15/09/2018

 

João Daniel Ruettimann*

 

 

* Bacharel em Relações Internacionais, mestre em Comércio Internacional e pós-graduando em Escola Austríaca no Instituto Mises Brasil.

 

           Não é surpreendente que na atual tormenta política brasileira fiquemos tateando às escuras; desnorteados, com nossa bússola moral obnubilada pelas intestinas intempéries da Twittersfera. De quando em vez lampejando os factóides fakebookeanos que ao invés de clarear o quadro em que nos encontramos, cegam-nos. Incólumes, passam as causas profundas de uma tempestade que começou em março de 2013.

            No olho do furacão dois nêmeses despontam: Jair Messias Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva. Verso e reverso da mesma moeda do populismo, da demagogia, do discurso de ódio... ou ao menos faz-nos crer a flatus vocis ecoada nas caixas de ressonância televisivas e no engarrafado trânsito a dar audiência às rádios. Os formadores de opinião corrente emitem seus pareceres, não muito distintos do eflúvio na marginal Tietê que serpenteia o ouvinte cativo, e o veredito apresenta uma equivalência entre as duas figuras “polarizadoras”. 

            Pondero ao leitor que somente tenha cuidado com as equivalências falaciosas e derivadas de reações emocionais. A idéia de que um arquirrival putativamente eliminado, com suplente pronto para tomar o bastão, automaticamente fortalece seu nêmese é válida somente se a hipótese de sua força política jazer na antítese à Inácia pessoa. Não é. A base que propulsiona o fenômeno do outsider Bolsonaro não é unicamente a figura dele. Troca-se a causa pela consequência. Lula é rejeitado como símbolo do conjunto de ações políticas e idéias que propulsionaram seu projeto totalitário de poder - inacabado e não morto ainda. Um é popular, outro é populista; desnecessário apontar a importante diferença entre ambos.

            Nossa mentalidade estatística e tecnicista não trai a cosmovisão moderna acerca o cerne desta eleição: é a economia, estúpido! Contudo, lamento informar, a dileta não é o fator decisivo nesse pleito, ainda que nosso orçamentívoro Estado megatério esteja insepulto. Em que sentido é possível comparar um homem do radicalismo revolucionário comunista, o Luiz Inácio, com o Bolsonaro, capitão do Exército e até pouco tempo espécimen da fauna política carioca? Que simbolizam? Se o critério é comparativo façamos um rápido apanhado das ideias que os orientam, das estruturas que lhes circundam e da conjuntura que as pauta.

 

Das ideias: missa negra d’uma igreja de fachada.

 

O primeiro ponto a se esclarecer é que a ideologia revolucionária, em particular a comunista, é uma religião política. A religião real, em contraposição à artificial, parte da apreensão do sentido da ordem no cosmos. Descobre o homem a partir da eternidade, sub species aeternitatis, por vislumbrar aquilo que em infinitas variações de vidas humanas nos torna comum. Dessa perspectiva participativa de uma realidade da qual não criamos, vez que o mundo nos antecede, surge um princípio de ordem que articule uma galáxia de sentidos ancorada num ponto referencial transcendente, para tanto fora do subjetivismo de cada e justamente por isso intercomunicável.

A articulação de experiências portadoras de sentido tem sido, ao longo da existência humana civilizada, fundamentalmente pela criação de um campo social que primeiramente é simbolizado em linguagem mito-poética não por ser primitiva ou antecedente historicamente (embora esta ordem assim o seja), mas porque, ciente das limitações humanas, é a clave de inteligibilidade que melhor transmite ao homem seu lugar no cosmos, sua participação tensional no entremeio (ou methéxis tal qual simbolizada por Platão). Entre a vida e a morte, entre o falso e o verdadeiro, entre o justo e o injusto, entre o finito e o infinito, entre o desordenado e o ordenado, entre a virtude e o vício, entre anjos e demônios, o passado e o futuro, lá estamos: no meio. Essa impressão, quando vividamente articulada, simboliza os aspectos dessa tensão que nos é recursiva, transcendendo os grilhões do tempo, das circunstâncias e da geografia, ao longo das gerações daqueles que têm uma vida humana. Dessa forma se chega à uma recordação dessa dimensão participativa da existência humana e ao símbolo da Humanidade, daquilo que é universalmente apreensível para cada um, por todos os tempos, que passe pelo mesmo processo de salto no ser (metanoia) de tal modo que ocorra uma mudança em sua cosmovisão, um ordenamento daquilo que chamamos alma ou psiquê através desta contemplativa rememoração (anamnesis). Esses símbolos religiosos exprimem o caráter ontológico (base) e normativo (direção) da vida humana, são inatos a ela. Religiões fundam civilizações; não o inverso. O oposto seria o afastamento do salto no ser, a queda no ser; o complexo de Narciso do homem, tão falível e seduzível pelo poder de tornar-se um demiurgo.

