OCCASIONAL PAPER #15: EM DEFESA DA ESCOLA AUSTRÍACA

AustriansO sucesso da Escola Austríaca e o êxito do IMB são inegáveis. Nosso crescimento tem sido forte e consistente, grupos de estudos de jovens são formados em todo o país, as visitas à página do IMB mostram claramente taxas crescentes e cada vez mais os integrantes do Instituto são chamados para palestras, cursos e outras atividades. O IMB acaba de lançar o primeiro número de sua revista acadêmica, a primeira no Brasil dedicada à Escola Austríaca, com estrondoso sucesso e espetacular acolhida. O mesmo vem acontecendo no exterior. Na Itália, onde estive recentemente, constatei que a Escola de Liberalismo da Fondazione Vincenzo Scoppa, presidida por Sandro Scoppa e sediada em Catanzaro, na Calábria, vem obtendo êxitos após êxitos, assim como sua revista Liber@amente. Ainda na Itália, destacam-se os trabalhos de Flavio Felice, Antonio Masala, Lorenzo Infantino e vários outros; em Portugal, o excelente trabalho de José Manuel Moreira e André Azevedo Alves; em Espanha, o Instituto Juan de Mariana, a Universidade Rey Juan Carlos; e Institutos com o nome de Mises vêm se propagando por todo o mundo.

 

unempl_inflComo explicar esse forte crescimento? Podemos apontar alguns motivos: (a) a incapacidade dos modelos econômicos da chamada “mainstream economics”, tanto os de tintas keynesianas como os de sabor monetarista, de explicar a crise que explodiu em 2007; (b) os diagnósticos errados dessas teorias, as keynesianas diagnosticando que a crise foi provocada por insuficiência de demanda e as monetaristas por escassez de moeda; (c) as consequentes terapias equivocadas adotadas, ou seja, de aumentar os gastos públicos e expandir a oferta de moeda, ambos os tratamentos administrados irresponsavelmente ad infinitum; (d) a resistência da crise diante desses “remédios” receitados; (e) a atual insatisfação generalizada com a teoria econômica que vem predominando no mundo acadêmico desde o início dos anos 40; (f) a constatação de que a matemática e a econometria não funcionam quando saímos das universidades e enfrentamos o mundo real. Todos esses fatores contribuíram para recolocar a Escola Austríaca em seu devido e merecido lugar, por ser a única que explicou adequadamente as duas grandes crises do século XX (a de 1918 e a de 1929), bem como a grande crise deste início do século XXI. Sobre o fracasso da “mainstream em explicá-la e a administração errada das terapias, este gráfico, elaborado pelo Fed, por si só é eloquente: gastos públicos não aumentam o emprego e o desemprego é consequência inevitável da inflação, assim como comer demais provoca indigestão!

Era de se esperar, então, que esse crescimento da EA  começasse a despertar ataques vindos de diversas fontes. Em comum a todos eles, um fato: seus autores não têm um conhecimento minimamente aceitável da EA. Alguns chegam a afirmar que somos “ideólogos”, que cultuamos o “deus” Mises em nossa “religião” e outros ataques do gênero. É a famosa falácia ad hominem, em que a carência de conhecimento e de argumentos leva a tentativas de  desqualificação e detratação, do tipo “se você é um misesiano, então, de cara, você está errado”.

A EA não é uma ideologia, é uma ciência! Pode-se naturalmente concordar ou discordar de seus autores, mas para tal é necessário que leiam esses autores... Quando defendemos o mercado livre, estamos cultuando os “deuses” Mises, Menger, Hayek, etc e somos “ideólogos”...Mas quando eles defendem Keynes, Marx ou o Estado,  não estariam também, segundo sua perspectiva, prestando culto a esses pensadores e  burocratas como “deuses”? A resposta deles é: Não! Defender o mercado como um processo e uma ordem espontânea de cooperação voluntária é “religião”, mas defender o Estado é uma qualidade “racional”, que transforma seus defensores magicamente em pessoas acima do bem e do mal, dos erros e acertos. Isso tem um nome: infantilidade!

