Artigo do Mês - Ano XXI– Nº 243 – Julho de 2022

 

 

Este artigo é como um desabafo dos justos. O mundo está ficando chato demais. O ar está contaminado por uma sensação incômoda e inaceitável sob qualquer aspecto, de que já não  podemos mais chamar as pessoas pelo que elas de fato são, de que somos constrangidos a endossar comportamentos dos quais discordamos e de que, quando criticamos ideias, somos  quase que forçados primeiro a verificar se quem as  expõe pertence a alguma das chamadas “minorias”, sob o risco de sermos atacados pelas “sentinelas do bem” e rotulados injustamente por uma chuva torrencial de adjetivos e expressões politicamente corretos, todos utilizados à guisa de xingamento e a serviço das causas da esquerda mundial. É tudo um saco! Ninguém aguenta mais!

O exagero dos mimizentos ultrapassa todos os limites do tolerável. Há que se encher de muitos cuidados, todos descabidos: se Pedro critica, por exemplo, o excesso de sal em uma inocente feijoada, preparada por alguma cozinheira, pode ser carimbado de misógino; se Carol discorda da opinião de algum integrante de um movimento negro sobre determinado assunto, de racista; se Tiago desaprova um artigo científico sobre tartarugas marinhas escrito por algum homossexual, de homofóbico; se Cris, mesmo sendo mulher, negra ou homossexual, tem a independência de assumir alguma bandeira da chamada direita e vota no Bozo, de fascista; se Yago manifesta amor a Deus, de ultraconservador; se Luís pisa por descuido em uma lagartixa sonolenta, de antiambientalista; se Letícia se revolta com um assaltante que atirou em um inocente, de socialmente insensível; se Gustavo elogia a beleza de uma colega de escritório, de machista assediador; etc.

O policiamento das patrulhas politicamente corretas é tamanho que muitos se sentem constrangidos e quase que obrigados, sempre que se atreverem a criticar uma ideia - por mais absurda que possa ser - exposta por alguma pessoa que faça parte das endeusadas minorias, a afirmarem coisas como: “não tenho nada contra homossexuais, pois tenho até amigos que são”, ou “não estou atacando os ateus, tenho vários amigos ateus”, etc., como que pedindo desculpas, simplesmente porque não concordam com o que a referida pessoa e os seus pretensos defensores pensam.

Em suma, os ditos “progressistas” venceram a guerra da linguagem e é por isso que está ficando cada vez mais difícil externar opiniões e ideias sem ser condenado de antemão pelos destacamentos, fortemente armados com fuzis carregados de falácias, dos combatentes progressistas que dão plantão permanente na imprensa, nas universidades, na política e, ultimamente, no Judiciário.

Infelizmente, o Ocidente está sendo ameaçado por um perigo sem precedentes - o do avanço das pautas disseminadoras de divisões, especialmente aquelas que se escondem nas narrativas de defesa dos direitos das minorias. Esse incitamento dialético ao choque entre “nós, os bonzinhos, explorados, coitadinhos, marginalizados” e “vocês, os malvados, exploradores, brancos e poderosos” vem influenciando progressivamente a política de muitos governos e organismos internacionais.  Se você acha que há algum exagero nessa afirmativa, faça a si mesmo as perguntas seguintes.

Quem está mandando na União Europeia, são os conservadores ou é a esquerda? E na atual administração dos Estados Unidos? E no Forum Econômico Mundial, de Davos? E na ONU, na OMS, na Unesco, na Unicef? E na imprensa tradicional? E nos bancos centrais? E na corte constitucional do Brasil? A tradição judaico-cristã ocidental não está sofrendo fortes e sistemáticos ataques? O que vem acontecendo na Alemanha, na França, na Espanha, na Itália, em Portugal, na Holanda, nos países escandinavos, em toda a América do Norte, em boa parte da América do Sul e até no Sri Lanka? E os usos, costumes, valores e princípios da nossa civilização, consagrados durante séculos, não estão também sofrendo bombardeios impiedosos?  

E mais: Que governos e partidos, mesmo os que se dizem ou são tidos como conservadores estão de fato combatendo os excessos cada vez mais bizarros do feminismo, do gaysismo, do ambientalismo, do racismo, do coletivismo e de outros ismos, com bandeiras supostamente levantadas para proteger fracos e oprimidos das investidas perversas de fortes e de opressores, mas cuja verdadeira finalidade é subjugar todos – minorias e maiorias – com a implantação de uma “nova ordem mundial”, em que a liberdade individual será apenas um pormenor a ser desprezado?

