OCCASIONAL PAPER #16 (2ª PARTE): RICHARD CANTILLON (168?-1734)

Teoria monetária

 

essaySua bem sucedida carreira como banqueiro desempenhou papel importante em sua economia monetária, que Hayek considerava sua maior contribuição. Cantillon era um homem de dinheiro que entendeu que a natureza do dinheiro como meio de troca levou à sua evolução para metais preciosos e que os príncipes não podem introduzir dinheiro imaginário ou obterem sucesso quando desvalorizam sua moeda. Um posição firme em sua análise ao estilo austríaco era sua rejeição da abordagem global da teoria quantitativa da moeda ingênua, porque sustentava uma abordagem de processo microeconômica para o estudo da moeda. Mostrou que o tipo de alteração na oferta de moeda e onde essa moeda entra na economia são cruciais para determinar  que  efeitos são gerados.

Em outras palavras, Cantillon antecipou em dois séculos a abordagem austríaca dos ciclos econômicos!

Rejeitou a visão mercantilista de Locke de que a taxa de juros era um fenômeno puramente monetário. Como Mises, ele descobriu que a taxa de juros é um preço baseado nas forças de oferta e demanda no mercado de fundos emprestáveis, e que se o dinheiro novo aumenta a oferta monetária o efeito é reduzir a taxa de juros.
Descreve minuciosamente as forças que causam alterações nas taxas de juros, e mostra como a taxa de juros é um fenômeno normal e importante da economia. Defende os ganhos de altas taxas de juros através da comparação dos lucros e rendas de taxas ainda mais elevadas. Com base na sua descrição das taxas de juros e o que faz com que sejam elevadas, Cantillon ridiculariza a noção de que o governo as deve regular.

 

Teoria dos ciclos econômicos

 

Cantillon construiu uma teoria dos ciclos econômicos bastante semelhante à teoria austríaca, ao analisar as mudanças na oferta de moeda e seus impactos de curto e de longo prazo sobre a economia.. O aumento da oferta de moeda é a fase de crescimento, o início do ciclo. Suas descrições desta fase do ciclo são o que muitos comentaristas têm usado para rotular Cantillon como um mercantilista, porque mais dinheiro é visto como levando a um maior nível de atividade econômica. No entanto, ele apontou veementemente surgem problemas, mais cedo ou mais tarde. O principal gira em torno da inflação dos preços e do colapso da indústria nacional. A lição austríaca de Cantillon é que a política mercantilista é uma conveniência de curto prazo que falha a longo prazo.

Teve a percepção, portanto, de que os efeitos da política monetária são diferentes e caminham em sentidos opostos no curto e no longo prazo. Nisto, além de antecipar os austríacos do século XX, antecipou também os monetaristas, especialmente Milton Friedman e seus discípulos da Escola de Chicago, na segunda metade do mesmo século.

Exatamente como os economistas austríacos modernos, Cantillon rejeitou o objetivo da política mercantilista de aumentar a oferta de dinheiro permanentemente a uma taxa constante, como recomendava Friedman. Percebeu, como Mises duzentos anos depois, que uma dada quantidade de dinheiro, fixa, era suficiente, e que o montante só precisa mudar à medida que a economia muda de um sistema de trocas diretas para um de trocas monetárias, embora houvesse vários fatores que reduzem naturalmente a necessidade de dinheiro, tais como os serviços bancários e um aumento na velocidade com que circula a moeda.

Cantillon mostrou ainda porque o bimetalismo criaria escassez de dinheiro e alertou contra o uso de papel-moeda e os bancos nacionais (estatais, bancos centrais).

É significativo que tenha fechado o Essai com uma acusação a John Law e seu sistema, e esse ataque serve como um aviso de que continua a ser importante e ignorado nos dias atuais:

“É então inquestionável que um banco com a cumplicidade de um ministro é capaz de levantar e apoiar o preço das ações públicas e reduzir a taxa de juros no Estado ao prazer deste ministro, quando as medidas são tomadas de forma discreta, e, assim, pagar a dívida do Estado. Mas esses refinamentos que abrem a porta para fazer grandes fortunas são raramente realizados com o único partido do Estado, e aqueles que participam neles são geralmente corrompidos.O excesso de notas, feitas e emitidas nessas ocasiões, não perturbaa a circulação, porque está sendo usado para a compra e venda de ações que não servem para as despesas dos consumidores e não são transformadas em prata. Mas se algum pânico ou crise imprevista leva os titulares a exigirem prata do Banco estatal, a bomba vai estourar e então se verá que estas são operações perigosas”. [p. 323 da edição em inglês]

Cantillon foi mal interpretado como um mercantilista e teórico do valor objetivo (ou intrínseco), mas na verdade o que fez foi expor os inúmeros erros do mercantilismo e explicar claramente o conceito de custo de oportunidade, o princípio fundamental da teoria econômica. Cantillon e seu Essai são as origens da teoria econômica e sua teoria é claramente consistente com a da Escola Austríaca de nossos dias.