Outro tipo de ataque vem de pessoas que se dizem católicas, porém não deixam de revelar nas entrelinhas sua condição de defuntos insepultos da heresia conhecida como teologia da libertação, de cunho marcadamente marxista e, portanto, anti-mercado, e que foi desautorizada a falar em nome da Igreja por João Paulo II e pelo então Cardeal Joseph Ratzinger. Segundo esses críticos, a incorporação dos ensinamentos da Escola Austríaca no corpo da chamada Doutrina Social da Igreja (DSI) seria uma “heresia” – vejam só, hereges de verdade acusando os austríacos de “hereges”! - e chegam a negar que os fundamentos da EA remontam aos chamados escolásticos tardios, como mostrei em artigo publicado em três partes nesta página e na do IMB. São simples relatos, mas ao final do terceiro menciono as fontes acadêmicas de onde os extraí. Quanto à DSI, basta ler a Centesimus Annus, de João Paulo II (1991), em comemoração ao centenário da Rerum Novarum de Leão XII (1891), que foi o primeiro documento da DSI. João Paulo II, naquela encíclica, faz uma veemente defesa da liberdade individual e da economia de mercado. Aliás, em todas as demais encíclicas, desde a de Leão XIII, em momento algum pode-se ler qualquer defesa de princípios estatistas e muito menos socialistas. Quando há críticas ao “capitalismo”, são críticas ao capitalismo de Estado, com o que os austríacos também concordam. Queiram ou não esses adeptos da teologia da libertação ocultos (porque não têm autorização nem coragem para assumir o que são), as origens da Escola Austríaca são cristãs e, mais especificamente, católicas! Podemos, por exemplo, citar um dentre tantos pós-escolásticos, Francisco Suarez (1548-1617) que, assim como Juan de Salas 1553-1612) argumentou sobre a impossibilidade de modelos de equilíbrio: “el precio que habrá mañana nel mercado solo Dios lo conosce”. E Juan de Mariana (1536-1624) fez coro com os outros escolásticos: um "preço justo" deve servir de base nas transações comerciais. Este preço era fixado em tempos medievais pelo governo e foi considerado por ele errado exigir mais do que o montante legalmente fixado. Mariana vê, no entanto, que, na prática, nem sempre é possível determinar os preços de forma satisfatória e que se não estão de acordo com a estimativa popular comum (ou seja, com o mercado), eles não podem ser impostos. Para ser justo um preço não deve ser fixado uma vez e para sempre, deve levar em conta várias condições que mudam com a demanda e a oferta dos artigos em questão. Os preços devem, portanto, serem revistos de tempos em tempos e ninguém melhor do que o mercado pode realizar essa tarefa.

Ora, observando como evolveu o pensamento econômico católico desde São Tomás e principalmente com os escolásticos tardios, vemos praticamente todas as características da Escola Austríaca de Economia: subjetivismo, individualismo metodológico, inflação e  ciclos econômicos como fenômenos causados por distúrbios monetários, propriedade privada, mercados como processos, princípio da ação humana, preferências intertemporais, união entre Ética, Política e Economia (interdisciplinaridade), ordens espontâneas, liberdade de preços, livre comércio, informações insuficientes, dispersas e interpretadas subjetivamente e tempo real (não newtoniano).

Para corroborar essa constatação, vemos que todos os princípios, valores e instituições de uma sociedade justa, conforme definida pela DSI, são parte da estrutura econômica, filosófica, legal e moral da EA; os princípios da dignidade da pessoa humana, do bem comum, da solidariedade e da subsidiariedade; os valores da verdade, da liberdade e da justiça e as instituições do estado de Direito, da economia de mercado e da democracia representativa. Mas, para os que se dizem cristãos transportando o féretro da pretensa “teologia” de que são adeptos, os hereges somos nós, os austríacos católicos...

Devo aqui ressaltar que entre os austríacos há católicos, agnósticos, judeus, ateus, protestantes, espíritas e membros de outras religiões. Portanto, as linhas acima não devem ser interpretadas como se a EA seja ligada a qualquer religião, no caso, a católica, mas apenas que suas origens podem ser encontradas nos pós-escolásticos. Como fiz questão de ressalvar no início, a EA é um corpo científico.

Por fim, o terceiro tipo de ataque vem de matemáticos, econometristas, monetaristas, keynesianos e marxistas, todos com a característica que assinalei logo no início: nenhum deles leu seriamente os autores austríacos. Poderiam, mesmo sem os terem lido, ao menos perceberem que a economia é uma ciência da ação humana no campo econômico, assim como o poder nada mais é do que a ação humana no campo da política. Evidentemente, essas características, que são axiomas, limitam bastante a utilização de modelos matemáticos e de previsão, o que leva os proponentes dessa forma equivocada de enxergar o mundo real a resistirem a mudanças, talvez até por questões de sobrevivência, com receio de perderem seus empregos. São pessoas geralmente inteligentes, íntegras e bem intencionadas, mas que permanecem presas a hábitos e à própria formação, o que é perfeitamente compreensível, mas não justificável. E isso os conduz a atacarem a EA como sendo “não científica”. A verdade não está na matemática, nem na econometria e tampouco nos modelos econômicos de equilíbrio parcial ou geral,  mas no mundo real e temos que tentar desvendá-la permanentemente, corrigindo e descartando os erros e contabilizando positivamente os acertos, tal como sugeriu Popper.

Como vemos, nosso trabalho é duro, mas vamos prosseguir propagando o valioso legado intelectual e de correta interpretação do mundo real que as primeiras gerações, desde os protoaustríacos até os atuais, vêm mantendo aceso. E os frutos desse trabalho começam a ser colhidos abundantemente, até mesmo pelas críticas que começam a lançar sobre ele. Mas, acima de tudo, pela adesão de grupos maravilhosos de jovens que vêm se formando em todo o imenso Brasil, cansados da doutrinação intervencionista a que são submetidos desde o ensino básico e em busca da verdade. Não temos nenhuma pretensão de representar a verdade, apenas acreditamos que o método austríaco é mais apropriado para as ciências sociais do que os alternativos. É nesses formidáveis jovens que se concentram nossas melhores esperanças de, como escreveu o presidente do IMB, Helio Beltrão, "não deixarem a peteca cair".