Ensina Claude Tresmontant[i] que o substantivo latim de religio vem etimologicamente do verbo relegere, o qual significa revisar, reunir novamente o pensamento, ou ter uma atenção escrupulosa. A quê? À ontológica realidade normativa da vida humana geneticamente codificada nela, expressa por símbolos existenciais que criam uma cosmovisão específica a ser traduzida por um modo de representação e generalização da ordem via chave interpretativa transcendental. Ou seja, a ordem sagrada, ao descobrir o homem e o cosmos, estabelece o referencial absoluto para o mapa da vida, sendo este traduzido na ordem social e mundana. Quem somos é onde estamos na hierarquia deste mapa vertical à autoridade (v.i.a), irreversivelmente riscado pela biográfica trajetória de nossos atos, sempre pautados por escolhas morais, quer transgressivas quer virtuosas. Em se tratando da mais nefasta variante de religião política, o Comunismo, sua raiz é o singular monoteísmo Hebreu e seu derivado imediato, o Cristianismo. Diferencia-se das religiões pagãs no contexto de seu surgimento: ao invés de um mundo povoado por deuses e homens, há uma Causa primeira e única que criou a realidade da qual participamos. Sendo a realidade da espécie humana normativa e ontológica, cuja potencialidade está geneticamente codificada em cada membro, é perfeitamente possível existir uma moral laica ou pagã dado que latente, atesta Tresmontant. A singularidade Hebraica reside, contudo, no salto no ser em que há uma revelação do Verbo quanto ao propósito da Criação. A verdade revelada significa a progressiva comunicação histórica por intermédio de um filo (os Hebreus) acerca a finalidade da existência.[ii] Nela há a iluminação acerca o aspecto inacabado da criação da vida humana (portanto aberta à evolução) que facultará a programação de um novo homem. Nessa perspectiva somente Deus, por intermédio da ação na história, pode nos revelar sobre as possibilidades futuras: o telos, da qual não temos capacidade de desvendar sozinhos.

Religiões verdadeiras, em síntese, não são ficções abstratas ou secreções epifenômicas de estágios tecnológicos da divisão do trabalho; são eventos de descoberta da ordem no cosmos e no ser, relatados por intermédio de simbolismo mito-poético prenhes de sentido e para tanto infinitamente criadoras e germinativas assim como o transcendente ao qual se orientam; exprimem um nexo de sentido, cultura, e uma gramática da ação humana (a ética) ancorada nas distintas dimensões da realidade da qual participamos, daí o conceito de fé – tão solapado na era Moderna. Explica Tresmontant que a fé é a certeza objetiva da inteligência na verdade ou a certeza objetiva da verdade a partir da inteligência. A corrupção integral do conceito veio quando foi equalizado por Immanuel Kant à crença.  O conceito hebraico de émounah foi traduzido em grego como pistis e em latim por fides (fé), os três significam o mesmo pois vêm em conjunção com Emet, a verdade. Pois bem, a catástrofe do pensamento Kantiano reside justamente em dissociar a inteligência da verdade e de substituir o saber e inteligência pela crença (subjetiva). Neste sentido as proposições e questões metafísicas (as quais estabelecem uma cosmovisão) são desprovidas de sentido: perde-se o Norte da bússola moral. O elo conectivo com a realidade é substituído pelo apriorismo conceitual puro a elucubrar que a natureza é um caos desprovido de informação, portanto condenando a inteligência humana a não mais responder às questões que se põem a ela, prendendo-a num neurótico domínio de aparências da qual descreve mas não compreende.[iii] Daí para a morte do transcendente é um passo; desta hecatombe ao pulo Prometéico de deificar o homem ou a História: dois passos.