Ainda em sua teoria dos ciclos, Cantillon verificou que a principal entre as forças que provocam desequilíbrios na economia é a manipulação da moeda por parte do governo. Enquanto os mercantilistas geralmente consideravam o dinheiro como fonte de riqueza que poderia ser rentável quando manipulado pelo governo, Cantillon mostrou que o dinheiro, taxas de juros e comércio internacional eram todos "bem regulamentados" e razoavelmente estáveis em seu estado natural (ou seja, sem o intervenciosmo). Além disso, as manipulações por parte dos bancos nacionais e intervenções monetárias dos governos causam instabilidade e levam a distúrbios prejudiciais para a economia. Mostrou que os padrões de consumo e produção foram alterados e a economia acabou prejudicada quando o dinheiro e os juros foram manipulados pelo governo, criando o que hoje chamamos de “efeito Cantillon”. Sua abordagem fornece tanto um caminho metodológico para o estudo de ciclos e uma causa dos ciclos (a intervenção do governo), que foi posteriormente absorvida e elaborada por Ricardo, a Currency School, Wicksell , Mises , Hayek, e a moderna Escola Autríaca.

O “efeito Cantillon” – expressão cunhada por Blaug - é a idéia de que as mudanças nos níveis de preços causadas por aumento da quantidade de dinheiro dependem da forma como o dinheiro novo é injetado na economia e de como  afeta os preços em primeiro lugar. O dinheiro novo, então, espalha-se e altera o nível de preços e a estrutura de preços ou preços relativos Outra maneira de dizer isso é que, embora os preços subam cooforme a quantidade de dinheiro aumenta, ao contrário da teoria quantitativa da moeda ingênua, os preços não sobem proporcionalmente, mas de uma forma complexa que depende de quem recebeu o dinheiro e de como ele foi gasto. Ora, este é um dos pontos centrais da moderna teoria austríaca dos ciclos econômicos. Cantillon foi um austríaco nascido com dois séculos de antecedência!

Além disso, sua abordagem realista para os ciclos econômicos também inclui um insight à la public choice, ou "neo-austríaca" a respeito da natureza e da causa do ciclo, em que o governo manipula o dinheiro e o crédito, não por ignorância, mas para beneficiar determinados grupos. E Cantillon não só nos fornece a causa e os efeitos dos ciclos, mas também a sua cura, que consiste em impedir a intervenção do governo na moeda e no crédito bancário. Esta é uma visão muito importante no mundo de hoje,  dominado pelo controle dos bancos centrais sobre o dinheiro e o credito bancário e acuado com a crise financeira em curso em todo o mundo desde 2007.

Cantillon baseou sua análise na não neutralidade da moeda, mostrando claramente como alterações no estoque de moeda produzem efeitos reais. Começou a sua análise da moeda com sua origem como um meio de troca e, em seguida, mostrou como a circulação de dinheiro ocorre em um modelo de fluxo circular da economia, incluindo o papel da velocidade do dinheiro. Concordou com John Locke e os teóricos quantitativistas que um aumento na quantidade de dinheiro gera um aumento nos preços  - um ponto que ele afirmou que todo mundo concorda -, mas, a partir de uma perspectiva realista, Cantillon mostrou que as mudanças na quantidade de dinheiro não são neutras em termos de produção e consumo e que nem havia qualquer relação numérica confiável entre a quantidade de dinheiro e seu poder de compra.

Antecipando a crítica austríaca à “teoria do helicóptero” despejador de dinheiro, um famoso exemplo de Milton Friedman, ele afirmou: "dobrando a quantidade de dinheiro em um estado os preços dos produtos e mercadorias não serão sempre o dobro" [pp 235/177/7 da edição em inglês]. O impacto depende de onde o dinheiro é injetado na economia e como o novo dinheiro causa um novo rumo no consumo e até mesmo uma nova velocidade de circulação, mas que não é possível dizer exactamente até que ponto. Portanto, a relação proporcional da teoria quantitativa da moeda entre moeda e preços pode não acontecer.

Cantillon mostrou que mudanças na quantidade de moeda podem causar vários tipos diferentes de efeitos reais sobre a produção, o investimento , o consumo e o comércio, ou seja, sobre o setor real da economia, dependendo de quem primeiro recebeu o dinheiro, efeitos esses agora denominados de efeito Cantillon, efeito de injeção ou efeito de primeira ordem. Em seu primeiro exemplo, ele mostrou que o aumento do dinheiro através de ouro doméstico e de mineração de prata levaria ao aumento do consumo por pessoas na indústria de mineração e que levaria os preços dos bens que adquiriram aumentar (por exemplo, carne e bens de luxo) . Empresários e agricultores teriam que adaptar a sua produção para atender ao novo padrão de demanda, de modo que a estrutura de produção teria que se alterar. As pessoas não associadas à indústria de mineração iriam enfrentar preços mais altos e menos bens para consumir e assim haveria também uma mudança na distribuição de renda. Como os preços continuariam a subir, o ouro seria exportado em troca de bens importados e pessoas da população não ligadas à mineração podem até migrar para áreas com salários reais mais elevados. Cantillon demonstra assim que os mercantilistas estavam errados, pois mais dinheiro em circulação pode prejudicar a economia e causar distorções no padrão de produção e nos salários, como nos casos da Espanha e Portugal de seu tempo.

