RON PAUL E A PREVALÊNCIA DA VIDA

10/09/2014

ron_biraOntem o extraordinário Ron Paul - que dispensa qualquer apresentação - foi entrevistado no programa do Danilo Gentili, no SBT (veja a entrevista completa aqui). Tarde da noite, perto de uma hora da madrugada de hoje, mas o que fazer, se o chamado “horário nobre” é ocupado por lixos e detritos de todas as espécies, dos quais destaco as novelas, os telejornais fraquíssimos, superficiais e politicamente corretos e o espantosamente ridículo e inacreditável “horário eleitoral gratuito”?

Como sempre acontece em seus pronunciamentos, suas palavras foram uma aula muito bem fundamentada sobre o que vem a ser o verdadeiro libertarianismo e, particularmente, sua última afirmativa, ao responder a uma pergunta sobre se, como libertário, era favorável ao aborto, foi de uma clarividência contundente e que deve ter nocauteado muitos left libertarians

Disse o Dr. Paul – que, como se sabe, também é um médico obstetra: “para defendermos a liberdade, é necessário antes defendermos a vida”, mostrando claramente, além da habitual espontaneidade e fundamentação teórica que o tornou um político bem diferente de seus pares no Congresso americano, sua firme posição contrária àquela prática.

 

Todos os que defendemos as ideias libertárias sabemos que há três direitos chamados fundamentais, quais sejam, à vida, à liberdade e à propriedade, os chamados direitos naturais. Porém, infelizmente, muitos dos que se dizem ou se julgam libertários cometem o erro de julgar que, dos três, é o direito à liberdade que deve ter precedência. Errado! Não é! A liberdade, assim como a propriedade, são valores essenciais, mas não são os valores supremos! O valor supremo é o da vida!

Pode existir vida sem liberdade? Pode, e um exemplo disso são os cubanos, ou um canarinho dentro de uma gaiola. Mas pode haver liberdade sem vida? Não, pois, por exemplo, não faz nenhum sentido falar da “liberdade” de um defunto.

Analogamente, pode existir vida sem propriedade? Pode, e os cubanos, mais uma vez, servem como exemplo, assim como quem mora pagando aluguel. Mas pode haver propriedade sem vida? Não, porque não faz o menor sentido, para repetirmos o exemplo, um morto ser, digamos, “dono” de um pedaço de terra.

E pode existir propriedade sem liberdade? Pode, pois se você é proprietário de um automóvel e mora em São Paulo, está proibido de circular com ele durante certos dias e horários estabelecidos pelos agressores que constituem o Estado. Pode haver liberdade sem propriedade? De certa forma, sim, se – usando a nomenclatura cunhada por Isaiah Berlin - pensarmos em termos de liberdade para: em um país sob a censura de uma autoridade central, você, se é um músico, é “livre” para, digamos, tocar a música que quiser, mas desde que ela não esteja incluída na lista das peças proibidas pelos autoritários de plantão.

Portanto, parece claro que, dos três direitos, a precedência está com o da vida!

E na complexa questão do aborto não pode ser diferente. O direito à vida do feto precede o pretenso direito à liberdade de escolha da gestante, bem como o seu direito à propriedade do próprio corpo: se sua escolha livre for pelo aborto, estará cometendo um assassinato, algo que sempre foi, é e será considerado um crime, bem como estará agredindo o direito à propriedade do próprio feto, já que o corpo deste, embora ainda em formação, não pertence à mãe, mas a ele, pois é, incontestavelmente, um ser humano vivo.

Vejam a incoerência de certos grupos defensores do aborto: alegam “liberdade sobre a propriedade do próprio corpo”, ao mesmo tempo em que defendem regimes que suprimem tanto a liberdade de mercado quanto a propriedade dos meios de produção. Ou seja, quando uma situação lhes interessa, viva a liberdade e a propriedade e, quando contraria seus desejos, abaixo a liberdade e a propriedade!

Utilizando o exemplo que um amigo postou ontem na internet, quem é favorável ao aborto, por coerência, deve ser também favorável a que um taxista tenha o direito de matar o seu passageiro. E outro amigo escreveu com bastante propriedade e firmeza que as tentativas de se transformar a questão do aborto em um problema de “saúde pública” nivelam fetos e bactérias, uma moralidade, no mínimo, estranha. Um terceiro escreveu, também com coerência, que a própria discussão sobre a possibilidade de se permitir um assassinato deveria se constituir em crime - ou em premeditação de crime. Um quarto observou que defender o direito à liberdade sobre o próprio corpo, nesse caso, para destruir outro corpo, é profundamente ilógico. Por fim, um quinto argumentou com clareza: “O que importa é que o aborto propositado, constituindo ação deliberada, encerra a possibilidade potencial de existência de um ser humano já em curso, o qual não depende de outra ação deliberada para sua consecução, a não ser a manutenção da vida da própria gestante. E que tão grave quanto eliminar um ser humano deliberadamente é eliminar o curso de ação que levará à sua existência”.

Sou, como Ron Paul, um libertário. Mas, como ele e os verdadeiros libertários, acredito que a vida é o valor fundamental, acima dos valores da liberdade e da propriedade. Espero que essa posição clara que mostrou ontem leve alguns dos que se dizem ou se acham libertários a, pelo menos, estudarem mais, ao invés de, depois de quinze minutos de leitura, acharem-se no direito de ditar regras sobre um libertarianismo que mal conhecem. E que deixem de ser libertários de facebook. Estudar faz bem e não dói, posso garantir.

Sempre admirei a coragem e a coerência de Ron Paul. Sempre acreditei nas mesmas ideias, embora, como indivíduo, não seja obrigado a concordar com todas elas. Tive o grande prazer de conhecê-lo pessoalmente no último domingo, na IV Conferência do Instituto Mises, em São Paulo e vi de perto sua espontaneidade e sinceridade, sem qualquer afetação, tão comum nos políticos. Como o Brasil está precisando de homens públicos como ele!