Desçamos ao inferno brasileiro. Quais são as características visíveis da religião política numa organização criminosa de cariz leninista totalitário como o PT, capitaneada pelo Lula? Seguindo a tipologia do Romeno Vladimir Tismăneanu[iv] ele é mnemófobo, pois tem hostilidade e aversão diante da recordação (anamnese), logo do legado histórico e da tradição. A deificação da História é a chave interpretativa que ajuda a desvendar a monumental inversão de ordem perpetrada por Marx. Já na Ideologia Alemã consegue a ginástica filosófica em inverter, com seu materialismo histórico, a ordem do ser dando concreção e agência à história, precipitando-se na sociedade e esta, parindo um autômato alienado com decalque de homem: morre a consciência concreta. Nele a ordem sagrada (religião), o sistema ético, a metafísica, tudo não passa de epifenômeno, fantasmas cerebrinos “sublimados” pelo processo vital material. Infamemente escreve: não é a consciência que determina o processo vital, mas sim o inverso.[v] Liberdade e autodeterminação são ilusões derivadas das etapas da divisão do trabalho e do nível tecnológico, tudo dependendo do miasma circunstancial que tal sopa sociológica fermente. Desvendar a chave da História confere aos falsos taumaturgos que enxergaram a verdade um conhecimento especial que deve ser transmitido:  o mundo é mal e seus agentes nos oprimem. O futuro, portanto, é não só apodictamente conhecível como inevitável. Já o passado, em eterna mutação, sempre manipulado ao sabor das necessidades e justificativas ideológicas. Um rápido exemplo consiste na orwellianamente nomeada Comissão da Verdade e do sempiterno Mito de 64, empregado como narrativa útil para torrar aproximados R$300 milhões com bolsa-anistia. Mais caro à nação, o criminoso e deliberado descaso da UFRJ com o patrimônio histórico sob sua tutela, cujos responsáveis eram filiados ao PSol e demais agremiações comunistas.

O comunismo também é noofóbico, pois detesta o homem interior, o espírito (noûs), buscando sempre refundar o homem à sua imagem e dessemelhança. Inexistindo uma estrela polar que sinalize a eternidade do homem, sendo a moral relativa e circunstancial, como veremos, o homem e a sociedade são vistos como tabula rasa prontos para a instauração de uma utopia terrena. Nos regimes totalitários, tentou-se demiurgicamente criar um novo homem, o novyi chelovek que, arquitetado tal como as cidades planejadas, abreviaria a ponte entre a luminosa sociedade futura e o imperfeito presente. Sucede que as religiões verdadeiras reconhecem o barro do qual é feito o homem e que sua via positiva é interna e voluntária. Richard Overy bem explana como uma sanitária mentalidade materialista tentava desenvolver sociologicamente na União Soviética tal homo sovieticus solícito, higiênico, equilibrado e superior aos decadentes burgueses.[vi] Como argumenta Paul Edward Gottfried, sucede que nas correntes pós-marxistas, cujo único elo com o marxismo é o ódio existencial à realidade e à civilização Cristã (não mais rezando fidelidade ao construto teórico marxista) surge a vontade terapêutica de administrar a liberdade por uma engenharia social que “eduque” e leve o novo homem à um projeto de emancipação radical da realidade, para tanto recaindo em Segundas Realidades descritas por Eric Voegelin e Heimito von Doderer. Não surpreende, portanto, a ascensão da ideologia de gênero, políticas de identidades, “empoderamento” feminino e irrestrita migração ao demos hospedeiro de modo a obliterá-lo num ódio Edipiano civilizacional. Sucede que na positivação e absolutização de direitos existe um oculto e correlato dever por parte do Estado Terapêutico e seus agentes burrocráticos em cumprir tal promessa legalizada; cresce o aparato estatal, morre o homem interno.[vii] A tudo se sanitiza numa novilíngua cuja sintaxe é a do dissenso, cuja gramática é a do desacordo com a realidade. Quem resta então, senão ao Partido e ao Estado Terapêutico a conjugarem o diabólico verbo? Diabolos, lembremos, é aquele que separa pela cizânia.