A partir dessa perspectiva de que a moeda não é neutra, Cantillon mostrou que o fluxo de dinheiro terá consequências reais em termos de produção, consumo e distribuição de renda. O efeito líquido sobre a economia é negativo, mas a magnitude normalmente seria pequena e relacionada com o custo de recursos de ouro. O ponto importante salientado por Cantillon é como a produção de ouro muda o consumo, os preços relativos e a estrutura de produção. Mesmo com este simples exemplo podemos ver como Cantillon foi marcadamente diferente dos macroeconomistas modernos, especialmente Frieman e os monetaristas, que defendem o princípio da neutralidade da moeda no longo prazo e concentram assim seus estudos nos efeitos das mudanças no nível de preços, em vez de mudanças nos preços relativos e seu impacto sobre os padrões de produção intra e internacional e sobre consumo.

Outro ponto que nunca é demais ressaltar, mesmo correndo o risco de sermos repetitivos, é que Cantillon percebeu claramente que os efeitos de curto prazo e de longo prazo da moeda sobre o nível de preços e a produção são diferentes, podendo, especialmente os efeitos sobre a produção e sobre todo o setor real da economia, inclusive, ter sentidos contrários.

 

A economia internacional

 

Contrastanto com os debates na mainstream economics sobre os méritos econômicos relativos da guerra e da dívida pública, Cantillon parece bastante "austríaco" sobre estas questões. Era claro que, se os fundos são emprestados pelo governo, só criam uma "facilidade temporária" e não melhoram a economia. Como ele disse, a dívida pública muitas vezes resulta na falência da nação, "chega a um final ruim e é um fogo de palha" [pp. 256/193/79]. Da mesma forma, a aquisição de fundos por meio de obrigações de guerra é problemática e Cantillon simplesmente observou que isso "vai me contentar em dizer que todas as nações que floresceram desta forma não deixaram de cair". [Cantillon, pp 259/195/80].

Baseado em sua análise dos fluxos internacionais de capitais, Cantillon simplesmente demoliu a visão mercantilista da moeda,  demonstrando que as mudanças na quantidade de dinheiro não necessariamente diminuem a taxa de juros. Na verdade, ele pode ser creditado como um dos primeiros economistas a basear  sua análise das taxas de juros na abordagem das preferências temporais! Como ele descreveu, se os aumentos na quantidade de dinheiro vêm para as mãos dos bancos e poupadores, a taxa de juros vai cair, mas se o aumento da quantidade de dinheiro é introduzido pela primeira vez para as mãos dos consumidores, a taxa de juros vai subir na medida em que os empreendedores vão passar a tomar mais empréstimos em uma tentativa de aumentar a sua produção e atender às necessidades de seus consumidores, agora mais ricos. Costuma-se ligar o efeito Cantillon exclusivamente às políticas do banco central, mas  ele analisou os efeitos reais das várias possibilidades diferentes das políticas dos bancos centrais, de novas injeções monetárias.

Para Cantillon, quando o novo dinheiro entra na economia por meio do comércio exterior e os empresários aumentam suas poupanças através de lucros acumulados, o país vai ficar rico . Na sua opinião, as taxas de juros que são movidas para baixo pelo aumento da poupança são uma coisa boa, porque permitem que os empresários coloquem mais pessoas para trabalhar em empregos mais qualificados, na produção de produtos com valor mais alto e, assim, ajudem  a nação a crescer em riqueza. Mas empréstimos para fins de consumo, geralmente para a nobreza e o Estado, aumentam as taxas de juros e resultam em ruína. Cantillon concluiu que os governos não poderiam reduzir as taxas de juros artificialmente sem conseqüências adversas. Após a análise de Locke, ele citou vários casos típicos em que os empresários efetivamente cobravam taxas muito altas de juros, mas as suas práticas foram consideradas legais e razoáveis, mostrando que as leis da usura, ou seja, os controles das taxas de juros pelo Estado, não funcionavam. Em vez de leis de usura, ele recomendou que os mercados devem ser livres para determinar as taxas de juros .

 

Os ciclos são fenômenos reais, porém causados por fatores monetários

 

Cantillon estava quilômetros à frente de seu tempo na compreensão da natureza cíclica da economia. Ele é famoso com justiça por ter sido o primeiro a descrever o ciclo de comércio exterior como consequência de superávits comerciais, que causariam influxos de ouro e preços mais altos, o que por sua vez causaria uma entrada de mercadorias estrangeiras e uma saída de ouro, transformando o excedente em um déficit de comércio. Como o ouro fluiu para o exterior e bens fluiram para o país, os preços internos cairiam e a economia iria voltar em direção a um equilíbrio na balança comercial. Aqui, os príncipes poderiam impedir ou prevenir o declínio econômico retirarando voluntariamente dinheiro da economia, para ser usado em caso de emergência nacional, mas Cantillon sabia que a maioria dos príncipes não iria proceder assim.  Visualizando-os sob a ótica teórica que  hoje é chamada de public choice, ele viu os interesses dos príncipes centralizados em sua própria fama, glória e consumo e Cantillon acreditava que iriam piorar as coisas pelo seu próprio gasto excessivo com bens de luxo. [pp. 245-46/185 -86/76)].

