UM “AUSTRÍACO” NO PAÍS DOS LOTÓFAGOS

18/04/2013

lot1A mitologia grega, por sua riqueza e diversidade, sempre me fascinou e inspirou imagens para descrever situações do mundo real. Hoje quero mencionar os lotófagos – em grego, λωτοφάγοι, que significa “os que comem lótus” -, habitantes de uma ilha no Norte da África, que se alimentavam apenas de frutos e flores do lótus, planta de efeito narcótico e abundante no local e que os fazia perder a memória, dormir quase que permanentemente e ficar em estado de apatia.

Homero, na Odisseia, conta que Ulisses e seus homens, tendo sido suas embarcações desviadas pelo vento, foram dar à ilha dos lotófagos e que então ele enviou três dos seus companheiros para verificarem o que existia no local. Quando a fome bateu, observaram que os nativos comiam aquela planta, e então os três fizeram o mesmo, o que os levou a se esquecerem de abandonar a ilha. Ficaram, literalmente, apenas a ver navios... Ulisses, então, levou mais homens para resgatá-los à força e amarrou-os em seus bancos, a fim de que não voltassem àquela terra.

 

Mas a propósito de que fui buscar essa lenda nos esconsos de minha biblioteca? Foi ontem, ao revisar a tradução de um escrito de Mises para a revista acadêmica do IMB. O extraordinário economista austríaco escreveu no §1 do capítulo “The Nature of Economic Activity”, da seção I, parte II, do livro Socialism: An Economic and Sociological Analysis:

“Em geral, os homens agem apenas porque não estariam completamente satisfeitos. Se eles só fossem orientados a usufruir de completa felicidade, eles ficariam sem vontade, sem desejo, sem ação. Na terra dos lotófagos, não há ação. A ação emerge apenas da necessidade, da insatisfação: é um esforço intencional em direção a algo. Seu fim último é sempre livrar-se de uma condição que é já concebida como deficiente – preencher uma necessidade, alcançar satisfação, aumentar a felicidade”.

Quando li estas palavras, percebi que nosso país parece uma ilha habitada por lotófagos, sempre letárgicos, dorminhocos e com amnésia, o que os leva a aceitar pacificamente que o estado – que, sabiamente, não come da planta – os explore, lhes arranque cada vez mais tributos e lhes roube gradualmente suas liberdades individuais.

Sim, somos mesmo uma terra de lotófagos, porque aqui quase todos parecem plenamente satisfeitos com a exploração criminosa que o estado lhes impõe e, assim, não agem, não têm desejo nem vontade de melhorar sua situação e nem tampouco manifestam qualquer intenção de esforçar-se para aumentar sua felicidade. Vivem em estado de letargia, de diátese originária sabe-se lá de quê. Vale lembrar que quando Cabral aportou na Bahia, trazido pelas calmarias, pensou que haviam chegado a uma ilha. Por isso, batizou nosso país com o nome de Ilha de Vera Cruz, posteriormente mudado para Terra de Santa Cruz e, finalmente, Brasil. Será que os índios que aqui habitavam eram lotófagos e contaminaram os membros da esquadra de Cabral e, dali em diante, todos os que para cá vieram com a letargia, a pasmaceira, a alienação e a amnésia?

lot2É verdade, somos um país de lotófagos um tanto diferentes, já que comemos de tudo: as pessoas passam cinco meses do ano trabalhando para pagar os tributos à Corte e nada fazem, nem ao menos protestam; idosos são forçados a permanecerem horas em filas para a marcação de consultas em postos médicos e hospitais públicos, que só serão agendadas para vários meses depois e nem eles e nem seus parentes mais jovens fazem qualquer coisa para forçar os membros da Corte a tratá-los com dignidade; menores de 18 anos, criminosos contumazes, inclusive assassinos cruéis, são tratados com benevolência por uma pretensa “justiça” e, quando pilhados em flagrante, não são presos, mas “apreendidos” e postos em liberdade pouco tempo depois, sem que a população se revolte contra essa barbaridade; o Congresso aprova lei que, imaginando que empresas e casas de família podem ser ambas colocadas em um mesmo saco, aumenta tanto o custo de manter uma empregada em casa, que na prática vai dizimar a categoria e nem patroas nem empregadas pronunciam sequer um "ai"; políticos roubam escandalosamente e são reeleitos por vários mandatos sucessivos e os eleitores permanecem em estado de amnésia; dois deputados condenados  pelo Supremo Tribunal Federal à prisão por corrupção são simplesmente presidentes de comissões importantes na Câmara e nem os lotófagos honestos revelam indignação.