Por fim, tal radicalismo é axiófobo por buscar ativamente destruir um sistema ético absoluto (transcendente), para tanto buscando substituí-lo por algo o qual ainda que esteja factual e ontologicamente errado deve sê-lo politicamente correto. Overy relembra-nos que os regimes totalitários tinham a convicção de que as normas morais nem eram universais nem naturais. A negação de sua patente ontologia transcendental era e é o cerne do radicalismo.[viii] Por esse subterfúgio legitimavam a ação violenta na política. Bem aponta o Romeno,

O conceito de Lênin acerca a moralidade partia de um princípio formulado pelo revolucionário russo do século XIX, Serghei Netchaiev, em O catecismo revolucionário: “É moral tudo o que contribui para o triunfo da revolução. Imoral e criminoso é tudo o que se coloca em seu caminho”. Em consequência, o leninismo era baseado numa “racionalidade do escopo” (T. H. Rigby). Pressupunha uma concepção política radicalmente utilitária e transformista que se concretizasse, no final, na divinização de um partido/estado mítico com direito de vida e de morte sobre seus súditos. Tismăneanu, p.33

 

Do Corpo e Alma do Estado Brasileiro.

 

Onde se encarna tal verbo profano, de ímpeto prometéico? O modelo efetivo, e não formal, de Estado que se desenvolveu no Brasil no século XX é o oligárquico socialista que forma aquilo que Raymundo Faoro chama de estamento político-burocrático[ix]. O político, o qual não é monolítico mas pretende a homogeneidade, tenta galgar uma autonomia perante os súditos, que se manifesta com objetivos próprios, organizando a nação a partir de uma unidade centralizadora e desenvolvendo mecanismos intervencionistas de controle e regulamentação calibrado a seus interesses (Faoro:806) ao passo que uma imensa e tutelar casta aristocrático-administrativa as implementa e executa. O socialismo oligárquico brasileiro desde Vargas conseguiu inverter a ordem de precedência entre os direitos fundamentais e os adquiridos ao fabricar os referidos direitos à alimentação, saúde, a moradia, ao emprego, a educação, ao trabalho, a maternidade, a greve, ao repouso, à assistência social, aos sindicatos, ao lazer, etc. criando com isso toda uma estrutura tecno-burrocrática de ministérios, autarquias, departamentos de Estado custeados pelos crescentes e asfixiantes tributos, taxas e “contribuições” (aproximados 63 se não me engano)[x]. Positiva-se, assim, os desejos humanos (sempre ilimitados); terceiriza-se, desse modo, o escopo de responsabilidades que constituem a vida de um homem livre. Partido político normal, nesta conjuntura, é fisiológico e patrimonialista, despontando o PMDB como a maior arregimentação desta vertente. Tal Estado estava pronto para a chegada ao poder de um partido revolucionário.

 

Do Cavalo de Tróia Comunista

 

Passemos agora às estruturas que veiculam as idéias dos dois antagonistas na conjuntura nacional. Como projeto demiúrgico de patologia universal cujo bem supremo é o diáfano “bem-estar da sociedade”, o Comunismo tenta aplicar para todos uma refundação da realidade política, econômica, social e cultural sob a batuta de um elemento místico infalível, irreversível e inevitável: o Partido[xi]. A ética comunista ou revolucionária, neste caso, é aquela que auxilie a avançar a realização e consolidação do projeto revolucionário; não sendo absoluta, sempre será opaca e protéica.[xii] O Partido nunca erra, como apontou Arthur Koestler,

“The Party can never be mistaken,” said Rubashov. “You and I can make a mistake. Not the Party. The Party, comrade, is more than you and I and a thousand others like you and I. The Party is the embodiment of the revolutionary idea in history. History knows no scruples and no hesitation. Inert and unerring, she flows towards her goal. At every bend in her course she leaves the mud which she carries and the corpses of the drowned. History knows her way. She makes no mistakes. He who has no absolute faith in History does not belong in the Party’s ranks.” Koestler, Darkness at Noon p.44

