A EPOPEIA DE IORIO NO CARTÓRIO

09/11/2013

cartOntem precisei ir a um tabelião para reconhecer minha firma em um documento, ou seja, para uma funcionária carimbá-lo, enchê-lo de selos e depois rabiscar o papel, significando que eu sou eu, ou que minha assinatura é a minha assinatura. Um cartório é por si só um estabelecimento atentatório ao bom senso e um purgatório, em que temos que pagar pelo pecado de termos nascido no Brasil, o que, infelizmente, é um acontecimento merencório e expiatório.

De 1979 a 1986 existiu no Brasil o Ministério da desburocratização, uma secretaria do Executivo federal, que foi comandado pelo inesquecível Helio Beltrão (de 1979 a 1984), o mais eficiente de todos, e por João Geraldo Piquet Carneiro (de 1983 a 1985) e Paulo Lustosa (de 1985 a 1986). O ministro Beltrão arregaçou as mangas e conseguiu eliminar toneladas de papéis inúteis e que só servem para enriquecer tabeliães, inclusive as aberrações do “atestado de bons antecedentes” e o “reconhecimento de firmas”. Mas os tabeliães simplesmente ignoraram e ignoram até hoje a limpeza que ele e seus sucessores tentaram – como Dom Quixote lutando contra moinhos de ventos, ou, se preferirem, como São João Batista pregando no deserto – promover para reduzir os incríveis repertórios dos cartórios.

 

Bem, e assim, em uma bela manhã de sol no Rio, lá se foi o Iorio ao cartório onde tem “firma”. Uma verdadeira epopeia, gente! Felizmente, só costumo aparecer lá no máximo uma vez em cada dois anos, para sorte minha.

Mas hoje, ao entrar no recinto, que deve ter no máximo uns cinco metros quadrados de área e possui três guichês, achei que havia errado o endereço e estava na entrada do Maracanã em tarde de Fla-Flu decisivo, tal a quantidade de pessoas em espaço tão exíguo. Não sei se a fila se assemelhava a um caracol, ou a uma água marinha, ou a um mico-leão dourado, ou se, simplesmente, não existia. Perguntei à mulher grudada na porta de entrada, que julguei ser a última da fila, se ali era o final da mesma, ao que ela me respondeu com um “não sei” desalentador, quase chorando lágrimas abundantes de tristeza. Perguntei, depois de atravessar o recinto pedindo desculpas por estar esbarrando em outras pessoas, se o final da fila era ali e de novo uma senhora bem dotada de quilos e que ocupava, sozinha, as duas únicas cadeiras no local, me respondeu com um sonoro “sei não, moço”.

Resolvi pesquisar um pouco – ah, essa mania de pesquisador! – e desconfiei que entre as cerca de vinte pessoas ali presentes a metade deveria ser cristã, porque acreditavam que “os últimos serão os primeiros” (Mateus 20.16 a), mas que a outra metade não era formada por cristãos, porque pensavam que “os primeiros serão mesmo os primeiros”...

Decidi, então, usar meus conhecimentos de Praxeologia, de Matemática, de Teoria dos Jogos, da Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos, de Platão, São Tomás, Hayek e muitos outros, entre os quais Cipião o Africano, Leônidas e Xerxes. Logo percebi que as moças dos três guichês estavam chamando aleatoriamente ou quase isso, porque também não sabiam decifrar o enigma da fila. Detectei também ali um problema de insuficiência e dispersão de conhecimento. Usei, então, minha tática infalível, que aprendi lendo Ação Humana, de Mises: como estava com uma camisa polo vermelha por baixo de meu agasalho, tirei o dito cujo na expectativa de que o rubro de minha camisa chamasse a atenção e eu tivesse a sorte de ser chamado. Funcionou! Tinha mesmo que funcionar, porque os axiomas da ação humana são infalíveis.

Assinei na presença da atendente as duas vias que levei (mas não sem antes ter apresentado a “indentidade” e o CPF), ela me fez assinar um livrinho, me deu um pedacinho de papel com um rabisco ininteligível (talvez estivesse em sânscrito) e me disse para ir pagar “lá fora”, em um guichê que dá para a rua (felizmente, como escrevi no início, não estava chovendo). Lá chegando, não havia fila, mas também não havia ninguém para receber o meu dinheiro... Depois de dez minutos, apareceu outra moça, entrou no guichê (talvez ela tenha ido ao banheiro, por isso não vou crucificá-la aqui) e me cobrou o valor devido.

Tive que pagar para o cartório inglório “atestar” que minha assinatura era mesmo a minha assinatura! Voltei à salinha, erguendo a gola da camisa para que o vermelho ficasse mais visível e, brandindo o meu recibo com a mão direita, sinalizei para a moça que me havia atendido. Ela então me chamou, parando de atender a quem estava no guichê e, simplesmente, sem verificar se minha assinatura era mesmo a minha assinatura, ou mesmo se eu tinha firma registrada naquele cartório, colou os selos nas duas folhas, meteu o carimbo nelas, rabiscou sua rubrica e as entregou em minhas mãos agora vitoriosas.

Saí então, triunfante, mas rapidamente, daquele local peditório, em que os cidadãos são obrigados pelo estado opressor a suplicar atendimento, entrei em meu carro e agradeci a Deus e a Mises por ter conseguido, com a infinita bondade do Primeiro e a Praxeologia do segundo, aquelas duas folhas “atestando” que minha assinatura era mesmo a minha assinatura, sem que a atendente tivesse ao menos – já que ela ganha teoricamente para isso - o cuidado de checar se era mesmo.

E assim terminou a epopeia de Iorio no cartório exploratório, para receber o comprobatório de que o Iorio é mesmo o Iorio, e não um finório.

Gente, o Brasil não tem jeito!