(Artigo transcrito diretamente de um vídeo curto que postei no Instagram - @ubiratanjorge.iorio 

em 29/04/2021, daí o seu tom coloquial)

 

 

Nenhuma teoria econômica é perfeita, porque a economia não é uma ciência exata, mas uma ciência social e assim sendo a melhor metodologia é aquela chamada de falsificacionismo: nós montamos uma teoria e deixamos que seja averiguada, verificada, confirmada ou rejeitada pelos fatos, ou seja, ser ou não falsificada.

A análise cuidadosa dos ciclos econômicos do início do século XIX até hoje nos leva a reconhecer um núcleo de identidades básicas fundamentais que nos permite fundamentar uma origem única para os ciclos econômicos: trata-se de uma de fartura postiça, falsificada, ilusória de moeda e crédito. E essa fartura de moeda e de crédito nas economias, naturalmente, é promovida pelos governos, por meio dos seus bancos centrais e do sistema bancário. Essa e somente essa é a causa dos ciclos econômicos e das crises, de acordo com a Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos, a TACE.

Para confirmar esse diagnóstico, vamos voltar mais ou menos duzentos anos na história. ao início do século XIX. No ano de 1819 houve uma crise, um pânico, nos EUA, provocado pelo crédito postiço; em 1836, na Inglaterra e nos EUA, houve outra crise, também provocada por um excesso de crédito falsificado, ou seja, sem lastro em  poupança; no ano de 1847 também aconteceu o mesmo fenômeno, que começou no Reino Unido e depois se estendeu à França e aos EUA; em 1866, repetiu-se, também no Reino Unido e na França; em 1907, na época da adoção da energia elétrica, houve uma expansão brutal do crédito para novas companhias de eletricidade, resultando em uma bolha; a Grande Depressão de 1929, contrariamente ao falso diagnóstico de Keynes, não foi provocada por insuficiência de demanda, mas por uma brutal, descomunal expansão de crédito que aconteceu na segunda metade da década de vinte, já então sob a regência de um novo organimo, o FED (Federal Reserve).

Mais tarde, na recessão do final dos anos setenta, todo o mundo colocava a culpa no mordomo, como nos romances nos filmes policiais e o mordomo, no caso, era o preço do barril de petróleo, que tinha quadruplicado. Entretanto, os criminosos não eram os árabes, que haviam aumentado o preço: os meliantes eram os bancos centrais, ou seja, os  governos com suas políticas  inflacionárias deliberadamente inflacionárias. Mais tarde, houve uma recessão no início dos anos noventa, também deflagrada por uma nova expansão creditícia nos EUA acontecida nos anos oitenta, que provocou um boom espetacular, artificial nas bolsas de valores. Isso se repetiu também no final dos anos noventa, com a famosa crise da Nasdaq. E, em 2008, na famosa bolha imobiliária, que também foi precedida por uma expansão artificial de crédito e da moeda substancial, dessa vez com um ingrediente adicional, que eram os novos produtos financeiros.

Vê-se então que em  todas essas ocasiões  os ciclos econômicos ou crises foram causados por aumentos artificiais da moeda e do crédito, ou seja, aumentos na oferta de moeda e do crédito sem os aumentos correspondentes na disposição, na vontade, no desejo de poupar dos indivíduos. Essas expansões - ensina-nos  a Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos - elas geram booms iniciais na economia, que não podem se manter, porque o artificialismo da expansão provoca distorções entre os diversos estágios, as diversas etapas da cadeia produtiva e essas distorções geram inevitavelmente reações conflitantes ao longo do tempo.

Tudo se passa como os efeitos sucessivos das taças de um vinho: a primeira, a segunda e a terceira, dependendo do fígado do bebedor, causam certa euforia, mas à medida que continuamos bebendo as taças subsequentes, obrigatoriamente, levam a embriaguez.  Da mesma forma, aquela expansão inicial, aquele boom fantástico, como não possui bases sólidas, não pode representar uma situação de prosperidade real, de progresso verdadeiro, é apenas uma abundância ilusória, efêmera, passageira. Ou como se uma pessoa começasse a construir um edifício enorme e, já com a obra em andamento, e aquele esqueleto já levantado, descobrisse, tarde demais, que os recursos de que dispunha não eram suficientes para concluir a obra.

Em outras palavras, moeda e crédito não são o mesmo que poupança,  e o máximo que expansões artificiais de moeda e crédito podem conseguir é se fantasiarem de poupança durante algum tempo, no decorrer do qual os agentes econômicos vão permanecer iludidos, até que, mais cedo ou mais, tarde vem a ressaca. Como dizia o grande Hayek: inflação e recessão são inseparáveis, não se pode comer demais sem ter indigestão.