O “ciclo de comércio" de Cantillon tem as características de um fenômeno de longo prazo, com base em trajetórias de longo prazo dos fluxos comerciais, fluxos monetários, produção e consumo.A entrada de capitais em uma nação causa um aumento na tendência de crescimento econômico, seguido por períodos de saída de capitais, o que provoca uma diminuição na tendência da taxa de crescimento. O economista irlandês escreveu que "ele não precisa de um grande número de anos para aumentar a abundância para o ponto mais alto em um estado, menos ainda são necessários para trazê-lo para a pobreza por falta de comércio e fábricas" [pp. 246/187/76]. No entanto , o seu ciclo de comércio foi muito mais longo do que o ciclo de negócios típico, pois os exemplos que ele deu incluem a prosperidade da França de 1646 a 1684, seguido por um declínio que durou de 1685 até pelo menos o tempo em que ele escreveu seu Essai (por volta de 1730) , bem como as alterações de longo prazo similares nas economias dos estados vizinhos. Estes ciclos são muitas vezes gerados pelas decisões políticas do príncipe – tanto o bom como o ruim - e as escolhas econômicas resultantes da população. Atribui o declínio da França, por exemplo, à expulsão dos huguenotes (e a proibição da produção têxtil de algodão por volta 1685). Portanto, embora haja algumas características comuns, o ciclo comercial da Cantillon deve ser visto separadamente do seu ciclo de negócios.

Cantillon, examinado as possíveis causas do ciclo de negócios, apontou várias possíveis, tais como dinheiro, taxas de juros e taxas de câmbio, mas que essas variáveis não eram em si mesmas a causa desses ciclos. Em sua argumentação, sustentava que, assim como os preços dos bens são determinados pela oferta e demanda, da mesma forma as taxas de juros são determinadas pelas forças da oferta e da demanda por crédito. Rejeitou a teoria de subconsumo do ciclo de negócios, como uma confusão de causa e efeito. Admitia que podem existir problemas na área de comércio exterior, mas o comércio é basicamente auto-regulador. As taxas de câmbio entre as nações também não são a causa, como também não são as taxas de câmbio dentro de uma nação para moedas de metais diferentes. Para julgar a relação entre o ouro e a prata o preço de mercado é por si só decisivo: o número de pessoas que precisam de um metal em troca de outro, e daqueles que estão dispostos a fazer essa troca, determina a razão" [pp. 355-69/269-77/109-12].

Nos últimos quatro capítulos da terceira parte do Essai Cantillon analisa mais detidamente o tema do ciclo de negócios. O capítulo cinco examina o tema curioso do "aumento" e "diminuição" de dinheiro. Exemplifica com o rei que ordena que o valor nominal das moedas de prata deva ser reduzido em 1 por cento ao mês por 20 meses, de modo que o valor nominal das moedas cai de cinco para quatro libras (a unidade monetária francesa de conta). Então, o valor de uma moeda de prata de uma onça cai de cinco libras para quatro libras. Cantillon viu este episódio como uma ameaça potencial aos seus princípios econômicos, em que os preços na época pareciam ser definidos pelo valor nominal das moedas em termos de libras, e não pelo peso em prata.

 Mostra, então, que, em resposta ao decreto do rei todos aqueles que devem dinheiro vão se apressar a pagá-lo durante a diminuição, de modo a não perder. Os contratos de empréstimo foram especificados em termos de libras e a taxa de juros nos contratos de empréstimo foi fixada de modo que, como a diminuição aconteceu, seria necessário um aumento do número de moedas de prata para pagar as dívidas . Portanto, as pessoas vão fazer todos os esforços para pagar as dívidas o mais rápido possível . Com dívidas a serem pagas e a diminuição do teor ainda em curso, tornam-se disponíveis fundos emprestáveis a taxas de juros muito baixas, e isso desencadeia um tipo de crescimento econômico. Empreendedores e comerciantes acham que é fácil pedir dinheiro emprestado, o que encoraja os menos capazes e menos acreditados a expandirem suas empresas. Eles tomam empréstimos como lhes apetece, sem juros e com as mercadorias a preços correntes. Os vendedores têm dificuldade em se livrar de sua mercadoria em troca de dinheiro, que deve diminuir em suas mãos em valores nominais. Eles se voltam então para mercadorias estrangeiras e passam a importá-las em quantidades para o consumo de vários anos.

