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Artigo do Mês - Ano XVIII– Nº 212 – Dezembro de 2019

 

Vem ocorrendo há algum tempo uma preocupação por parte de alguns economistas e, principalmente, da imprensa, com a desvalorização do Real frente ao dólar norte-

americano. Segundo surrados rumores de alguns “especialistas”, a depreciação de nossa moeda seria um mal e um bem simultâneos: mal, porque depois de algum tempo pressionaria o IPCA e bem porque estimularia as nossas exportações. Infelizmente, certos experts ainda não aprenderam o que é inflação e continuam a confundi-la com aumentos de preços e, adicionalmente, se mantêm presos a falácias mercantilistas, como a de que exportar é bom e importar é uma verdadeira praga egípcia para “o país”.

Desde o último dia 2, essa preocupação transformou-se em verdadeiro chilique histérico, com pitadas de nacionalismo primitivo. Foi quando Trump, em uma de suas costumeiras recaídas no protecionismo, anunciou em suas redes sociais a retomada imediata pelo seu governo das tarifas sobre o aço e o alumínio do Brasil e da Argentina, com o pretexto de que ambos “têm promovido uma forte desvalorização de suas moedas, o que não é bom para nossos fazendeiros".  Pronto, isso foi suficiente para trazer de volta velhos argumentos infantis de que nosso governo estaria sendo subserviente, de que o Brasil deveria revidar, de que deveríamos declarar guerra comercial aos ianques e outros de teor – e horror - semelhante.

Registre-se que, poucos dias antes, o próprio ministro da Economia, sem qualquer necessidade, declarou à imprensa, em Washington, que um dólar forte em relação ao Real seria algo desejável e “muito bom”, o que – convenhamos – produziu aquele efeito de que nos alertou São Paulo, quando advertiu os coríntios que, quando a trombeta emite sons incertos, a confusão entre os soldados é líquida e certa. Foi só o ministro abrir a boca e a mosca, como era previsível, entrou - pela abertura da trombeta...

Políticas de desvalorizações cambiais sempre foram desastrosas e tão mais nocivas quanto maiores as depreciações decretadas. Antes de tudo, cabe a pergunta: comprar é melhor do que vender ou vender é melhor do que comprar? Para a macroeconomia convencional – cada vez mais distanciada do mundo real – a resposta parece ser, em muitos casos, a segunda opção. No mundo macroeconômico do faz de conta, tudo se passa como se um sujeito de carne e osso, batizado como “Brasil”, negocie com outros homens e mulheres, chamados “Estados Unidos”, “China”, “Itália”, “Japão”, “Espanha”, etc. Acontece que no mundo real quem compra e vende não são “países”, mas pessoas e empresas, privadas e públicas. Em transações livremente negociadas entre as partes, é óbvio que vender é bom para quem vende e comprar é bom para quem compra! Mas certos economistas costumam achar que, para o “país”, vender (exportar) é melhor do que comprar (importar). É um dos reflexos da crença que aprenderam nos livros de macroeconomia e que vêm transmitindo por gerações a seus alunos. 

Posto isso, acredito que seja conveniente visitarmos o que a teoria econômica convencional tem a nos dizer sobre as relações entre taxa de câmbio, taxas de juros e política monetária em um contexto de livre movimentação de capitais internacionais. É o que será feito nas linhas seguintes. Depois, esboçaremos uma breve análise com base na Escola Austríaca sobre esses importantes temas. Antes, porém, parece oportuno definir os dois principais tipos de regimes cambiais para os leitores não familiarizados com os mistérios da economia.

Regimes cambiais

O primeiro é o regime de câmbio fixo, em que o banco central determina um preço fixo de uma moeda estrangeira (a moeda âncora, usualmente o dólar norte-americano, que é mais estável e preferido internacionalmente) em termos da moeda nacional e se compromete a garantir a conversão. Para manter a taxa de câmbio fixa os governos precisam comprar ou vender a moeda doméstica no mercado de câmbio à taxa por ele fixada, o que exige que tenha reservas internacionais em volume suficiente para cobrir as entradas e saídas da moeda estrangeira. Os textos introdutórios de economia costumam listar como vantagens do regime de câmbio fixo a maior estabilidade da moeda, a neutralização do risco cambial, a eliminação de necessidade de gastos fiscais financiados por dívida pública e a menor volatilidade dos preços relativos entre bens negociados e não negociados no mercado externo. Em contrapartida, as desvantagens são o compromisso grave que o governo assume de manter reservas internacionais suficientes para sustentar a taxa de câmbio no valor estabelecido, a inevitável discrepância entre a taxa de câmbio anunciada e a taxa de equilíbrio de mercado, que gera excesso de demanda ou de oferta de divisas, a dificuldade de identificar vantagens e desvantagens comparativas, o que compromete a boa alocação de recursos e a renúncia à correção automática de desequilíbrios no balanço de pagamentos.