            Incapaz de construir uma via positiva, as religiões políticas jazem num ciclo vicioso de via negativa.  Reflitamos se o PT não se encaixa nessa tipologia, portanto uma organização revolucionária que nunca foi de esquerda ou direita. Os termos anacrônicos se referem às divergências políticas dentro de um regime liberal-democrático onde as regras do jogo são respeitadas e entendidas como um fim em si mesmo: em suma, apontam mais para filosofias políticas racionalistas (ótica emancipadora abstrata) com prescrição centralizadora ou conservadoras (enfoque realista e reformista) com prescrição descentralizadora. Eleição "democrática" para movimentos revolucionários somente funcionam quando em minoria tática e quando ganham: são uma via de mão única. Sendo uma religião política, portanto uma deformação, possuem uma visão maniqueísta da realidade e de seus oponentes. Logo, a violência como ferramenta de ação legítima é sacralizada e necessária para eles. Se são axiófobos, se desprezam a moral dita burguesa (vistos como opressores e inevitáveis inimigos), inexistirá pudores em usar da violência para atingir seus objetivos políticos, desde que seja para a causa maior: o futuro, sítio eterno do tribunal que os julgará e cujo segredo já desvendaram.

José Antônio Giusti Tavares[xiii] bem descrevera há dez anos que o partido é uma quadrilha de totalitarismo tardio. Percebam que sua arregimentação formal, como partido político anti-constitucional e anti-republicano, é uma tática acomodação ao passo que sua substância é radicalmente oposta aos princípios e valores compactuados pela constituição de 1988 (ela mesma socialista), cujo modelo de Estado maximalista já vimos. Reitero que o PT, cuja substância organizacional é Marxista-Leninista com ação de guerra cultural (kulturkampf) Gramsciana, conseguiu ao longo de três décadas bloquear a existência legítima do discurso político adversário, tornando-o anátema. Percebemos pontualmente isto nos documentos oficiais quer do PT,

É urgente construir hegemonia na sociedade, promover reformas estruturais, com destaque para a reforma política e a democratização da mídia. Para tanto, antes de tudo é preciso dialogar com o povo, condição vital para um partido de trabalhadores. Resolução Política do PT publicada logo após a fraude eletiva em 2014, Pg3 grifo nosso

As eleições de 2014 reafirmaram a validade de uma ideia que vem desde os anos 1980: para transformar o Brasil, é preciso combinar ação institucional, mobilização social e revolução cultural. Pg3, grifo nosso.

Quer na fatídica declaração, com sua idiossincrática sintaxe e síncope, do réu convicto Luiz Inácio, um dos pais fundadores do Foro de São Paulo no 15º aniversário desta organização, a 2 de Julho de 2005,

E eu queria começar com uma visão que eu tenho do Foro de São Paulo. Eu que, junto com alguns companheiros e companheiras aqui, fundei esta instância de participação democrática da esquerda da América Latina, precisei chegar à Presidência da República para descobrir o quanto foi importante termos criado o Foro de São Paulo. [...] Foi assim que nós pudemos atuar junto a outros países com os nossos companheiros do movimento social, dos partidos daqueles países, do movimento sindical, sempre utilizando a relação construída no Foro de São Paulo para que pudéssemos conversar sem que parecesse e sem que as pessoas entendessem qualquer interferência política. Foi assim que surgiu a nossa convicção de que era preciso fazer com que a integração da América Latina deixasse de ser um discurso feito por todos aqueles que, em algum momento, se candidataram a alguma coisa, para se tornar uma política concreta e real de ação dos governantes. Foi assim que nós assistimos a (sic) evolução política no nosso continente. P.2 do discurso, baixado no site da secretaria de imprensa e divulgação da Presidência da República. Grifo nosso

Quer no caderno de Teses do 5º Congresso nacional do PT (11 a 13 de junho de 2015), donde vemos as observações,

