CHIPRE, UMA COBAIA DE MERKEL PARA IMPOR BAIL-INS AOS PIIGS? (HELIO BELTRÃO)

24/03/2013

chipre[Artigo bastante elucidativo e inteligente de Helio Beltrão postado hoje no excelente blog O Ponto Base, em http://opontobase.com.br/chipre-uma-cobaia-de-merkel-para-impor-bail-ins-nos-piigs/. Helio é presidente do Instituto Mises Brasil, e  foi executivo do Banco Garantia. Como gestor e analista de investimentos, utiliza primordialmente a Escola Austríaca e value investing, aliados à perspectiva histórica e geopolítica. É membro de inúmeros conselhos de administração, e possui MBA em Finanças pela Columbia Business School. Aqui ele lança seu olhar arguto, sempre baseado nos ensinamentos da Escola Austríaca, e tenta responder a importantes questões: Que acontecerá?  Haverá acordo?  Se houver, o que acontecerá quando os bancos voltarem a abrir?  O Chipre sairá da UE e abandonará o euro como moeda?  Como tudo isso afeta mercados]?

 

Como o Chipre afetará mercados?  Quais são os cenários mais prováveis para a Europa e Brasil?  Quase tudo cheira mal.  Desde o início.

O Chipre – uma ilha-estado de um milhão de habitantes e PIB de 20 bilhões de euros[1] –, tornou-se membro da União Europeia (UE) em 2004 em boa medida pela chantagem da Grécia, que ameaçou vetar a entrada da Polônia na UE.  E depois que tornou-se membro, o governo do Chipre passou a ameaçar a Turquia com um veto à sua tão esperada entrada na UE.  A Turquia, que por sua vez invadiu o Chipre em 1974[2], possui uma significativa força de 40.000 homens no estado do Chipre do Norte (estado de fato, mas não reconhecido pela ONU), que controla quase 40% do território da ilha.

O Chipre tem um setor financeiro desproporcionalmente alto, com ativos bancários representando 700% do PIB (no Brasil representam tamanho equivalente ao PIB), dos quais boa parte são títulos do governo da Grécia, que por sua vez está no limite da insolvência.  Tem a privilegiada posição de ser um paraíso fiscal dentro da EU, que atraiu depósitos de oligarcas e ricos russos.  Seus principais bancos vêm sobrevivendo “por aparelhos”, no caso, a linha de liquidez de emergência do ECB – Banco Central Europeu.  Há cerca de 70 bilhões de euros em depósitos, dos quais cerca de 40 bilhões são de depositantes com mais de 100.000 euros.  E estima-se que a metade destes depósitos de alto montante sejam detidos por russos[3] (entre os quais especula-se que também figuram mafiosos, dos tipos privado ou público).

helioA chamada ‘Troika’ – o comitê tripartite formado pela Comissão Europeia, ECB, e Fundo Monetário Internacional[4] –, embora divirja internamente em algumas questões, defende que não adianta empilhar mais empréstimos em cima da já enorme dívida do governo de Chipre.  Topam neste momento emprestar no máximo 10 bilhões de euros e somente se o governo cipriota levantar cerca de 6 a 7 bilhões, que totalizariam os 17 bilhões que se estimam necessários para atravessar a crise.  Não há nenhum ativo de porte passível de ser vendido[5], nem é politicamente viável confiscar quantidades significativas de ativos privados ou impor mais impostos ao contribuinte.  E embora os 7 bilhões pareçam ‘pouco’ para os membros da UE, o fato é que o capital político se esgotou.  Os contribuintes dos países mais ricos já estão fartos de pagar pelos abusos e erros dos países mediterrâneos.  E a politicamente astuta Angela Merkel está aproveitando a oportunidade de estabelecer um precedente ao propor que os acionistas, gestores e principalmente depositantes[6] de bancos arquem com uma boa parcela de sacrifício.  Isto terá aplicações abrangentes, que podem afetar os PIIGS.