O segundo regime geral é o de câmbio flutuante, que pode ser o de flutuação pura, em que as taxas de câmbio variam livremente de acordo com a oferta e a demanda do mercado e os governos não intervêm no mercado cambial para valorizar ou desvalorizar a taxa de câmbio e o de flutuação suja, que é o praticado pela maioria dos bancos centrais, em que estes atuam esporadicamente no mercado cambial, com o fim de evitar variações bruscas na taxa de câmbio, ou em certos casos até a influenciá-la.

Existe uma relação entre as taxa de juros e de câmbio, que pode ser assim resumida: taxas de juros elevadas atraem capitais para o país, o que aumenta as reservas internacionais do banco central e isso, por sua vez, tende a diminuir a taxa de câmbio. Da mesma forma, taxas de juros baixas estimulam a saída de capitais e, por conseguinte, as reservas internacionais e pressionam a taxa de câmbio para cima, ou seja, tendem a depreciar a moeda nacional.

 

O que nos diz a mainstream economics

Uma discussão bastante conhecida em Economia Internacional e que ganhou corpo a partir dos anos 60 é a que envolve juros e câmbio em ambiente de mobilidade de capitais internacionais.  Uma das perguntas relevantes nessa discussão é se, em um mundo caracterizado por intensa movimentação de capitais internacionais, a política de metas de inflação - que pressupõe câmbio flutuante - pode ser bem sucedida, sem provocar fortes oscilações na taxa de câmbio.

A resposta correta é que tudo vai depender da existência ou ausência de coordenação entre o regime fiscal e os regimes monetário e cambial. Juntos, os três constituem os chamados “fundamentos macroeconômicos”, para os quais os economistas devem olhar sempre com atenção. Os dois últimos são de responsabilidade do Banco Central - e por ele executados -, enquanto o regime fiscal, que enfeixa os gastos e receitas do Estado em uma perspectiva intertemporal, é determinado por políticos, embora executado pelas chamadas “autoridades fiscais” (Fazenda e Tesouro). É importante não confundir políticas, que são meros retratos conjunturais do que as autoridades estão executando e com foco no curto prazo, com regimes, que são como filmes, com uma dinâmica estrutural, profunda e de longo prazo.

Quando o regime fiscal é fortemente deficitário como no Brasil, as exigências para seu financiamento são severas, requerendo grande esforço do governo. A intensa movimentação de capitais internacionais impede o Banco Central de executar uma política de taxa de juros que atinja apenas as metas inflacionárias. Por exemplo, o efeito colateral de uma forte desvalorização do Real perante o dólar, após um período de overshooting da taxa de câmbio (outras variáveis mantidas constantes), é inevitável. Os diferenciais de juros mais baixos expulsam capitais do país, o que valoriza o dólar em termos nominais e efetivos e o objetivo das metas, embora atingível, será atingido pelos chamados mecanismos de transmissão da política monetária, normalmente lentos e que tendem a aumentar o desemprego no curto prazo.

Existe, então, um dilema de política econômica, o da Impossibilidade da Trindade, também conhecido como Trilema de Mundell-Fleming: com alta mobilidade de capitais, ou os bancos Centrais aumentam a taxa de juros para segurar a taxa de crescimento dos preços ou a diminuem por causa da pressão sobre a taxa de câmbio, e tudo isso termina conduzindo a proposta apressadas e equivocadas, como a de que o Banco Central deve reduzir fortemente a taxa de juros ou estabelecer controles sobre os ingressos de capitais de curto prazo. No caso dos juros internos serem menores do que a soma dos internacionais com o risco cambial, acontece o fenômeno oposto, mutatis mutandis.

Se um dilema denota uma escolha entre duas alternativas difíceis ou desfavoráveis, um trilema se refere a uma escolha entre três opções, cada uma delas sendo, em princípio não desejada. Do ponto de vista lógico, há duas formas equivalentes de expressar um trilema: como uma escolha entre três opções não desejadas, das quais uma delas tem que ser aceita, ou como uma escolha entre três opções favoráveis, das quais apenas duas podem ser alcançadas ao mesmo tempo.