Cantillon argumenta que nas fases iniciais da diminuição promovida pelo Estado a velocidade de circulação aumenta e os preços sobem . Como consequência do aumento dos preços, as exportações caem e mais espécie sai do país. Como a diminuição continua, as pessoas "iluminadas" começam a acumular dinheiro e o rei começa a emprestar muito e, por atrasar pagamentos de dívidas, pensões e outras despesas, ele acumula um grande tesouro de moeda em dinheiro. Com o dinheiro sendo escondido no mercado interno e exportado para pagar importações, a oferta de dinheiro em circulação diminui. A abundância de dinheiro disponível para empréstimos se transforma em uma escassez de dinheiro disponível para a troca. Esta escassez de dinheiro é ruim para os negócios e os comerciantes começam a vender seus produtos a preços de pechincha e muitos são forçados a declarar falência [pp. 384-91/289-95/116-18] . Cantillon mostrou que os resultados completos das intervenções monetárias do rei são benefícios privados para a coroa em detrimento de custos muito maiores impostos à economia. Algo mais moderno do que isso?

A causa desta perturbação monetária e o ciclo de expansão e contração resultantes é a intervenção do governo . O rei estava cheio de dívidas e usou o esquema de diminuição/ aumento para aumentar as receitas reais, mesmo que o efeito global sobre a economia tenha sido negativo. "A mudança no valor nominal de dinheiro tem em todos os tempos sido o efeito de algum desastre ou escassez no Estado, ou da ambição de um príncipe ou de um indivíduo" [pp. 393-94/297/119] . Cantillon claramente não estava escrevendo em um vácuo histórico e após contar vários exemplos históricos de reforma monetária, ele concluiu que tais manipulações "nunca deixaram de causar desordem nos Estados. Importa pouco ou nada o que é o valor nominal da moeda , desde que seja permanente” [pp. 395/297/120]. Se a quantidade de dinheiro se mantivesse estável durante essas manipulações, o Estado não ganharia nem perderia, mas “os indivíduos podem ganhar ou perder com a variação de acordo com os seus compromissos" [pp 396/299/120]. Uma vez que as manipulações cessem e as coisas sigam seu curso natural,  a economia volta ao normal, mas no processo ela inevitavelmente sofre danos significativos.

 

Cantillon e o sistema de reservas fracionárias

 

Sendo um banqueiro, Cantillon percebeu que o sistema de reservas fracionárias dos bancos é um aspecto negativo dos ciclos. Quando depósitos são emprestados a juros o montante emprestado se transforma em aceleração do dinheiro em circulação, mas esse fato também cria "risco e perigo" e os banqueiros "são ou deveriam estar sempre prontos para descontar suas notas quando desejado pelos titulares das contas. Os banqueiros podem ser arruinados se não resgatarem as notas demandadas e, portanto, eles fazem uma regra baseada em sua experiência para manter sempre em mão o suficiente para atender a demanda, e um pouco mais do que a menos." Observou que a maioria dos banqueiros mantinha, pelo menos, metade dos depósitos em reserva, mas que a política de reservas de um banco (geralmente variando de um décimo a dois terços dos depósitos) era específica para cada banco, porque era "naturalmente proporcional à prática e à conduta de seus clientes " [pp. 401-03/303/122].

Os depositantes tendem a ter mais confiança em um banco do Estado e esta confiança, além, naturalmente, das receitas do próprio Estado, permitem a essas instituições financeiras atrairem os maiores depositantes. Esse fato cria uma oportunidade para esses bancos para operarem com uma política de reservas muito baixa, porque os grandes depósitos raramente são retirados em massa. Como exemplo, Cantillon avaliou que o Banco da Inglaterra poderia emitir notas de "uma soma muito grande e de grande utilidade para a circulação quando o montante de meios de pagamento precisa ser acelerado", mas ele adverte que nem sempre é o caso, pois já tinha observvado em outro lugar que há casos em que é melhor para o bem-estar do Estado retardar a circulação do que  acelerá-la.  Na verdade, ele considerava os bancos estatais desnecessários para a cobrança de receitas públicas e duvidava da utilidade desses bancos em um grande reino, porque sua suposta vantagem faz mais mal do que bem:

“Quando o dinheiro circula em maior abundância em um banco do Estado do que entre os seus competidores, um banco estatal faz mais mal do que bem. Uma abundância de dinheiro fictício e imaginário provoca as mesmas desvantagensdo que as provocadas por um aumento de dinheiro em circulação, elevando o preço da terra e do trabalho, ou tornando obras e fábricas mais caras, com o risco de perda subsequente. Mas esta abundância furtiva desaparece na primeira rajada de descrédito e precipita desordem”. [pp. 413/311/125].

Finalmente, ele voltou sua atenção para o fato de que os bancos estatais causam ciclos e bolhas no mercado de ações. Cantillon observou que quando o estoque em uma empresa como a Companhia das Índias Orientais é vendido, as notas eram geralmente aceitas sem necessidade de dinheiro, mas que se esse dinheiro fosse exigido para fazer tais operações, isso "impediria" a circulação, porque os bancos teriam que manter reservas muito maiores, face a possibilidade de saques para essas grandes compras. Em outras palavras, o banco estatal teria que seguir a mesma política de reservas dos outros bancos e, portanto, eles não possuem qualquer "utilidade" especial Ele também concluiu que, se o governo não estava cheio de dívidas, um banco nacional é de pouco uso. No entanto, ele achava que o impacto dos bancos nacionais poderia ser "surpreendente".

