EXULTAVIT UT GIGAS AD CURRENDAM VIAM

19/06/2013

gigNo Saltério há uma frase estranha, que dá título a este artigo: “Exultavit ut gigas ad currendam viam”. E que prossegue: “A summo caelo egressio eius; et occursus eius usque ad summum eius, nec est qui abscondat a calore eius”, que significa, em tradução livre, algo como: “Levantou-se como um gigante e pôs-se a percorrer seu caminho. Ele saiu do alto do céu e está caminhando para o seu destino e não há ninguém que possa se esconder do seu calor”.

Lembrei-me desses versos de Davi, que sempre me intrigaram, a propósito das manifestações que vêm ocorrendo em todo o país, com muitos milhares de pessoas saindo às ruas para protestar, convocadas pela tecnologia extraordinária da Internet.

Quero ser breve, por isso vou apenas colocar duas perguntas, que julgo serem as mais importantes: (1ª) protestando contra o quê? e (2ª) que caminho afinal deseja o gigante – que simboliza, como você já deve ter percebido, o Brasil, que dorme há 513 anos – percorrer?

 

A primeira indagação é de fácil resposta: o povo, especialmente a juventude da classe média, está protestando contra o estado de coisas que vem prevalecendo no país, o que significa que estão declarando guerra à corrupção, aos políticos em geral, à justiça injusta, à PEC 37, ao crime, ao Código Penal, ao péssimo uso dos recursos roubados dos pagadores de tributos, à descomunal carga tributária, às condições extremamente precárias da saúde, da educação, da infraestrutura, dos transportes em particular e muitas outras. Além disso, os manifestantes, ou quase todos, estão rejeitando bandeiras de partidos políticos radicais (todos sabemos quais são), que tentam assumir ares de líderes do movimento. Este, a meu ver, é o cariz bonito das manifestações. O gigante, finalmente, parece ter despertado e deseja seguir seu caminho. Ótimo! Mas não posso deixar de ressaltar que é importante que ele saiba que caminho é esse que deseja percorrer, se um caminho de pedras que tolhe até a ação de sonhar, como cantou Milton Nascimento, ou um caminho seguro rumo às justas aspirações da sociedade.

Portanto, temos que procurar a resposta para a segunda pergunta: em termos concretos, que estrada deseja enfim trilhar o gigante? Uma estrada em que o estado nos vigiará a cada metro percorrido ou uma estrada de liberdade responsável?

Minha resposta, infelizmente, é de descrença em relação à segunda alternativa. Por quê? Bem, primeiro porque acredito que a grande maioria dos manifestantes, embora mostre justa revolta contra “tudo isso que está aí”, não imagina soluções, mas parece desejar que o estado – sim, sempre o estado (que nós do IMB grafamos sempre com letra minúscula)! – as encontre. Vi na TV, li em jornais e na Internet e ouvi pessoalmente que essa maioria deseja coisas impossíveis, tais como “transporte público de qualidade” (e de graça), “saúde de qualidade” (também gratuita), “educação de qualidade” (idem), ou seja, o gigante não se deu conta de que é ele próprio que deve escolher o seu caminho. Há exceções, há quem esteja pedindo privatizações, extinção de monopólios públicos e outros objetivos importantes e necessários. Mas, resumindo, temo que os manifestantes estão em grande maioria clamando por muitas mudanças necessárias, mas supondo que o estado agressor é que vai promovê-las. Em outras palavras, estão querendo o modelo europeu da social democracia que, como advertiu Hayek, não funciona, a não ser por algum tempo, como a Europa falida está aí mesmo para atestar. Aliás, é exatamente o caminho que nosso país vem trilhando há tempos e que vem se aprofundando desde 2003. Nesse caso, o gigante que veio do alto, ao invés de caminhar para o topo, estará marchando para o buraco do atraso que sempre acontece quando a sociedade permite que o estado a conduza. Este é o semblante feio, a carantonha das manifestações.

Por fim, há que se ressaltar que o movimento carece de unidade, porque é difuso em suas reivindicações e padece também da falta de um líder. Difuso sim, porque em 1991 havia um objetivo claro, sintetizado na “palavra de ordem” (não suporto essa expressão) “fora Collor”, enquanto hoje as palavras de ordem mais parecem catilinárias, tal sua diversidade. No episódio do impeachment do Indiana Jones brasileiro (que é como George Bush, pai, se referia a Collor) surgiu um líder, Lindenberg Farias, hoje um abastado senador que abraça o também senador Collor como se fossem velhos amigos. Mas um movimento que pretende mudanças precisa de líderes e posso estar errado, mas ainda não surgiu ninguém que possa assumir esse papel.

Em suma, o gigante parece ter despertado – o que, como frisei acima, é um fato auspicioso -, mas o caminho que pretende seguir, em meu entendimento, está mais para aquele das pedras de Milton Nascimento do que para o de uma estrada que o leve à liberdade. Nesse caso e como sempre - e  os fatos já estão a apontar para isso -, os pagadores de tributos vão ser "convidados" a pagar a conta.