Ora, nas decisões de política monetária internacional, os bancos centrais estariam presos a um trilema, em que só poderiam adotar simultaneamente dois dos três possíveis objetivos (e necessariamente sendo forçados a abandonar o terceiro): fixar a taxa de câmbio; deixar o capital fluir livremente; executar uma política monetária independente (também chamada de exógena). Como existe exclusividade mútua, só seria possível optar por um dos lados do triângulo do gráfico. Ou seja, é impossível ter esses três itens ao mesmo tempo: taxa fixa de câmbio, política monetária independente e ausência de controle de capitais.  

Se a escolha for o lado A, o banco central está optando por fixar a taxa de câmbio e manter fluxos livres de capitais com os outros países. Nesse caso, é impossível executar uma política monetária independente (ou autônoma, ou exógena), porque as flutuações da taxa de juros atrairiam ou expulsariam os capitais internacionais, comprometendo a estabilidade cambial.

A opção por B significa fluxo livre de capitais internacionais e política monetária autônoma. Como taxas de câmbio fixas entre todas as nações e livre fluxo de capital são mutuamente exclusivos, só é possível escolher uma dessas alternativas. A mobilidade de capitais em âmbito mundial implica a impossibilidade de manter taxas de câmbio fixas.

Por fim, a opção C implica taxa de câmbio fixa e política monetária independente, o que impede a mobilidade de capitais. Taxa de câmbio fixa e fluxos livres de capitais, de novo, são mutuamente excludentes.

Desse trilema, portanto, segue que o grande desafio da política monetária de qualquer governo em uma economia aberta é escolher uma dessas três alternativas e cuidar de gerenciá-la.

Outro ensinamento importante da teoria econômica mainstream é o chamado Princípio da Classificação Efetiva dos Mercados de Mundell (economista canadense contemplado com o Nobel em 1999), que sustenta a existência de uma regra básica em política econômica: se o governo busca n objetivos independentes, então devem existir pelo menos n instrumentos de política para alcançá-los, mutuamente independentes. Além disso, tais instrumentos devem ser efetivos, ou seja, devem influenciar de fato as variáveis definidas como alvos na intensidade necessária. Em outras palavras, que cada arma do arsenal de política econômica deve ser apontada para o alvo em que for mais efetiva.

Isso significa, dentro da melhor das tradições da macroeconomia convencional - que é sem dúvida o monetarismo e seu desenvolvimento subsequente, a escola de expectativas racionais -, que para o objetivo de controlar a inflação a política monetária é a mais indicada, que para minimizar problemas de balanço de pagamentos a mais potente é a política cambial e que a política fiscal é fundamental para dar sustentação a ambas.

A teoria econômica convencional define estabilidade em uma economia aberta como sendo uma situação de equilíbrio interno, definido como crescimento econômico e estabilidade de preços domésticos (inflação sob controle) e externos (equilíbrio do balanço de pagamentos). O papel dos governos e sua atuação por meio da definição de regimes e objetivos de política econômica e da gestão dos instrumentos disponíveis para atingir esses objetivos devem contribuir para que a estabilidade econômica seja alcançada e mantida.

É preciso atentar para o fato de que os objetivos da política econômica não são definidos por economistas, acadêmicos ou mesmo burocratas, nem pelos tampouco pelo presidente, ou diretores e técnicos dos bancos centrais. São determinados em um contexto mais amplo de escolhas sociais, políticas e econômicas, e, portanto, para o bem ou para mal, pelo Executivo. A rigor, o conceito de “banco central independente” é meramente teórico, porque na economia do mundo real o que existe são bancos centrais em que as influências políticas são menores ou maiores.

Os regimes monetário, fiscal e cambial, portanto, nada mais são que produtos de regras de atuação dos governos e que dependem de suas escolhas políticas. Um novo governante pode alterar esses regimes sem passar pelo crivo da racionalidade econômica. Já os agentes econômicos privados – a que comumente se faz menção como sendo os mercados -, contudo, são guiados por essa racionalidade, no sentido de que sabem que deve existir coordenação entre os regimes fiscal, monetário e cambial para que a conjuntura macroeconômica seja considerada estável, consistente.

 

E os austríacos – o que temos a dizer?