“Embora eu considere um banco estatal, na realidade, de muito pouco sólido serviço em um grande Estado eu admito que há circunstâncias em que um banco estatal pode ter efeitos que parecem surpreendentes. Em uma cidade onde existem dívidas públicas em quantidades consideráveis a facilidade de um banco do governo permite que se compre e venda ações de enorme soma, sem causar qualquer distúrbio na circulação”. [pp 419-20/315/127].

A política de reservas do banco estatal combinada com a emissão de "dinheiro fictício e imaginário" causam um fortíssimo aumento no valor de ações “pestilentas” em empresas que eram meras "armadilhas". O bust seria inevitável, porque o aumento da riqueza invariavelmente leva a um aumento do consumo e preços mais elevados. Como o dinheiro é sacado dos bancos para fazer compras, aumenta a probabilidade de que os bancos não seriam capazes de resgatar seus depósitos.

 

Um resumo da teoria dos ciclos de Cantillon

 

Cantillon explicou a natureza cíclica da economia de mercado, tanto em termos de ciclos de crescimento e decadência de longo prazo e ciclos de negócios mais curtos provocados pela moeda. No ciclo de comércio os investidores geralmente tomam decisões corretas com base em mudanças na economia, mas no ciclo de negócios eles estão sendo enganados por manipulações do governo (que os austríacos chamam de “poupança forçada”, ou seja, artificial). Ele enfatizou o ciclo de negócios com um exame das causas possíveis dessas essas perturbações, e descobriu que o dinheiro, taxas de juros e taxas de câmbio são mais ou menos auto-equilibrantes em seu estado natural e não causam ciclos de negócios por conta própria. No entanto, enfatizou claramente que a moeda não é neutra, porque tinha potencial para perturbar a trajetória de distribuição de recursos na economia de várias maneiras.

Segundo Thornton, “a característica mais marcante da teoria de Cantillon é que a intervenção do governo é a causa do ciclo de negócios . Depois que ele examinou e depois rejeitou todas as causas endógenas, Cantillon enfatizou que o governo e a manipulação – seja da moeda ou das ações do banco estatal [banco central, nos dias atuais] são a causa inicial do ciclo de negócios. Em sua análise do que hoje chamamos de efeito Cantillon, ele mostrou como estas intervenções provocam a má alocação de capital e  uma redistribuição de renda. Ele explica os booms e busts, os gastos de luxo, o momento do erro do empreendedor, a prevalência da corrupção no mercado de ações, e fornece uma explicação que antecedeu em 250 anos a teoria da escolha pública para as ações do governo. Em contraste com as muitas teorias que possuem ciclos de negócios como força endógena ou equilibradora da economia de mercado, Cantillon estabeleceu uma teoria baseada em causa e efeito e análise microeconômica. Sua abordagem é semelhante, e foi ainda mais refinada por economistas como Ricardo, Wicksell  e Mises, e em sua forma mais desenvolvida é agora conhecida como a teoria austríaca dos ciclos econômicos”. [Cantillon on the cause of business cycle, p. 58]

Prossegue o Professor Thornton, encerrando seu instigante artigo:

"A contribuição de Cantillon para teoria do ciclo de negócios tem sido largamente negligenciada pelos economistas da mainstream nos últimos 250 anos. Durante esse tempo numerosas tentativas para resolver o mistério do ciclo de negócios falharam e todas as tentativas de remédios ou não tiveram sucesso , ou mesmo agravaram o problema. O objetivo principal aqui não foi testar ou provar a superioridade da abordagem de Cantillon dos ciclos de negócios, mas mostrar que ele tinha uma teoria bem desenvolvida com base em uma visão realista da economia e do governo. No entanto, há boas evidências de que Cantillon e os economistas austríacos possuem uma vantagem quando se trata de compreender e prever o ciclo de negócios. Além disso, Cantillon é o fundador reconhecido da análise microeconômica e é creditado com contribuições macroeconômicas notáveis como o modelo circular de fluxo da renda, o mecanismo dinâmico de preços e sua abordagem aos ciclos de negócios. Seu desenvolvimento subsequente merece maior consideração como uma possibilidade de desbloqueio dos mistérios do ciclo econômico e até mesmo para proporcionar uma cura ."[ibid. p. 59]

 

4. CANTILLON, UM VERDADEIRO PROTOAUSTRÍACO

 

Cantillon foi de fato um austríaco? No artigo Was Richard Cantillon an Austrian Economist? o Professor Robert Hébert, da Universidade de Auburn, começa com uma pergunta interessante: Alguém pode levar a sério a questão colocada pelo título deste artigo? A história revela claramente os seguintes fatos. A Economia Austríaca começou em 1871 com o trabalho pioneiro do economista vienense, Carl Menger. Essai sur la nature de Cantillon du commerce en général foi escrito quase 150 anos antes. Ele permaneceu praticamente desconhecido até que reintroduzido para os economistas por W. S. Jevons em 1881. Não há, definitivamente, nenhuma ligação cronológica entre Cantillon e Menger, e qualquer conexão intelectual é especulativa”. [p. 269]