E tem mais, muito mais: o marxismo cultural gaysista faz de tudo para destruir a família e ninguém ousa enfrentá-los; todos são obrigados a partir dos 18 anos a votar e a imensa maioria ainda chama essa imposição de “democracia”; a educação é uma das piores do mundo e pais e “pedagogos de gabinete” não estão nem aí para isso; alunos cometem espantosos erros de grafia na prova de Português do Enem, são aprovados com nota máxima, as pedagogas à la Paulo Freire dizem que escrever corretamente não é importante e mestres e a Academia Brasileira de Letras silenciam; governo fica brincando de “um pouco de inflação e menos desemprego agora” e “uma inflaçãozinha menor com mais um pouquinho de desemprego depois” e o povo não dá a mínima, sendo que a maioria dos economistas ainda aplaude essas agressões rudimentares à boa teoria econômica; o mesmo governo compra votos lot3com “bolsas isso” e “bolsas aquilo”, “vales isso” e “vales aquilo”, diz que eliminou a miséria e que surgiu uma “nova classe média” e os comedores de lótus tupiniquins não esboçam qualquer reação, até pelo contrário, reelegem aqueles que os enganam; o marxismo cultural pode ser sentido em cada jornal de TV, ou de papel ou na Internet, em universidades, botequins, rodas de intelectuais e de samba e ninguém faz nada; a oposição não consegue nem ao menos se organizar, porque também comeu da planta; os índices de violência são tão alarmantes que obrigam os lotófagos a viverem como que engaiolados em suas casas e apartamentos, enquanto os bandidos transitam livremente, mas ninguém, a começar pelos legisladores, esboça qualquer movimento, por mais tênue que seja, para punir com rigor o desrespeito às leis justas; a pedofilia, quando praticada por maus sacerdotes, é crime, mas os mesmos que levantam seus dedos sujos para acusar esses maus exemplos de padres, deixam passar uma lei que permite que os menores “apreendidos” recebam as tais “visitas íntimas”, como se isso também não fosse pedofilia e, pior ainda, pedofilia patrocinada pelo estado e, como sempre, com o dinheiro dos comedores de lótus; grupos de desordeiros invadem propriedades e o estado ainda lhes afaga as desmioladas cabeças, mas a justiça cruza os braços...

Vou ficar por aqui para não cansar o leitor (se é que já não o cansei), mas poderia citar dezenas, centenas de outras situações que me permitem qualificar nosso país como a terra dos lotófagos. Acho que basta mencionar que os direitos individuais fundamentais à vida, à liberdade e à propriedade vêm sendo incessante e crescentemente maculados, enquanto a população dormita como urso no inverno.

Onde estás, ó Ulisses, que não te vejo? Puxa, até nisso não tivemos sorte, pois o único Ulisses que aqui ocupou cargo importante, mesmo sendo reconhecidamente um homem de bem, nos deixou uma Constituição que pode perfeitamente ser chamada de Constituição dos Lotófagos.

O que pode esperar então um “austríaco” que nasceu e vive no país dos lotófagos, a não ser que algum dia - sabe-se lá quando -, eles acordem e passem a ter memória, a raciocinar e, portanto, a agir?  Infelizmente, viver em nosso próprio país, que amamos desde criancinhas, está ficando cada vez mais difícil.