“9. A terceira tarefa é mudar nossa estratégia. [...] Para isto, precisamos de uma aliança estratégica com as forças democrático-populares, com a esquerda política e social. Precisamos, também, combinar luta institucional, luta social e luta cultural. Recuperar o apoio ativo da maioria da classe trabalhadora, ganhar para nosso lado parte dos setores médios que hoje estão na oposição, dividir e neutralizar a burguesia, isolando e derrotando o grande capital transnacional-financeiro. Isso implica abandonar a conciliação de classe com nossos inimigos.” Pg3 “Um Partido para Tempos de Guerra” Guerra!? Grifo nosso

Agora questionem se em cada um desses pontos que tipificam movimentos radicais se encontram refletidos no Bolsonaro ou no veículo que o carrega (o nanico PSL)? E se perguntem sinceramente, independentemente da preferência ou não do estilo e trejeitos do candidato, que por sinal foi o único a capturar o pulso de frustração dos brasileiros perante a realidade abissal fruto de 25 anos de socialismo no país, se defende os seguintes fatores: a) uma ideologia revolucionária que pretenda refundar o país à imagem e dessemelhança de um “socialismo que ainda não sabemos”; b) se pretende refundar o homem num novo molde de homo brasiliensis macunaímico que finalmente trará ao plano terreno o sucesso da utopia socialista tal qual se passa na Venezuela; c) se vem de uma organização cujo horizonte de consciência está impregnado por uma falsa religião; d) se busca anabolizar as já adiposas camadas interventoras do Estado megatério para renovar a sobrevivência do estamento político-burocrático às custas da população economicamente ativa que efetivamente produz riqueza no país; e) se, ao contrário dessas religiões seculares, busca encarnar um messianismo tropical centrado numa autoridade que encarne a mística do Partido; f) se, no ódio ao status quo e à herança da civilização Cristã, busca aliar-se a movimentos marginais para sempre pressionar formal e informalmente por mudanças indesejadas pela maioria da população; g) se busca aumentar o Estado Terapêutico por pautas gatilho como a “afirmação de novos direitos” fundamentais?

Nada do total cenário de colapso em que nos encontramos foi acidental, tendo sido, outrossim, planejado.  A economia é a última pedra de caixa, como sempre, dos movimentos radicais pois não passa de ferramenta discursiva de alcance ao poder de fato. Ao largo, passo e a galope tratam, entretanto, de centrar a ação comunista na infiltração e subversão dos nexos de sentido (cultura) que facultem o bom funcionamento de uma economia de mercado. Isso se dá pela estratégia de guerra cultural (kulturkampf, termo dos primos fascistas) donde Gramsci elege novo Príncipe Maquiavélico o Partido. Ele é que articula a lenta marcha da sociedade de modo que ela aceite imperceptivelmente o rumo ao Comunismo. Daí observarmos o seguinte deste Cavalo de Tróia concebido para locupletar as falhas do Estado oligárquico socialista brasileiro. Seu método tripartite consistiu em: 1) mobilizar a margem da sociedade perenemente, de baixo para cima, criando as militâncias políticas (MST e MTST, por exemplo) que, ao contrário daqueles que se manifestaram aos domingos entre 2013-2016, vivem a revolução 24h por dia e 365 dias por ano; 2) mobilizar-se de dentro para fora ao infiltrar-se e ocupar espaços nas instituições da sociedade civil. A segurança pública faliu. Acidente? Não, o Movimento pelo Direito Alternativo e o garantismo penal instauraram de propósito uma doutrina jurídica marxista que inverte a lógica penal tornando a vítima em agressor e vice-versa neste país aliada com o ilegal, ilegítimo, ineficaz e imoral desarmamento dos civis acrescido ao deliberado escamotear do aparato policial e prisional. A saúde faliu? Culpa do Movimento da Reforma Sanitária Brasileira (MRSB), do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), da Associação Brasileira de Economia da Saúde (Abres) e o Movimento anti-Manicomial (pela Reforma Psiquiátrica), os quais deram os pressupostos ideológicos de formatação do SUS, sistema universal de saúde pública, e do viés anti-mercado da ANS e ANVISA.[xiv] E a educação? O MEC, estabelecido por Getúlio, é deliberadamente feito para promover engenharia social e a imbecilização do eleitorado. O sistema público de ensino erra no método (tanto de alfabetização quanto de pedagogia Paulo Freireana), comprovado nos inúmeros resultados medíocres do PISA e no acúmulo de funções, desde a concepção curricular,  fiscalização, gestão patrimonial e execução da atividade-fim. Em suma, existe primeiramente para sustentar os sindicatos e apadrinhados políticos que orbitam esta constelação da mediocridade, para depois fazer indução comportamental e multiplicar analfabetismo funcional via Base Nacional Comum Curricular. Ocuparam tais instituições de ensino (principalmente as escolas primárias e secundárias), as redações de jornal, os órgãos e autarquias das esferas governamentais (federal, estadual e municipal), nossos monopolistas e corporativistas sindicatos, fundos de pensão e estatais. Por fim, ocuparam a jóia da coroa, o Executivo Federal de cima para baixo, o qual é o golpe-branco final, a última estacada na substância republicana em si e a gradativa instauração da democracia tornada numa oclocracia (tirania da maioria) ou populismo lulopetista. Já ocupando o cume da instituição, o partido-príncipe fecha o curto-circuito da democracia ao aproveitar-se do poder legal do Estado para subvertê-lo aos poucos. Como não comungam de nossa vil moral e princípios não há vergonha ou conflito em tentar duas vezes um golpe branco via cooptação do Legislativo (Mensalão e Petrolão) ou por decreto (MP-8243) às vésperas dos característicos festivais de pão-e-circo (copa de 2014) que prenunciaram a queda do Império Romano.

