UM PRESIDIÁRIO NO PLENÁRIO!

02/09/2013

presidHá muitos anos venho dizendo e escrevendo que dos três subsistemas que compõem as sociedades – o econômico, o político e o ético-moral-cultural – o último deles é seu elo mais fraco, no sentido de que, quando vai mal, contamina, envenena, infecciona, contagia, corrompe e vicia os outros dois. Mas muitos dos idiotas da objetividade (e alguns adeptos do “objetivismo”), quando se toca nesses aspectos morais se encrespam - olhos rútilos e aquela baba bovina e elástica rodrigueana pendente de suas bocas -, e se comprazem em rosnar impropérios, dos quais o único não pornográfico é que defendo teses da Igreja Católica, que guarda, segundo eles, uma visão “medieval” do mundo. Mas a caravana deve seguir em frente e é urgente atentarmos para o fato de que essa doença está atingindo gravemente a sociedade brasileira e percebermos suas incontáveis manifestações, tanto na esfera pública quanto na privada. Um desses ataques patológicos, absolutamente deprimente e estarrecedor, aos valores morais básicos, por todas as circunstâncias que o envolvem, e que deveria escandalizar o mais longínquo dos sertanejos na mais remota caatinga, mas que passou pelo noticiário sem grande alarde, como se fosse algo banal, é o caso do deputado do PMDB de Rondônia, Natan Donadon, condenado pelo STF por oito votos contra um, a treze anos e quatro meses de prisão por formação de quadrilha e peculato, pela participação em desvio de cerca de R$ 8 milhões da Assembleia Legislativa de Rondônia em simulação de contratos de publicidade. Amigos, infelizmente, no Brasil de hoje a corrupção tornou-se prática tão banal que nem as moscas pousam mais nas manchetes dos jornais e revistas que as mostram...

 

Pois não é que na semana passada o deputado foi absolvido pelo plenário da Câmara dos Deputados, que negou os votos necessários para a sua cassação ou, em outras palavras, não cassou o seu mandato, o que exigiria 257 votos? Sob a proteção sorrateira, solerte, incestuosa e adulterina do voto secreto, apenas 233 deputados votaram a favor da perda do mandato, 131 votaram pela manutenção e 41 – temos mais de quatro dezenas de Pilatos em nossa Câmara! - se abstiveram. Depois de ouvir o resultado, Donadon ajoelhou-se, levantou as mãos para o céu e agradeceu a Deus e em seguida voltou, algemado, para o Complexo Penitenciário da Papuda.  

Esses fatos, por si, já seriam suficientes para demonstrar como anda o apreço aos valores morais naquela casa, mas a agressão à ética não ficou apenas nisso. Como relataram os jornais, o parlamentar subiu à tribuna para se defender diante dos colegas da Casa por cerca de meia hora, dizendo-se injustiçado e pedindo para ser absolvido das acusações de desvios de recursos públicos. Preso desde 28 de junho na Papuda aproveitou para reclamar das condições a  que está sendo submetido no presídio, nestes termos: 


"Os presos pediram pra dizer como a alimentação de lá é ruim. Justo hoje acabou a água enquanto eu tomava banho e estava ensaboado. É desumano o que prisioneiro passa. Tenho sofrido bastante, inclusive financeiramente. São dois meses que não recebo salário. Meus assessores foram demitidos. Sou deputado e não acho justo terem suspendido o pagamento do meu salário e cassado todos os meus direitos”. [o negrito é meu, para salientar como funciona a cabeça dessa gente que pensa que tudo pode].

 

Mas a agressão aos eleitores e ao mínimo de decência que se deve exigir de representantes que se dizem do povo não ficou apenas nisso. Para culminar o quadro deprimente de apodrecimento moral por que passa nossa sociedade e do qual episódios como esse acontecido no plenário da Câmara são meros reflexos, como Donadon está impossibilitado de participar de votações por causa da condenação no STF, o presidente da Casa, de acordo com o regimento, convocou seu suplente imediato, o ex-ministro da Previdência de Lula e ex-senador Amir Lando, também do PMDB de Rondônia, para assumir a vaga. Este – acreditem! – está sendo processado pelo Ministério Público Federal, juntamente com o ex-presidente Lula da Silva, por dano ao erário e improbidade administrativa e sendo intimado a devolver aos cofres "públicos" um montante de R$ 9.526.070,64, conforme você pode constatar vendo o Processo 0007807-08.2011.4.01.3400 da 13ª Vara Federal, clicando aqui, e selecionando “Distrito Federal (JFDF)”, clicando em “ok”, preenchendo o nº do processo e digitando as quatro letras que vão aparecer como código.  O processo foi remetido ao TRF, sem baixa, em 25/07/2013. Amigos, vocês não concordam, sem que se atire a primeira pedra, que não estaria mais consonante com a ética que o referido suplente ficasse impedido de assumir, até que sua inocência viesse a ser julgada e comprovada?

Do jeito que está, sai um roto e entra em seu lugar um suspeito de ser esfarrapado. Assim está o Brasil, gente. Nossa crise é fundamentalmente de valores morais! O tempora o mores!