27/11/2012

poaEm setembro de 2009, em Teresópolis, em um Colóquio do Liberty Fund em parceria com o Instituto Liberal, aconteceu um fato aparentemente corriqueiro, mas que mudou minha vida profissional a ponto de hoje eu poder dividi-la em ADF e DDF – antes e depois daquele fato!

Naquele encontro fui apresentado por Rodrigo Constantino ao presidente do Instituto Mises Brasil, Helio Beltrão. Até aquele dia só ouvira falar vagamente do IMB, pois ao indicar leituras do Mises Institute a alguns alunos meus da UERJ que não dominavam o inglês, eles acabaram descobrindo o site do instituto. Imediatamente surgiu uma empatia entre eu e Helio, que nos tornou quase instantaneamente amigos de longa data. Mas não quero aqui escrever em tom pessoal, por isso vou deixar meu amigo sossegado (até porque, sendo torcedor do Flamengo, ele deve andar um tanto triste) e escrever sobre sua maravilhosa obra, o IMB. E sobre como ela vem marcando minha trajetória profissional.

 

ADF

Como já escrevi em artigos e deixei gravado em podcast que estão na página do instituto, por volta do final dos anos 80 eu vinha de uma formação essencialmente monetarista na Escola de Pós-Graduação em Economia da FGV carioca, naquele tempo quase que uma filial da Universidade de Chicago. Foi quando meu ex-professor, o saudoso Og Francisco Leme, então diretor do Instituto Liberal do Rio, me passou o livro Ação Humana e me recomendou sua leitura. Ao folheá-lo, senti falta de minhas então amigas, as equações, de meus parceiros, os gráficos e de minhas companheiras, as regressões, mas, lá pela página 50, eu já era um austríaco, tamanha a genialidade do autor daquele livro de cerca de mil páginas, Ludwig von Mises! A partir dali passei a devorar a literatura da Escola Austríaca com avidez e a cada livro ou artigo que lia mais me encantava com o método, a lógica irrepreensível de seus argumentos e deduções, a interdisciplinaridade e, sobretudo, o realismo dessa Escola.

Anos depois, em 1995, publiquei Economia e Liberdade: a Escola Austríaca e a Economia Brasileira, o primeiro livro escrito por um brasileiro sobre o assunto. Nesse ínterim, em 1991, fui aprovado em concurso para o Departamento de Análise Econômica da UERJ (minha dissertação sobre Expectativas Racionais tinha cerca de 30 páginas, escritas em pouco mais de uma hora, fato que hoje me faz rir) e comecei a lecionar, além de disciplinas corriqueiras como Macroeconomia, Desenvolvimento Econômico e Economia Monetária, também cadeiras austríacas, nos cursos eletivos de Tópicos em Teoria Econômica e Tópicos em Economia Monetária.

Passei então a ser visto – como também já escrevi e gravei - com desconfiança pela maioria de meus pares. O que houve com o Iorio, enlouqueceu? Ou: o que é que deu na cabeça do Bira, pirou? Esses, certamente, eram alguns dos pensamentos que meus ilustres colegas devem ter nutrido a meu respeito. Foi preciso - confesso - ter coragem! Mais tarde, em 1994, fui convidado por um economista oriundo de Chicago que na época era o CEO do Ibmec, a montar o programa para a faculdade de Economia que aquele instituto iria criar. Trabalhei duro, conciliei a mainstream economics com os insights austríacos, montando um programa revolucionário para os padrões habituais, que contemplava ao mesmo tempo as técnicas matemáticas e econométricas de praxe e a interdisplinaridade e o subjetivismo da Escola Austríaca. O famigerado MEC aprovou em primeira instância meu programa e realizamos o primeiro vestibular, no início de 1995. Eu estava feliz, ou metade-feliz...