Se haverdes algum sentido dessa síndrome de problemas concluireis que não há simetria temerosa entre as duas figuras e o que simbolizam: há, na verdade, uma assimetria abissal entre uma maioria desorganizada que se levanta de um torpor, de tão anestesiada e combalida, e uma minoria extremamente bem organizada, de arregimentação centralista militar e alta capilaridade, que sequestrou e embrenhou-se, Troianamente, nas frágeis instituições do já esclerótico Estado brasileiro. Não senhores, se há simetria análoga, é a de David contra Golias.

 

 

 

Referências

 

[i] Tresmontant, Claude. Le Bon et le Mauvais : Christianisme et Politique. Paris : François-Xavier de Guibert, 1996.

[ii] O filo é expresso por ben Adam (filho de Adão), o qual não é sujeito, mas sim homem em sentido amplo.

[iii] « C’est la corruption intregále, irremediáble du concept hébreu émounah, traduction grecque pistis, traduction latine fides, qui signifiait : la certitude objective de l’intelligence dans la vérité, ou la certitude objetive de la vérité par l’intelligence. Emet, en hébreu, la vérité. La dissociation entre l’intelligence et la vérité, la substituition du croire au sauvoir et à l’intelligence, c’est la catastrophe qui a ravagé la pensée chrétienne depuis la publication de la Critique de la Raison pure. [...] Les propositions métaphysiques sont dépourvues de sens. Les questions métaphysiques sont dépourvues de sens. L’intelligence ne peut pas répondre aux questions qu’elle se pose. L’intelligence humaine est condamnée à rester dans le domaine des apparences et à décrire le donné sans chercher à le comprendre. » Tresmontant, p.64.

[iv] Tismăneanu, Vladimir; Fonseca, Elpídio Mário Dantas [trad.]. Do Comunismo – o destino de uma religião política. Campinas: Vide Editorial, 2015.

[v] “The phantoms formed in the brains of men are also, necessarily, sublimates of their material life-process, which is empirically verifiable and bound to material premises. Morality, religion, metaphysics, and all the rest of ideology as well as the forms of consciousness corresponding to these, thus no longer retain the semblance of independence. […]. It is not consciousness that determines life, but life that determines consciousness.” Marx, German Ideology, p.42. Marx, Karl; Engels, Friedrich. The German Ideology, Great Books in Philosophy. Amherst, NY: Prometheus Books, 1998.