 

Uma preocupação que sempre manifestei desde que comecei a me interessar pela Escola Austríaca diz respeito à necessidade da aplicação sistemática de seus princípios gerais no âmbito da economia internacional. De fato, falta essa extensão, o que é bastante compreensível. 

Primeiro, porque os autores mais conhecidos, como Menger, Böhm-Bawerk, Mises e Hayek viveram e escreveram em tempos em que a abertura econômica era muito menor do que a das últimas três ou quatro décadas. E mesmo economistas austríacos que surgiram depois, como Kirzner e Rothbard, aparentemente não manifestaram essa preocupação porque tinham outros interesses e linhas de pesquisas acadêmicas.

E, em segundo lugar, porque a Escola Austríaca ficou fora dos palcos praticamente durante quatro décadas, dos anos 30 até os anos 70, quando Hayek foi contemplado, em 1974, com o Nobel. Aconteceu então certo ressurgimento da tradição iniciada por Menger, mas limitado e com pouco fôlego e a escola só ressurgiu para valer a partir da primeira década deste século, quando as previsões de seus economistas com respeito à bolha imobiliária e da enorme crise que se seguiu em nível mundial, a despeito de terem sido criticadas e até ridicularizadas por figurões acadêmicos frequentadores das mídias e jornalistas antes de serem confirmadas pelos fatos. 

Portanto, não resta dúvida de que um de nossos maiores desafios para manter a tradição da Escola Austríaca viva e em processo de permanente rarefação é o de aplicar seu método científico à análise das economias abertas. Dito isso, vamos tentar responder à questão sobre o que os economistas austríacos têm a dizer a respeito dos chiliques provocados pela desvalorização do Real. 

Começo convidando o leitor a observar quantas vezes, na seção anterior, encontrou palavras e expressões como “metas”, “alvos”, “políticas” (disso, daquilo e daquilo outro), “instrumentos” (de políticas), “controles” (de juros, câmbio e crédito, da oferta de moeda), etc. Não contei, mas certamente não foram poucas, não é verdade? Essa simples contagem revela com clareza todos os vestígios do intervencionismo presente em toda a teoria macroeconômica, inclusive nos modelos teóricos de economistas famosos favoráveis à  economia de mercado, dos quais cito apenas dois: Milton Friedman e Thomas Sargent, ambos agraciados com o Nobel, o primeiro em 1976 e o segundo em 2011. Poderia citar muitos outros, mas fiquei só nesses dois porque sei que ambos influenciaram fortemente (ao lado de Hayek e de Ludwig Erhard, estes um pouco menos) a formação e o pensamento do atual ministro da Economia. 

É sempre importante mencionar que a Escola Austríaca, contrariamente às correntes teóricas convencionais, considera que situações de equilíbrio de mercado não são factíveis no mundo real, o que a leva a rejeitar conceitos tais como “taxa de juros de equilíbrio”, “taxa de câmbio de equilíbrio” e “quantidade ótima de moeda”. Como se sabe, os economistas austríacos analisam os mercados como processos dinâmicos caracterizados pela ação humana ao longo do tempo em ambiente de permanente incerteza genuína e, portanto, como um aprendizado contínuo, um procedimento de descobertas, em que os agentes buscam corrigir erros, processo esse que é individual por natureza e que pode tender para algum “equilíbrio” que, entretanto, nunca se sabe qual é e cuja probabilidade de vir a acontecer é praticamente zero. 

A macroeconomia é essencialmente intervencionista e não tenho receio de afirmar que até as controvérsias entre suas escolas consistem em não mais do que meras discussões sobre quais são as melhores medidas que os governos devem seguir para intervirem e assim controlarem as nossas vidas. Mas esse fato inegável, contudo, não nos deve levar a adotar a atitude imatura de afirmar que “tudo o que vem da mainstream não presta”. 

A aceitação por parte dos austríacos da essência do Trilema de Mundell-Fleming e o Princípio da Classificação Efetiva dos Mercados, do mesmo Mundell, é exemplo dessa atitude madura. Pode-se discordar da forma como foram apresentados, mas não das conclusões. É inegável que a mobilidade de capitais internacionais é um dado concreto da economia mundial no mundo de hoje e que, portanto, um dos lados do “triângulo” não é passível de escolha (o lado C em nosso gráfico). Portanto, já que o governo no mundo real precisa “escolher”, nesse caso será necessariamente impelido a focar na opção entre política monetária ou cambial. 