A bem na verdade, não encontrei no Princípios de Economia Política, de Menger, nehuma citaçao a Cantillon, embora o autor cite, por exemplo, Galiani, Condillac, Montanari, Smith, Turgot, Scorch e outros economistas, alguns dos quais podem ser considerados como protoaustríacos. [ver referências bibliográficas no final]. Já Mario Rizzo e Gerald P. O’Driscoll, Jr. no seu instigante livro The Economics of Time and Ignorance, um substancial resumo do subjetivismo da Escola Austríaca, o citam 3 vezes. [.pp.204-5, 221 e 224]. E o Professor Roger Garrison, em seu festejado e polêmico livro de 2001, Time and Money – The Macroeconomics of Capital Structure, embora não cite Cantillon, recorre diversas vezes do que se conhece como efeito Cantilon, combinado com a quarta proposição fundamental de J. S. Mill, com o efeito Ricardo na versão hayekiana e com o chamado efeito concertina. [ver nas refs. bibliográficas meu livro Ação, tempo e conhecimento: a Escola Austríaca de Economia].

Entretanto, Hébert prossegue observando que a questão que coloca pode ser levada muito a sério e que se pode demonstrar que a tradição austríaca - que começou no século passado com Menger e foi mantida por Mises, Hayek, Kirzner e outros -, tem muitos pontos em comum com a economia de Richard Cantillon. Este fato, infelizmente, geralmente não tem sido reconhecido por historiadores do pensamento econômico e, de fato, nem sempre por alguns economistas austríacos.

O que é bastante claro é que primeiro tratado sistemático sobre a ciência econômica foi escrito por um banqueiro de sobrenome espanhol, nascido na Irlanda. Apesar de haver evidência de que Richard Cantillon escreveu uma grande variedade de manuscritos, seu livro Traité, publicado em 1755, que condensa de maneira sistemática os princípios econômicos, só foi traduzido para o inglês por Henry Higgs em 1932. Esse lapso de 177 anos na tradução, embora haja evidência que sugere que o Essai teve tremenda influência no desenvolvimento inicial da ciência econômica, mostra claramente que o tratado de Cantillon foi amplamente negligenciado durante praticamente todo o século XIX, quando, foi "redescoberto" por William Stanley Jevons, que o considerou o "berço da economia política". Desde então, o Essai de Cantillon recebeu atenção crescente, graças em grande parte a Henry Higgs, Joseph Schumpeter, Friedrich Hayek e Murray Rothbard, que escreveram sobre o assunto. O Essai é considerado o primeiro tratado completo sobre teoria econômica, e Cantillon foi chamado de "pai da economia”, anterior a Adam Smith, que ficou com os louros.

É interessante notarmos que Cantillon é citado na Riqueza das Nações 11 vezes por Adam Smith, o que mostra que o filósofo moral escocês conhecia a obra do irlandês. [Riqueza das Nações, Fundação Calouste Gulbenkian, vol. II, p. 802]. Teria Smith “plagiado” Cantillon, como sugerem alguns? Ou teria apenas seguido o curso normal acadêmico, em que todos nos valemos de contribuições deixadas por colegas de nossa geração e de gerações anteriores? Afinal, como escreveu Keynes na Teoria Geral – um dos livros mais famosos, mas que tambémum dos que causaram mais estragos irreparáveis em nossa ciência, os que se interessam em economia são, todos, “escravos de algum economista defunto”. Para não perder o (bom) hábito de discordar do sr. Keynes, quero apenas lembrar que essa frase de efeito não vale apenas para economistas. Vale também para compositores, cantores, atores, advogados, músicos, dentistas, carvoeiros, barbeiros...Se não fosse assim, de que serviria a História?

Deixo no ar esta pergunta. Prefiro enfatizar que um banqueiro, não-acadêmico (como Smith, Hume e outros), com uma vida de negócios mais do que atribulada, foi capaz de escrever um tratado tão abrangente e que antecipou em séculos muitos dos “insights” que a Ciência Econômica adotou nos séculos seguintes e que continuam a adotar.

Hülsmann, em More on Cantillon as a Proto-Austrian, Journal des Économistes et des Études Humaines, resume assim a controvérsia de que trata seu artigo: Murray N. Rothbard apresenta Richard Cantillon como o pai fundador da moderna verdadeira Ciência Econômica. Esta classificação apresenta algumas críticas à tese de Rothbard, mas também mais uma prova em seu apoio. Nós mostramos que o ensaio de Cantillon sobre a Natureza do Comércio em Geral é  pioneiro da análise econômica das relações de propriedade, ressaltando que a demanda de proprietários determina toda a estrutura de produção. Além disso, Cantillon antecipa a distinção funcional dos capitalistas modernos, trabalhadores , empresários e governos de acordo com seu tipo de renda.