Mas o referido sujeito, em dada altura, queria que nós visitássemos os cursinhos pré-vestibulares de... Física, porque, segundo seu entendimento, aqueles meninos e meninas, apenas pelo fato de desejarem estudar a ciência de Newton e Einstein, tinham inteligência superior e seriam os melhores economistas... Mais tarde, colocou um colega de Chicago para alterar o programa que eu havia preparado. A primeira providência do “chicaguense” foi retirar as disciplinas austríacas da grade, pois eram, segundo sua avaliação, nada técnicas e apenas “intuitivas”. Se a obtusidade fere, a obtusidade com empáfia mata... E as disciplinas austríacas foram eliminadas da grade, o que me entristeceu profundamente. Estaria lutando em vão? Teria que suportar pelo resto da vida piadinhas de meus colegas, sugerindo ser eu um “direitista radical”? Ou um OVNI? Ou um louco, que de tanto estudar acabou virando o fio?

 É claro que acabei saindo do Ibmec, mas fiquei na UERJ, onde estou até hoje. Com todos os defeitos que nossas universidades públicas possuem, a UERJ pelo menos sempre me deu a liberdade de, em cadeiras eletivas, lecionar matérias do campo de conhecimento de minha preferência. Lá, na Faculdade de Ciências Econômicas, fui eleito vice-diretor em 1996 e diretor em 1999 e, como bom austríaco, jamais persegui colegas com outras visões de mundo, como aqueles que se diziam liberais haviam feito comigo no Ibmec, tanto que o curso de mestrado, implantado em minha gestão, reflete até hoje essa heterogeneidade. Mas ainda me sentia como um avião na cabeceira da pista, pronto para levantar voo e impedido pela torre de controle de fazê-lo. Queria ser só austríaco, mas não podia!

 DDF

Foi quando, conhecendo o presidente do Instituto Mises Brasil, passei a integrar, como responsável pela área acadêmica, a fantástica equipe formada por jovens estudiosos, inteligentes e com o mesmo idealismo que me levara a tomar algumas pancadas de mentes pouco abertas, mas também a levantar-me sempre após cada queda. O IMB mudou então minha vida profissional. Lá eu pude ser, continuo sendo e sempre serei um economista austríaco, sem que ninguém me olhe atravessado e – que bela vitória! – podendo passar a fenomenal tradição dos escolásticos, de Cantillon, Turgot, Bastiat e de Menger para jovens de todo o Brasil e do exterior!

imbDesde aquele encontro de 2009 em Teresóplis, graças ao Instituto Mises, já publiquei dois livros e estou escrevendo um terceiro; publiquei dezenas de artigos em nossa página na internet e, recentemente, um curso para iniciantes em 10 lições; coordenei e lecionei no I Curso de Iniciação à Escola Austríaca, em 2011, em parceria IMB/UERJ, com 60 horas/aula; participei das três edições do Seminário Austríaco (duas em Porto Alegre e a deste ano em São Paulo); estive em seminários austríacos em Viena, Auburn, Buenos Aires e Rosário; inaugurei há cerca de um mês nossas aulas on line, que deverão transformar-se em cursos à distância e na efetivação do sonho da Universidade Mises Brasil; e estou trabalhando com o brilhante Alex Catharino  na criação da primeira revista acadêmica austríaca. O futuro é promissor e nos sorri, pois a Escola Austríaca, além de ser a mais antiga, é a que mais vem crescendo em todo o mundo, com o fracasso da mainstream economics para analisar a crise da economia mundial.

Em suma, hoje, graças ao IMB, eu sou um economista austríaco e posso proclamar isso aos quatro ventos, sem que ninguém se atreva a me colocar na clandestinidade da “intuição”, a dizer que meus argumentos não seriam “racionais”, a murmurar que os físicos são mais inteligentes do que os economistas ou a me comparar – como aquele sujeito arrogante, presunçoso, sem ética e despiciendo que comandava o Ibmec uma vez fez – a um “guarani-de-campinas” ou a um “bragantino”. O IMB, seu presidente e sua equipe me apresentaram a essa maravilhosa fase DDF e hoje posso assegurar que eles me fizeram acreditar que tudo o que fiz valeu a pena.

Obrigado, IMB! E vamos em frente, sempre juntos!