Para um economista austríaco o problema não é só a especificidade da escolha, mas aceitar que deve ser feita uma escolha. Controles de quaisquer preços são inadmissíveis, porque as próprias características do processo de mercado jamais permitem que sejam eficientes. Sendo assim – e sendo a taxa de juros e a taxa de câmbio preços –, nunca manifestamos simpatia ou vemos com bons olhos quando o banco central determina a taxa de juros (no nosso caso, a Selic), a taxa de câmbio ou estabelece metas de variação de um índice que mede o crescimento dos preços, nem tampouco quando estabelece intervalos dentro dos quais permite que essas variáveis flutuem.

Por isso, há dois tratamentos costumeiros para essas questões suscitadas por economias abertas dentro da Escola Austríaca: o Currency Board (como alternativa ao Regime de Padrão Ouro) e um sistema de competição entre moedas. Podemos resumir a visão austríaca recorrendo à analogia empregada por Hayek, quando comparou a importância de neutralizar todas as influências políticas sobre a política monetária com a necessidade de proibir o acesso dos gatos ao pires de leite. 

O primeiro meio de contrariar os gatos é o Currency Board (Comitê Monetário, ou Fundo de Estabilização Cambial), um sistema em que a emissão de moeda está subordinada ao volume de reservas internacionais do país (poderia também ser atrelada ao estoque de ouro): o banco central só pode emitir moeda quando há entrada líquida de reservas internacionais. Na prática, funciona como uma espécie de caixa conversora que controla a oferta monetária doméstica, indexando-a a um ativo exógeno – que, nesse caso, é uma moeda internacional, o dólar. Nesse sistema a conversão entre a moeda nacional e a moeda-âncora (dólar americano) dá-se necessariamente a uma taxa de câmbio fixa e o Currency Board só pode emitir moeda nacional quando tem reservas cambiais suficientes para honrar a taxa de câmbio fixada entre os dois ativos. Funciona como uma “âncora cambial” para a oferta monetária doméstica, que passa a ser apenas um substituto de uma moeda estrangeira, naturalmente não passível de controles ou influências políticas.

Historicamente, vários economistas austríacos importantes defenderam e defendem esse sistema porque, por definição, eles retiram a gestão da taxa de câmbio e da oferta de moeda do banco central, transferindo-as para os próprios mercados (doméstico e mundial). A base monetária passa a ser totalmente passiva, subindo ou caindo em conformidade com os fluxos de entrada e saída de divisas do país. É um mecanismo impositivo e rígido, que restringe as ações do governo e impede a execução de políticas monetárias que comprometam a estabilidade da moeda nacional. Nesse sistema, as variações da taxa de juros, da base monetária e do crédito dão-se exclusivamente pelas vias dos mercados, ou, em linguagem técnica, são variáveis exógenas. Deixam de fazer sentido políticas monetárias, políticas de juros e políticas de crédito, porque tudo se passa como se o comitê monetário colocasse o banco central no modo automático e fosse dar um passeio. Hong Kong, Cingapura e o próprio Brasil, entre 1906 e 1920 e no período de 1o de março a 1o de julho de 1994, em que a URV foi usada engenhosamente para indexar o cruzeiro real, são exemplos de arranjos similares ao sistema de Currency Board

Se esse sistema tem o mérito de isolar os gatos do pires de leite, tem o demérito de levar o leite para o exterior, pois faz a política monetária do país desaparecer, já que, uma vez estabelecida a paridade, a inflação doméstica passa a ser determinada pela política monetária dos Estados Unidos. Outra desvantagem desse sistema é que, se ele consegue debelar inflações fortes e crômicas rapidamente e sem impor custos elevados à sociedade no curto prazo, com o decorrer do tempo, pela asfixia de divisas provocada pela defasagem da taxa de cambio, acaba provocando custos de várias naturezas.

O segundo tratamento austríaco – e o meu preferido - para as questões monetárias da macroeconomia internacional é o da competição entre moedas, com o fim do monopólio dos bancos centrais, proposto por Hayek no livro Denationalization of Money, publicado originalmente em 1976. 

