Artigo do Mês - Ano XX– Nº 231 – Juho de 2021

 

Como sabemos, há atualmente no Brasil uma superabundância de pessoas se apresentando como liberais. Liberais de todos os tipos. Sendo assim, quero mostrar que quando olhamos para as bases filosóficas do liberalismo, é perfeitamente possível fazer uma seleção bastante depurativa, separando o joio do trigo.

É bem verdade que não existe uma tradição unitária, no pensamento liberal e isso sempre levou - e ainda leva - muitos autores a falarem em liberalimo inglês, francês, norte-americano, liberalismo, liberalismo, liberalismo continental, etc... Mas a boa notícia é que é que se pode atribuir ao liberalismo um núcleo mínimo de identidades básicas. O filósofo brasileiro Alberto Oliva, professor titular de filosofia na Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde vive cercado naturalmente por esquerdistas, em livro do início dos anos noventa, (Do dogmatismo arrogante ao desespero cético) defendeu um ponto de vista bastante percuciente, que esposo completamente: o de que existe uma fundamentação filosófica original que serve de apoio à chamada tradição liberal.

Para entender isso melhor, precisamos saber que muitas das controvérsias no campo científico, no campo político, no campo econômico e em outros derivam de diferenças filosóficas básicas entre duas grandes escolas gerais de pensamento. É comum referir-se a ambas pura e simplesmente como racionalismo, mas é importantíssimo distinguirmos entre, de um lado, o racionalismo liberal, que podemos chamar de racionalismo evolutivo, de evolução, ou então, na nomenclatura do Karl Popper, racionalismo crítico e do outro lado o racionalismo construtivista, que  Karl Popper, chamava de racionalismo ingênuo.

Os filósofos gregos da antiguidade dividiam os fenômenos em duas categorias: fenômenos naturais e fenômenos produzidos pelo homem. A partir daí, surgiu uma crença de que não seria possível acontecerem fenômenos que, embora sendo produzidos pela ação humana, não resultassem de uma vontade humana expressa ou explícita. Quem primeiro quebrou essa crença foi Bernard de Mandeville, em 1728, na sua famosa obra A Fábula das Abelhas, em que apontou uma forma de resolver esse dilema. Mandeville, como se sabe, influenciou grandes pensadores da tradição liberal, como David Hume, Adam Smith, Edmund Burke e também, já no século seguinte, por meio das escolas históricas alemãs, o filósofo Friedrich Carl Von Sarvigny.  Esse, por sua vez, embora pertencendo a uma escola oposta  à Escola Austríaca, influenciou Carl Menger, o fundador da Escola Austríaca.

Do outro lado, em oposição a essa tradição britânica, que aceitava a existência de instituições produzidas pelo homem, mas não pelo planejamento, pela vontade expressa, planejada, surgiram os famosos enciclopedistas franceses, que foram influenciados por René Descartes, Jacques Rousseau, Nicolas de Condocet, Voltaire (que, por sinal, era o  pseudônimo de François-Marie Arouet.  E, na Inglaterra,  Thomas Hobbes, o autor do Leviatã, em que defendeu o governo e a sociedade forte, estendendo o cartesianismo da matemática para as ciências sociais e morais. Em sua visão, todas a instituições humanas conhecidas seriam frutos deliberados da razão consciente. Isso conduziu à crença, que se estendeu nos séculos seguintes, a todos os que hoje chamamos de inimigos da liberdade, os antiliberais de que só as instituições pensadas, concebidas pelo desejo humano expresso, ou seja, as instituições planejadas, eram benéficas, e portanto, levou ao erro de desprezar a tradição, os usos, os costumes e a história em geral. Esse racionalismo cartesiano, quando foi transplantado para ciências sociais, alimentou a ideia de que a mente e a razão humanas, por si só, são capazes de permitir ao homem reconstruir novamente a sociedade. Trata-se de uma enorme pretensão, que Hayek mais tarde chamou, já no século XX, de construtivismo. Se formos em busca das origens dessa imodéstia, vamos chegar a Platão. Tais ideias, fortalecendo-se com Descartes, encontraram seguimento além dos autores enciclopedistas e de Hobbes, em Hegel e Marx.

Ao comparamos esse racionalismo cartesiano ou utópico com o racionalismo crítico, que é característico do pensamento liberal, verificamos que o cartesianismo social é a fonte onde vão beber as utopias, como o socialismo, o comunismo e o totalitarismo em geral. Essa visão de mundo, na verdade, é ingênua nas suas crenças, nas suas hipóteses e extremamente arrogante na sua gnosiologia.  Pior do que isso, é perigoso nas experimentações práticas nas sociedades modernas, como a história do século XX e também a deste início do nosso século atestam à exaustão.

Já a alternativa liberal - o racionalismo crítico ou evolutivo - baseia-se em uma visão de mundo realista, que provém da observação dos fatos; humilde, em relação à capacidade e aos poderes da mente humana e bastante cética quanto aos experimentos daquilo que  Hayek chamou, muito acertadamente, com uma felicidade muito grande, de engenharia social.  

Essa engenharia com as vidas alheias nada mais é do que o fruto natural da utopia racionalista de origem cartesiana. Para compreender bem as vantagens que do racionalismo crítico em relação ao construtivista, é essencial que tenhamos a modéstia de, ao considerarmos algumas questões relacionadas ao nosso conhecimento, reconhecermos suas limitações, bem como o fato de que ele sempre se apresenta disperso entre os indivíduos que compõem a sociedade. Essa postura leva os liberais a considerarem como sendo mais adequado para estudar os fenômenos sociais a utilização da negatividade, o negativismo ou falsificacionismo metodológico, um recurso permanente a contraexemplos e refutações.