Ele também analisou em que medida o Estado fazendo circular uma alta quantidade de dinheiro provoca distúrbios e ele demonstrou que todos os resultados da intervenção governamental são efêmeros e revertidos por leis naturais do mercado. Murray N. Rothbard apresenta Richard Cantillon como o pai e verdadeiro fundador da Ciência Econômica moderna. A tese de Rothbard está sujeita a críticas, mas encontra apoio. O  artigo visa a demonstrar que o Essai sur la nature du commerce en général de Cantillon estabelece a análise econômica da propriedade; ele insiste no fato de que a demanda dos proprietários determina em conjunto a estrutura de produção. Além disso, Cantillon seria a distinção funcional moderna precoce entre capitalistas, trabalhadores, empresários e líderes de acordo com suas formas de renda. Ele também analisou a medida em que o Estado se aproveita de uma grande oferta de dinheiro e demonstrou que todos os resultados da intervenção estatal são efêmeros e terminam sendo contrariados pela lei natural.”[ver ref. bibliográfica]


5. CONCLUSÕES

 

A título de conclusão e para não deixar dúvidas de que Cantillon foi de fato um extraordinário economista e inegavelmente um protoaustríaco por excelência, vou apenas listar alguns pontos de sua teoria econômica que se coadunam perfeitamente com a escola Austríaca.

1. O Essay foi o primeiro livro a abordar de maneira sistemática a Ciência Econômica e a metodologia utilizada foi de natureza hipotético-dedutiva, fato comentado elogiosamente por Hayek;

2. Foi o primeiro a modelar a economia como um todo interligado;

3. Foi o primeiro a desenvolver o esquema conhecido como “fluxo circular da riqueza”;

4. Foi o primeiro a analisar os mecanismos de preços que regem os fluxos internacionais de moeda;

5. Identificou perfeitamente as tendências equilibradoras do processo de mercado, atingidas mediante trocas voluntárias, sem intervenções do Estado;

6. Cunhou o termo “natural”, utilizado bem mais tarde por Knut Wiksell e pelos austríacos, para representar os preços nos diversos mercados, quando determinados voluntariamente;

7. Foi o primeiro a se valer do método marshalliano conhecido como cláusula “coeteris paribus”;

8. Foi extremamente austríaco ao utilizar, embora moderadamente, o individualismo metodológico e o subjetivismo das ações humanas;

9. Foi o “avô” do conceito austríaco de estrutura de capital, destacando sua heterogeneidade, conceito usado por Menger e desenvolvido por Böhm-Bawerk;

10. Foi também o pioneiro na análise do papel do empreendedor na economia;

11. Foi um severo crítico dos mercantilistas, ao afirmar categoricamente que o dinheiro injetado pelo Estado na economia não gera riqueza;

12. Foi categórico ao afirmar que o processo de mercado sempre é superior às intervenções governamentais no que se refere ao desenvolvimento da economia;

13. Estabeleceu com precisão, pela primeira vez, o conceito de custos de oportunidade, largamente utilizados pela Escola Austríaca e pelos economistas modernos em geral;

14. Foi um crítico severo do sistema de reservas fracionárias bancárias;

15. Escreveu claramente que os países não necessitam de bancos estatais, tornando-se o precursor da tese austríaca de que os bancos centrais modernos precisam ser extintos.

16. Outra contribuição importantíssima foi que ele estabeleceu uma teoria dos ciclos econômicos que é a base da moderna teoria austríaca, identificando suas causas na expansão artificial do crédito, analisando o mecanismo da poupança forçada, mostrando os impactos do crédito sobre a estrutura de capital, mostrando que ao boom inicial segue-se um bust caracterizado por inflação e desemprego e afirmando que a solução para as crises e bolhas é a retirada do governo;

17. Foi, também, o primeiro a perceber que os efeitos das variações no estoque de moeda sobre a economia são diferentes no curto e no longo prazo.

18. Foi precursor da doutrina da utilidade marginal, antecedendo em 116 anos Menger, Jevons e Walras.

Estes foram apenas alguns dos pontos da teoria econômica desse gigante irlandês, alguns comuns à Escola Austríaca e à mainstream economics, mas em sua maioria essencialmente austríacos. A leitura do Essay (ver nas referências bibliográficas a edição em português) é, a meu ver, essencial para os que se interessam por economia em geral e, particularmente, para os economistas austríacos. 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

 

BRANDA, Domingos C. O pai fundador da economia moderna: Richard Cantillon, disponível em http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=938

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HEBERT, Robert F. Was Richard Cantillon an Austrian Economist?Journal of Libertarian Studies, vol. VI, n 6, outono de 1985.

HÜLSMANN, Jörg Guido. More on Cantillon as a Proto-Austrian. Journal des Economistes et des Etudes Humaines 11 (4): 693–703. Paris, France: l'Institut Européen des Etudes Humaines. DOI:10.2202/1145-6396.1036.

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ROTHBARD, Murray N. Economic Thought Before Adam Smith: An Austrian Perspectiveon the History of Economic Tought, vol. I, Elgar, 1995 .

SMITH, Adam. Riqueza das Nações. Fundação Calouste Gulbenkian, trad. De Teodora Cardoso, 2 ed., 1980 (?).

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THORNTON, M. The Great Austrian Economists, editado por Randall G. Holcombe (Ludwig von Mises Institute, 1999. iBooks)

THORNTON, M. Cantillon on the cause of business cycle, publicado no The Quaterly Journal of Austrian Economics, vol. 9, n 3, outono de 2006, pp. 45-60

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