nossa empreitada deriva da nossa própria irresponsabilidade. Ou seja, perceber se há alguma fraqueza a emperrar o avanço e reconhecer que podem existir barreiras criadas por nós próprios e que retraem a aproximação de potenciais simpatizantes. Pior ainda do que retrair, é a nossa acção poder estar a ser um contributo activo na boca dos opositores que tiverem o propósito de desacreditar, denegrir e frustrar as nossas propostas.

 

É desnecessário referir aqui uma lista de razões objectivas já conhecidas (a nível das soluções apontadas na área da saúde, educação, defesa, pensões, etc…) e que justificam as incompatibilidades inultrapassáveis. Como não estamos no domínio político-partidário, não regateamos cedências para gerir apoios. Pois bem, se não queremos adulterar a nossa alternativa, transformando-a numa coisa híbrida esquisita, o que é que está a falhar e que é inadmissível? Por experiência própria, reconheço que o que impede o acolhimento de ideias libertárias entre um determinado grupo de pessoas é a atitude de “idiota-útil” protagonizada por muitos “progressistas” que se apresentam orgulhosamente desmiolados – e ninguém lhes encomendou serviço – no campo da moralidade, arrastando consigo a generalização de um retrato deturpado. Alguns entusiastas (supostamente libertários) que pululam por aí, incansáveis na exploração das questões fracturantes, parecem ter encontrado o pretexto perfeito para assumirem comportamento de “bar aberto”. 

A má notícia para estas pessoas é que existe uma diferença crucial entre o que é denunciar práticas mafiosas entroncadas no governo e o assumir que as mesmas práticas, quando apoderadas e promovidas por particulares, passam a usufruir de um prestígio irrepreensível no domínio social. Talvez optem por tomar esta atitude para tentarem um apelo simpático entre amigos que são resistentes em matérias económicas mas até identificam alguma cumplicidade nestes assuntos: “Querem responsabilizar-nos na hora de pagar pelos serviços usufruídos mas até fumam umas coisas bacanas e promovem a profissão mais antiga do mundo; se avançam com o casamento entre pessoas do mesmo sexo, venha daí a privatização da energia e o auto-financiamento do ensino”.

O que estes novatos “progressistas” não notaram ainda é que existe uma irónica coincidência entre a sua agenda e a agenda dos actuais governos. Basta reparar no exemplo mais óbvio a que assistimos presentemente: a conivência, meio desorientada e sem palavras, diante a liberalização do aborto. Sendo um assunto complexo que mereceria um outro texto, dedicado somente a ele, a verdade é que ele cria uma divisão entre libertários, deixando os apoiantes da prática num beco em que acabam por congratular-se com a vitória democrática a seu favor. De certa forma, nem são contra o Estado pois o fervor acalmaria assim que a legislação passasse a aceitar, financiar e promover estilos de vida que lhes agradam; daí em diante, concretizado o progresso de abertura de mentalidades e de libertinagem, não existiriam razões de queixa. A respeito disto, recorde-se a recente indignação de tantas pessoas, nomeadamente libertários, que ridicularizaram da petição “Defender o Futuro”, em defesa dos valores da família. A gravidade a realçar nem se prende tanto com a participação mais ou menos ineficaz (até porque incorre-se no mesmo aproveitamento coercitivo da lei) mas sim em observar que a sociedade recolhe-se debaixo da legislação aprovada e perdeu toda a vitalidade para agir por outros meios, numa acção de proximidade e com capacidade para divergir, “remar contra a maré” e combater aquilo que considera ter efeitos perniciosos.

Projectos libertários que rejeitem uma ligação aos conselhos da experiência, calejada pela acção humana da vida em comunidade, conseguem ser mais afligíeis e desconfortáveis que umas calças de ganga novas, engomadas com vinco ao meio. É uma descaracterização total, um empreendimento inútil dirigido por pessoas que não querem saber de onde vêm nem para onde vão. Parecem dispostos a esvaziar a sociedade, desvitalizá-la, para voltar a enchê-la, ao típico jeito demolidor da politização totalitária.

Existem pessoas (os tais, potenciais aliados que ficam pelo caminho) que mantêm uma ideia incorrecta acerca dos princípios em que assenta o libertarianismo porque não encontram um único exemplar libertário, uma única criatura que dê a cara pela defesa da família tradicional como unidade fundamental da sociedade, que rejeite o aborto com frontalidade, que não aceite a descaracterização do casamento por artimanha legislativa, que condene a promiscuidade das relações sexuais e censure socialmente o consumo de drogas. Estas e outras tomadas de posição são possíveis e desejáveis, já que não é suposto existir uma estandardização de opiniões em favor de um admirável futuro novo; um futuro onde desapareça a noção de altamente imoral ou em que seja impossível insultar comportamentos de terceiros.

Parecem idealizar um indivíduo despido de preconceitos e da herança de séculos que o conduzem a ajuizar, ostracizar, recomendar, elogiar, repreender… Parece que foram filtrar apoiantes do mercado livre a Woodstock e os incumbiram de formatar seres humanos inteiramente tolerantes e desprovidos de capacidade para emitir juízos. Não desprezam, não preferem, não sentem repulsa, não honram, não conservam nada. Eis um possível cenário totalmente oposto a um ideal libertário que deve nortear-se pela natureza humana e pela observância de normas sociais que a amparam num equilíbrio sustentado.