A ideia é portanto um “bail-in”, uma estrutura na qual os credores dos bancos, entre os quais os depositantes, assumem perdas em seus créditos (ou depósitos), convertendo-se em acionistas, de forma a proteger ou aumentar o capital dos bancos.  Desta forma a Troika conseguiria reduzir o novo empréstimo aos 10 bilhões imaginados.

Até agora não houve um acordo entre Troika, o governo cipriota e o Parlamento sobre como e quanto serão as perdas impostas de cima para baixo aos depositantes.  Neste exato momento, sábado, 23 de março, os rumores são de que os depósitos de alto montante estarão sujeitos a uma perda (na forma de um ‘imposto’, com uma contrapartida em ações) de até 25%, e os depósitos menores perderão cerca de 5% ou menos.  Se não houver acordo até a segunda-feira, 25 de março, o ECB ameaça deixar de fornecer linhas de curto prazo aos bancos, o que certamente implicaria na quebra de um ou mais bancos relevantes.

E aqui estamos, em meio a um longo feriado bancário que deverá ir até a próxima terça-feira, dia 26 de março.

O que acontecerá?  Haverá acordo?  Se houver, o que acontecerá quando os bancos voltarem a abrir?  O Chipre sairá da UE e abandonará o euro como moeda?  Como tudo isso afeta mercados?

Ninguém tem bola de cristal, mas arriscarei palpites.

É bastante provável que haja um acordo esta semana entre a Troika e governo (talvez até com anuência prévia pelo Parlamento), mas qual será o formato deste acordo?

Existe uma chance de que a Troika ceda e aumente o aporte de 10 bilhões de euros.  Afinal, as consequências podem ser severas.  Porém haverá uma revolta política, pois o contribuinte alemão e outros protestarão contra um resgate a um paraíso fiscal para salvar e pagar depositantes russos.  Desta forma, é provável que seja imposta alguma perda aos depositantes.  Mas se houver perda para depositantes, qualquer seja a perda, é de se esperar que, tão logo os bancos voltem a abrir, haja saques no limite máximo permitido por lei, em outras palavras, a temida corrida bancária.  O depositante acreditou até agora na palavra do novo presidente de que o governo não confiscaria seus depósitos, mas por que confiaria no governo outra vez?  Não confiará.  Mas isso significa que haverá demanda de saques imediatos de dezenas de bilhões de euros.  Não há tal dinheiro em caixa nos bancos: como se sabe vivemos em um regime internacional de reservas fracionárias.  O escasso dinheiro disponível em reservas não será suficiente, nem de perto, para atender os saques.

A Troika e o governo sabem disso, e portanto devem impor desde já (na reabertura dos bancos) limites a saques e limites à saída de euros da ilha.  De fato, o Parlamento aprovou ontem uma medida que dá ao Banco Central e ao ministro das Finanças poderes para impor controles de capital.  Não se sabe que tipo de controles serão estes.  Especulo, porém, que o tamanho do confisco, bem como as barreiras ao saque e à remessa serão piores e mais abrangentes do que se imagina hoje.

O problema é que qualquer medida adicional precipitará ainda mais o desejo de saque.  A corrida bancária fatal não se materializará caso os saques sejam reprimidos pelo governo.  A restrição a saques é um cenário possível e provável, pois o governo tem como objetivo maior evitar o colapso imediato dos bancos.  Neste caso, o sistema bancário cipriota entrará em ‘modo zumbi’, morto-vivo, e uma abrupta recessão deverá ocorrer, similar a que o Brasil sofreu em 1990 com o confisco e congelamento dos depósitos e das cadernetas de poupança pelo governo Collor.

Não acho que controles de capital farão diferença significativa.  O mercado encontrará uma forma de remeter euros ao exterior tão logo retome posse destes, ainda que seja pelo meio físico, via aviões russos ou turcos (ou mesmo bitcoins!).

Em um cenário como este, as forças políticas exercerão uma pressão descomunal para que o governo de Chipre retome o poder de emitir moeda e dar liquidez ilimitada aos bancos, ou seja, para que saia do euro, adote uma nova libra cipriota, e crie dinheiro aos borbotões, desvalorizando a moeda via o calote inflacionário[7].  Sabemos que políticos costumam preferir inflação a recessão.  Veremos o que de fato farão.

