31/07/2018

 

“Invejo a burrice, porque é eterna.”

(Nelson Rodrigues)

 

O programa Roda Viva, da TV Cultura, entrevistou Bolsonaro, o candidato da direita que lidera as pesquisas e que, por expressar o pensamento da média dos cidadãos brasileiros diante da violência, da praga moral que é a seita politicamente correta e da deterioração da economia, parece ameaçar a hegemonia doentia da esquerda que castiga nossa grande, comovente e gentil pátria. Não foi bem uma entrevista, mas um verdadeiro interrogatório inquisitorial. Sob o comando bisonho de Ricardo Lessa (ah, bons tempos os do Augusto Nunes!), o quinteto de entrevistadores selecionados mais se parecia com uma hipotética equipe de futsal do Íbis, aquele que é considerado o pior time do mundo: Thaís Oyama, redatora-chefe da revista Veja; Sérgio D'ávilla, editor-executivo do jornal Folha de S. Paulo; Leonêncio Nossa, repórter especial do jornal O Estado de S. Paulo; Maria Cristina Fernandes, colunista do jornal Valor Econômico; e Bernardo Mello Franco, colunista do jornal O Globo. 

Cada pergunta revelava claramente que o objetivo, longe ser debater as propostas do capitão, era o de desferir-lhe saraivadas de chutes e socos nas fuças à la José Aldo e cada resposta do candidato desencadeava tamanha indignação cívica dissimulada que fazia os cinco companheiros subirem pelas paredes, como lagartixas profissionais bem remuneradas. Confesso que estava vendo a hora em que iam, sob a regência do Lessa, cantar o Hino Nacional, ou melhor, o hino da internacional socialista. 

A burrice é um fato consumado e é diferente das segundas intenções e da ignorância: esta é o desconhecimento dos fatos e das possibilidades, as segundas intenções são um objetivo que se procura alcançar dissimuladamente, enquanto a burrice é uma verdadeira força da natureza que não devemos subestimar, pois é capaz de superar até as leis da gravidade... E o que dizer da combinação desses três atributos – burrice, más intenções e ignorância – exibida pela equipe do Íbis midiático? Melhor nem dizer. 

Jornalistas militantes de esquerda, descarados e despudorados. Tal como escreveu hoje Fernanda Barth em sua página no Facebook: 

“Não fizeram uma pergunta sequer sobre projetos ou visão de nação. Tinham uma missão apenas: desconstruir o candidato. Tomaram um totó e acabaram se revelando excelentes cabos eleitorais. Bolsonaro respondeu as perguntas mais manjadas. Chutou o balde do politicamente correto e falou a língua que o eleitor médio entende muito bem. Que fim melancólico pro Roda Viva ... até quem não gosta de Bolsonaro torceu por ele, diante de bancada tão torpe e despreparada. Esta sequência de entrevistas no programa revelou, acima de tudo, o péssimo nivel de um jornalismo ativista, militante e sem conteúdo. A falta de perguntas inteligentes é chocante.”

Uma pauta “lacradora”! Racismo, homofobia, misoginia, desarmamento, estupro, tortura, “golpe” de 64, Herzog, descristianização e por aí vai. Seguiram-na à risca como cães adestrados, porém, para felicidade do candidato, com uma incompetência rigorosamente espantosa.

Mas esse despreparo não se revelou apenas na entrevista de Bolsonaro. Quem assistiu às de João Amoedo e Manuela d’Ávila percebeu essa mistura indefensável de militância com incompetência jornalística e intenções escusas. No caso da comunista, já que o Komintern de conselheiros da Cultura achou por bem entrevistar uma candidata que é praticamente um zero à esquerda nas pesquisas, que o fizessem com seriedade e respeito, até porque se tratava de uma “companheira” ideológica. Com João Amoedo, por ser ele um homem polido, afável e educado, além é claro, de ser um liberal, as interpelações consistiram em um conjunto de ataques injustificáveis. 

Até aqueles velhos paralelepípedos da Boca do Mato de que nos falava Nelson Rodrigues sabem que os meios de comunicação em todo o mundo, com raríssimas exceções, estão dominados por esquerdistas de todos os matizes. Mesmo os inocentes sabiás desse subúrbio carioca sabem também que, desde que Augusto Nunes demitiu-se do comando do programa em decorrência das pressões políticas que sofreu (ver aqui), o nível dos entrevistadores caiu assustadoramente. Portanto, não foi nenhuma surpresa o que aconteceu ontem, quando o candidato anticomunista mais expressivo entrou na Cova dos Leões, qual um Daniel redivivo.

A meu ver, tal como no relato bíblico, o capitão livrou-se de ser devorado, mas não porque algum Anjo tenha fechado as bocas dos leões, porém porque os enfrentou com seu estilo habitual de bateu levou e, principalmente, porque o nível dos interrogantes era uma monumental estátua à burrice, alicerçada em uma base ridícula composta apenas de chavões.  

É impressionante como as redações estão infestadas de socialistas. Basta uma rápida consulta a algumas manchetes e matérias de hoje. O Estado de São Paulo: “Presidenciável do PSL disse ainda que não vai abrir os arquivos da ditadura caso eleito”; a indefectível Folha de São Paulo: “Bolsonaro diz que as eleições deste ano estão sob suspeição”; Jornal do Brasil: “Bolsonaro chama Comissão de Direitos Humanos de instituição com viés de esquerda” e, ainda, "Não houve golpe militar em 1964"; o jornal cearense O Povo, para não ficar atrás, com ar de superioridade, condena o capitão por ter dito que a “dívida histórica” é uma balela: "Que dívida eu tenho com a escravidão?". É melhor parar por aqui. 

O candidato, como de hábito, não se intimidou e foi incisivo em suas respostas. Talvez pudesse responder ainda mais peremptoriamente às perguntas mais cretinas, como, por exemplo, aquelas sobre os arquivos da ditadura e sobre quem seria o ministro da Fazenda se o Paulo Guedes viesse a brigar com ele ou “morrer”. À primeira, poderia ter retrucado que “sim, abriria os tais arquivos, mas desde que os registros sobre os terroristas guerrilheiros daquele período também fossem levados ao conhecimento do público” e a segunda poderia ser rebatida com um “pode continuar intranquila, não vai ser o Bresser nem assemelhados” ou, se quisesse nocautear de vez a inquisidora, com um “e você, o que faria se, por um milagre, passasse a ser inteligente”

Em suma, o programa Roda Viva morreu de vez ontem e Bolsonaro deve estar agradecido pelos votos que os inimigos lhe renderam.