Este arranjo, para mantermos a comparação, divide o leite em vários pires menores e entrega cada um deles a um guardião; se este for cooptado pelos gatos, seu leite será bebido e o prejuízo será seu. Trata-se da proposta de desnacionalização da moeda, em que se permite a vários bancos emitir, cada um deles, a sua moeda, evidentemente sobre certo lastro a ser definido, estabelecendo uma salutar competição entre moedas alternativas: os bancos que emitissem mais do que os seus lastros recomendassem, veriam as demandas por seus ativos monetários cair, provocando desvalorização em suas moedas e valorização nas demais. Tal sistema poderia ate convergir, depois de algum tempo, para uma única moeda, mas seu emissor – que poderia até ser o próprio banco central – ficaria permanentemente sujeito à competição: se emitisse mais do que o adequado, para atender, por exemplo, aos apelos dos gatos políticos, seu leite desapareceria, pois surgiriam novas moedas emitidas por competidores, antes inviáveis, mas agora factíveis pela má atuação do monopolista. A pergunta relevante deixada por Hayek é: existe fundamento para o fato de apenas governos poderem emitir moeda? Que historia é esta de monopólio legal? Por que um monopólio legal sobre o petróleo, por exemplo, e criticado pelos liberais, ao passo que praticamente ninguém questiona o de emissão de moeda dos bancos centrais? Hayek referiu-se a essa aceitação passiva de que a moeda deve ser monopólio do Estado de “credo universal”.

Tal sistema de moedas competitivas não apenas retiraria do governo o poder de inflacionar a oferta monetária, mas também impediria o aparecimento dos ciclos econômicos que caracterizaram o século XX, cuja causa principal, segundo a abordagem austríaca dos ciclos, é o monopólio governamental sobre a emissão de moeda. Adicionalmente, também tornaria bem mais difícil para o governo aumentar excessivamente seus gastos. Logicamente, neste arranjo as taxas de câmbio seriam necessariamente flutuantes, tanto entre as diversas moedas emitidas internamente quanto entre estas e as internacionais.

A meu ver, esse sistema tem as seguintes vantagens: (a) ao consagrar a competição, é mais condizente com o insight austríaco da economia de mercado do que o sistema de monopólio legal; (b) retira da cena práticas detestadas pelos austríacos, como as políticas monetária, fiscal e cambial; (c) elimina a própria necessidade da existência de bancos centrais, embora isso não seja necessariamente obrigatório, pois não impede que os bancos centrais continuem emitindo suas moedas, só que agora não serão monopolistas compulsórios e, portanto, terão que escolher entre agradar os gatos ou ver sua moeda sumir do mapa. 

Hayek, na introdução do livro de 1974, escreve sobre que características as moedas precisariam ter para sobreviver em um livre mercado: “seriam vitoriosas na competição aquelas cujo valor se tivesse mantido essencialmente estável e que tivessem impedido tanto a excessiva estimulação do investimento quanto os consequentes períodos de retração.” 

 

Conclusão

Diante da impossibilidade de termos tanto um Currency Board como um sistema de competição entre moedas, o que um economista austríaco recomenda ao governo? Que second best temos a propor? 

Embora tudo leve a crer que uma depreciação deliberada do Real – que acarretaria os efeitos desastrosos conhecidos - não esteja, felizmente, nos planos da equipe econômica e do banco central, há que se admitir a existência de certa desconfiança dos agentes econômicos, no sentido de que o governo, visando a impulsionar a recuperação econômica ainda incipiente e olhando para um horizonte de curto prazo, esteja cogitando subscrever, mesmo que informalmente, a tendência de desvalorizações cambiais. É preciso também levar em conta que a trajetória descendente da taxa Selic seja mantida pelo Copom, o que, somado ao silêncio da área técnica do governo e à pouca prudência do recente pronunciamento do ministro da Economia,  reforça essa  expectativa de valorização do dólar. Fatos que preocupam, mas que não justificam certos chiliques e faniquitos que estamos presenciando. 

Nessas condições – e dado que o trilema é verdadeiro - o second best proposto pelos austríacos deve ser, a meu ver, o de insistir na política de metas de inflação de preços decrescentes e consentâneas com o padrões internacionais e, no que diz respeito à taxa de câmbio, deixar mais claro que sua intenção é que o mercado execute o serviço de determiná-la ou, se não desejar explicitar esse intento, tirar a trombeta da boca e aceitar extraoficialmente o regime de flutuação suja. Adicionalmente, essa opção tem a vantagem de atender ao princípio da classificação efetiva, ao usar o meio “política monetária” para alcançar o objetivo “inflação” e a taxa de câmbio ajustar as contas externas. 

Mas o mais importante, ao cabo deste primeiro ano de governo – o âmago - continua a ser insistir nas reformas estruturais do Estado. Com elas, tudo ficará mais fácil.