24/11/2012

STFHá algum tempo não se fala em outra coisa nesta terra descoberta por Cabral que não as sessões do STF para julgar o chamado “mensalão”. Ministros antes desconhecidos do grande público de uma hora para outra se tornaram figuras populares (caso tenham sido firmes na condenação da corrupção) ou impopulares (em caso contrário). E muita gente, ao tomar conhecimento de que o réu Fulano ou Beltrano foi condenado a severa pena, vibra como se o seu time de futebol tivesse acabado de conquistar um título importante.

 

 

No entanto - e para ficarmos nessa analogia com o “velho e violento esporte bretão” - é indispensável frisarmos que as referidas condenações representam, sem dúvida, uma bela vitória, mas que o almejado título – o campeonato da ética – está longe de ser alcançado. Para apoiar essa atitude de prudência, basta citarmos que, no início desta semana, outro réu acusado de envolvimento em outro escândalo de corrupção foi colocado em liberdade, ou que aquele deputado relator de um terceiro processo indiciou apenas um ex-governador do partido de oposição, deixando de fora um ex-governador de seu partido...

 É evidente que quem quer que preze os valores éticos deve alegrar-se ao ver que corruptos de alto escalão estão sendo condenados à prisão, mas a busca por uma sociedade livre e virtuosa deve ir muito além dessas condenações pontuais: ela deve necessariamente passar por uma permanente vigilância, por parte de quem preza a ética, para que a punição a casos de corrupção - política ou não - transforme-se em regra e não em uma simples e solitária exceção!

 É importante também que se valorize a percepção de que não são apenas os grandes escândalos como o “mensalão”, que envolveram substanciais somas de dinheiro, que ressumbram atos de corrupção, mas também aqueles aparentemente pequenos atos contrários à ética e que importam valores despiciendos. Com efeito, a corrupção ativa do funcionário público que aceita cinquenta reais para permitir que alguém passe a frente dos demais em uma fila de atendimento, assim como o corruptor que lhe deu esse dinheiro são atos tão errados do ponto de vista moral quanto o do ministro ou senador que aceita duzentos mil reais de uma empresa para ajudá-la a obter uma linha de crédito subsidiado oficial! Em outras palavras, tanto o ladrão de galinhas quanto o de gabinete em Brasília, são – ambos – ladrões!

 Fica uma pergunta para reflexão: quantos desses que no momento vibram de alegria com a condenação dos “mensaleiros” não agiriam da mesma forma que eles, caso coupassem posições semelhantes e fossem tentados pelo mesmo tipo de “incentivos”? 

Para encerrar, temos que ter em mente que o objetivo das pessoas de bem deve assentar-se no fato – triste, é verdade, mas inelutável – de que sempre vai existir corrupção, mas que esta só poderá ser minimizada quando, primeiro, os valores morais forem valorizados, não apenas nas igrejas, mas principalmente no dia a dia das ruas, passando pelos programas de televisão; segundo, quando as punições passarem a ser regra; terceiro, quando o estado (que, pedindo data vênia à gramática, grafo sempre com minúscula), bem como suas esferas de influência, for reduzido drasticamente ao estritamente essencial e; por fim, quando o respeito ao princípio da subsidiariedade impedir toda e qualquer concentração de poder, já que o poder é amigo íntimo da corrupção.

Por isso, vamos comemorar, sim, a condenação de corruptos ilustres, mas não vamos ingenuamente crer que a corrupção foi, enfim, erradicada. O julgamento representa apenas um alento, um tênue fio de esperança e não mais do que isso. Só o tempo dirá se ele será o que os cidadãos de bem almejam, algo como uma dobradiça que abra a porta para um país novo, livre do flagelo da corrupção, ou se será apenas...mais um julgamento, como tantos outros.