[vi] “Rather than trying to draw out the innate, the primitive and the instinctive, Soviet society sought to restrain these impulses by constructing a social environment that would encourage a programme of personal development that was balanced, healthy and civilized. The ideological conviction that deviancy, sexual transgression, crime and poor health were socially induced meant that welfare and health policy should, in the words of a Soviet medical official, be primarily concerned with ‘studying and construction social life’. There was a powerful imperative in Bolshevism to use science to mould the revolutionary future.” Overy, Richard. The Dictators – Hitler’s Germany, Stalin’s Russia. New York: W.W. Norton & Company, 2004.

[vii] Gottfried, Paul Edward. The Strange Death of Marxism – the European Left in the New Millenium. Columbia, MO: University of Missouri Press, 2005. “Although not committed to the welfare-state anti-Communism of the American neoconservatives and less than enthusiastic about their scheme for an American imperial mission to ‘spread democratic values’, the European Left does accept the same core vision, a modified form of capitalism as the icebreaker for a new global society, including the empowerment of women, support for generous immigration policies, and the movement toward transnational political identities.” Gottfried, p.125.

[viii] “Both systems shared the conviction that moral norms are not universal or natural or the product of divine revelation. The moral universe of both dictatorships was founded not upon absolute moral values, but on relative values derived from particular historical circumstances. The only absolute reality the two systems acknowledged was nature herself.” Overy, p.266

[ix] Explica o autor, “A comunidade política conduz, comanda, supervisiona os negócios, como negócios privados seus, na origem, como negócios públicos depois, em linhas que se demarcam gradualmente. O súdito, a sociedade, se compreendem no âmbito de um aparelhamento a explorar, a manipular, a tosquiar nos casos extremos. Dessa realidade se projeta, em florescimento natural, a forma de poder, institucionalizada num tipo de domínio: o patrimonialismo, cuja legitimidade assenta no tradicionalismo — assim é porque sempre foi. [...]. Característico principal, o de maior relevância econômica e cultural, será o do predomínio, junto ao foco superior de poder, do quadro administrativo, o estamento que, de aristocrático, se burocratiza (cap. III, 3) progressivamente, em mudança de acomodação e não estrutural.” Pp 799;803Faoro, Raymundo.

[x] vide Zarzana, Dávio Antônio Prado. O País dos Impostos. São Paulo: Editora Saraiva, 2010. Também, “Na contramão do mundo, Brasil tributa mais o consumo”, reportagem do IBPT, 28/06/2016 acessada em 14/09/2018, disponível em < https://ibpt.com.br/noticia/2489/Na-contramao-do-mundo-Brasil-tributa-mais-o-consumo >.

[xi] Decerto que é a inovação Leninista, em Marx era a classe revolucionária a deter tal poder “criador”, demiúrgico portanto.

[xii] “Our ethics are an instrument for destroying the old society of exploiters; a struggle for the consolidation and the realization of Communism is the basis of Communist ethics.” V. Lenin, Collected Works, XXVI

[xiii] Tavares, José Antônio Giusti (org.). Totalitarismo Tardio: o Caso do PT. Porto Alegre: Editora Mercado Aberto, 2000.

[xiv]Se exagero leiam as palavras de um dos expoentes dessa corrente, “No desenvolvimento do processo da RSB fo­ram acionadas três vias estratégicas: a legislativo -parlamentar, a técnico-institucional e a sociocomunitária. Presentemente, diante das limitações dos partidos e do protagonismo dos movimentos sociais, a busca da hegemonia político-cultural e a luta pela radicalização da democracia implicam a construção de equivalências entre agendas e sujeitos coletivos, para além da contradição ca­pital-trabalho. Assim, a atuação do Cebes desde a sua refundação em 2006 e, especialmente, o seu envolvimento nas Jornadas de Junho e nas frentes populares depois do Golpe de 2016 recomenda a exploração de outras estratégias e táticas no pro­cesso da RSB em defesa da democracia, do SUS e dos direitos sociais.” Pp.1726-7. Silva Paim, Jairnilson. “O Sistema Único de Saúde (SUS) aos 30 anos. Ciência e Saúde Coletiva, n.23 (6):1723-1728, 2018.