Mas o que isto significa para os demais países europeus fragilizados, como Espanha, Itália, Portugal?  O consenso hoje é que Chipre não provocará contágio.  Nesta semana os mercados destes países permaneceram calmos e o euro não tem se desvalorizado.

Porém não estou tão seguro de que continuará assim, principalmente em um cenário similar ao que descrevo acima.  Nas semanas que se seguem, os depositantes de países como Espanha devem acelerar suas remessas a países mais seguros, como Alemanha[8] e Holanda.  O problema é que os bancos espanhóis estão muito frágeis, e só possuem capacidade de atender saques com novas injeções pelo ECB, e com renovadas promessas de injeções ilimitadas.  Como os mercados estão over-bought devido ao risk-on dos últimos meses, tais efeitos podem ter impacto negativo substancial: no euro, nos títulos soberanos de países frágeis, nas bolsas européias e podem atravessar o Atlântico e afetar o S&P.  Neste caso, obviamente haveria impacto nos ativos brasileiros e no real.  Embora os ativos devam sofrer por várias semanas, o contágio não deve sair do controle enquanto Draghi seguir com o compromisso de socorro ilimitado (e se funcionar a estratégia de Merkel de usar o bail-in no Chipre para ameaçar os PIIGS a arrumarem a casa ou sofrer bail-ins similares).

O fato é que os investidores não crêem nesta hipótese, e desfilam a atitude: “Eu, me preocupar? Fazer hedge, pra que?” A heroína financeira injetada à força pelos BCs, que entorpece governos e bancos dependentes, tem criado um sistema auto-sustentável, mas ilusório.  Mesmo com as maciças injeções, as economias não têm se recuperado.  As doses têm aumentado e a volatilidade está em níveis indetectáveis.  O capitalismo só funciona bem se a equação risco/retorno funciona adequadamente.  Mas com juros zero até 2015, a relação risco/retorno se deturpou.  Os investidores acreditam que o risco desapareceu: porque ‘os governos sabem fazer o certo’, ‘sabem evitar e curar crises’, e portanto não esperam grandes perdas.  Mas é óbvio que a economia entraria em depressão caso os juros de longo prazo voltassem aos níveis pré-2008 de 4.5%.  O risco retornará ao mercado, não há dúvida.  O Chipre pode ser o gatilho.

Permaneça atento ao O Ponto Base para atualizações e impactos da crise de Chipre nos mercados.


[1] Equivalente ao PIB da cidade de Belo Horizonte.

[2] A Turquia invadiu o Chipre em 1974 para proteger os interesses dos turcos-cipriotas, descendentes da época em que o Império Otomano controlava o Chipre.  Estes representavam cerca de 20% da população, enquanto os cipriotas de origem grega compunham o restante.  À época havia um plano dos militares para anexar o Chipre à Grécia, que serviu como mote para a invasão turca.

[3] Há um importante componente geopolítico envolvendo a Rússia, que sempre teve desejo visceral de controlar um porto em águas quentes, além do Mar Negro.  A Síria de hoje já não é tão confiável para os russos.

[4] O apartamento da diretora-gerente Lagarde sofreu uma blitz da polícia esta semana, em um típica artimanha governamental por Hollande em desviar atenção de sua baixa popularidade.

[5] Há reservas de gás submarinas que podem interessar principalmente a empresas russas, mas tais reservas podem ser contestadas pela Turquia (e talvez Israel), e uma venda pode levar muito tempo (ou se levantará muito pouco em uma liquidação forçada, com insegurança jurídica).

[6] Que possuem seguro-depósito.

[7] Claro que há também a possibilidade de que a UE expulse o Chipre caso a seu critério o governo não aparente estar disposto a adotar as políticas sugeridas.

[8] A economia alemã não está no seu melhor momento.  Os dados de PMI que saíram ontem não foram bons, rompendo o nível de 50, chegando a 48,9.  Não é a melhor hora para uma crise financeira, ainda que em um país muito pequeno.