13/07/2018

 

Parece que nosso amado, idolatrado - e sempre judiado - país oscila em moto contínuo entre o absurdo e o despautério, o disparate e o despropósito, o desvario e a insânia, em um excêntrico e surreal “transtorno unipolar”. Tal estado deplorável faz ressaltar, com aquela proverbial obviedade ululante a que se referia Nelson Rodrigues, o fato líquido e certo de que as promessas e conversas de políticos, para usarmos uma linguagem bem popular, são invariavelmente eternos e enfadonhos papos de cerca-lourenço.

Qualquer ser pensante – excluindo-se, naturalmente, os políticos esquerdosos, os corruptos maldosos e os eleitores caliginosos – sabe da urgência de reformas estruturais profundas nas instituições, partidos, sistema político e relações entre o Estado explorador e o cidadão que é obrigado a pagar para ser tungado. Há décadas os bons economistas vêm alertando para essa necessidade e igualmente há décadas os maus economistas e os políticos vêm se empenhando vigorosamente para que a premente reestruturação seja procrastinada ou mesmo contestada, como aconteceu flagrantemente nos annus  horribilis que os brasileiros atravessaram entre 2003 e a metade de 2016. 

Mas, se você pensa que essa “bipolaridade de uma nota só” foi afastada com o fim da era de devastação lulopetista, não se anime. Vou dar quatro motivos para que você mantenha o cabelo em pé. 

O primeiro - inequívoco, incontestável, claro, patente, evidente e axiomático - é a fraqueza e incapacidade generalizadas do governo comandado pelo sucessor da mulher sapiens. Sua colossal debilidade e inépcia dispensam comentários. 

O segundo veio do Judiciário, com a recente manobra, tão pérfida quanto inconstitucional, para soltar o Sr Lula, perpetrada – muito provavelmente a mando de um sujeito que também deveria continuar preso, mas que foi libertado pela famosa troika do STF agasalhadora de corruptos -, por aquele desembargador plantonista petista do TRF-4 no último domingo, 8/7. A gravidade da artimanha poderia, caso não fosse freada a tempo pelas instâncias competentes da Justiça, estabelecer definitivamente a insegurança jurídica, recentemente estimulada em série pelo referido trio do Supremo e abrir a estrada para o caos que, ao que tudo indica, o partido da estrela deseja levar o país. 

O terceiro motivo foi perpetrado pelo Legislativo, quando o Congresso Nacional aprovou, na quietude plácida da alta noite de 11/7, um projeto da LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) com previsão de déficit nas contas públicas no próximo ano. Para completar o serviço sujo, nossos lídimos representantes autorizaram aumentos nos salários dos servidores públicos em 2019 e derrubaram a proposta do relator de exigir economia de 5% nas despesas de custeio dos órgãos públicos, em gastos como contas de luz, telefone e diárias. Gastar generosamente o dinheiro dos cidadãos para se reeleger faz parte, sem dúvida, da ética tétrica daqueles que foram eleitos e são regiamente pagos para legislar para o povo, conforme reza o sempre citado e solenemente ignorado solitário parágrafo do Artigo 1º de nossa CF. 

E o quarto – para fechar a “coisa” -, veio do Executivo. A menos de seis meses do fim do mandato, soubemos que o presidente da república, envolvido em uma série de denúncias de corrupção,  liberou R$ 5,8 bilhões de verbas para emendas individuais e as acelerou na primeira semana de julho. Isso é mais do que o total de todo o ano passado (R$ 4,9 bilhões) e equivalente ao desembolsado em 2016, ano de eleições municipais (R$ 5,9 bilhões). O governo, descaradamente, argumenta que o aumento do ritmo do pagamento de emendas se deu por causa do período eleitoral, já que a lei proíbe a transferência de recursos da União a Estados e municípios nos três meses que antecedem a eleição. É importante recordar, também, sua estapafúrdia declaração em 15 de maio deste ano: "Esse é um momento político-eleitoral, quando várias tendências se contestam e se testam. Mas, após a eleição, haverá um momento político-administrativo, quando todos deverão se unir pelo bem comum, tanto a oposição quanto a situação". Não cabe perguntar: e antes, não há necessidade de se dar atenção ao bem comum? 

Disso tudo, podemos e devemos concluir, pela milionésima vez, que não se pode em hipótese alguma confiar em políticos, esses seres bem falantes e tratantes que não hesitam em deixar heranças cada vez mais desastrosas para os mandatos seguintes. As reformas são sempre adiadas simplesmente porque não interessam a eles, sempre obstinados a não ceder um milímetro sequer de seu domínio. 

O discurso deles é sempre o mesmo: educação, segurança, saúde, emprego, combate a “desigualdades” ou qualquer promessa que seja capaz de render votos. Em termos práticos, todo esse “cerca-lourenço” pré-eleitoral deve ser entendido pelos eleitores, de modo curto e grosso, como: “corram, porque lá vem o arrastão”!