A verdade é que a Europa e toda a América estão infectadas pelas pautas minoritárias: o Partido Democrata norte-americano, outrora respeitável, vem-se nutrindo quase que exclusivamente da retórica identitária e do discurso da diversidade, mais se parecendo com uma versão em inglês do PSol; os partidos de esquerda latino-americanos estão dominando quase toda a área, produzindo degradação dos costumes, escassez, fome, pobreza e inflação com suas políticas descabidas; e, no Brasil, o PT e seus satélites vivem às custas de uma suposta defesa das minorias, empenhando-se – com a ajuda do Judiciário e da imprensa – pela aprovação de leis que fortaleçam a sua visão de mundo.

As minorias estão mandando no mundo político e impondo paulatinamente a régua tirânica com que medem as supostas virtudes por elas monopolizadas, moldando assim a sociedade ao totalitarismo a que aspiram, mas que por enquanto (ainda) ocultam. Dizem promover a diversidade, mas não aceitam opiniões diferentes das suas. São estelionatários: vendem democracia e virtudes, mas o que querem entregar é servidão e pobreza.

Parece irrefutável que estamos vivendo uma ditadura absolutamente desproporcional das minorias, pois, embora saibamos que, desde sempre, sejam elas que ditam os rumos políticos (o que representam, por exemplo, 21 senadores e 513 deputados federais em comparação a 220 milhões de brasileiros?), quem lhes outorga temporariamente esse direito são as maiorias. Isso se explica na prática porque as maiorias necessitam de grupos para administrar as sociedades em seu nome e esses grupos são formados necessariamente por minorias numéricas. Isso, em princípio, nada tem de totalitarismo ou tirania, mas desde que efetivamente represente a vontade das maiorias, sujeita periodicamente a revisões em cada eleição.

Todavia, o que está acontecendo hoje no mundo é bem diferente disso. São minorias ideológicas que se dizem “progressistas” e que se acham aptas e no direito de modificarem a sociedade humana, desconstruindo - descarada e criminosamente - milênios de costumes, usos e tradições que se cristalizaram espontaneamente, século após século. Esses que se acham donos do mundo são fundados no relativismo moral, no niilismo, no racionalismo utópico e na consequente engenharia social. Querem nos fazer felizes à maneira deles.

A Agenda 2030 da ONU, ou a Nova Ordem Mundial, ou, ainda, a ESG (de environmental, social e governance) nada mais são do que nomenclaturas espertamente construídas para defender a tentativa, por parte de um grupo político-financeiro internacional, de impor um projeto de poder, com vistas a destruir a Weltanschauung, a cosmovisão ocidental, um processo espontâneo esculpido com muito esforço ao longo de séculos de tentativas e erros. A Weltanschauung (que, traduzido do alemão, significa o modo pelo qual a pessoa vê ou interpreta a realidade, algo como um paradigma), é uma ordem evolutiva natural, que ao fim e ao cabo configura a maneira como um indivíduo ou um povo, entendido como uma média dos indivíduos, enxerga Deus, o bem, o mal, a condição humana, os valores, o destino, a vida, enfim. A cosmovisão da tradição ocidental judaico-cristã é a teísta, que admite um só Deus infinito e pessoal, que existe no universo e além dele, que criou todas as coisas visíveis e invisíveis e as sustenta de maneira sobrenatural.

Pois bem, meia dúzia de illuminati, com imenso poder econômico e cacife político – os globalistas da Nova Ordem - decidiram que temos de abandonar toda a tradição, todos os usos e todos os costumes que vêm evolvendo desde nossos ancestrais mais remotos e se consagraram, assim como toda a naturalidade, em favor de uma cosmovisão particular, concebida em suas cabeças, em gabinetes ou pranchetas e que apresentam como superior. Trata-se da engenharia social levada ao seu extremo, contra a qual Hayek insurgiu-se no século XX. Esses exterminadores da nossa liberdade, verdadeiros inimigos da humanidade, esses psicopatas que brincam com a vida dos outros, simplesmente resolveram nos fazer felizes à sua maneira, ou seja, querem nos obrigar a só fazer aquilo que eles querem que façamos, transformando-nos em bilhões de robôs e ainda por cima muito satisfeitos por estarmos obedecendo à sua vontade. Isso é desumano, tirânico e absolutamente inaceitável.

Os candidatos a donos do mundo são extremamente arrogantes. Trazem a democracia na boca, mas a tirania nas ações, pois o seu intuito é impor à sociedade a sua vontade exclusiva. São perigosamente mentirosos, porque falam em nome dos princípios característicos da democracia, como o da igualdade de todos perante a lei, mas os distorcem e os levam às últimas consequências, ao se proporem a domesticá-los e homogeneizá-los, sufocando as individualidades que caracterizam a espécie humana, em nome de um “bem comum” – a igualdade absoluta, a “mãe terra”, o clima, a diversidade, etc. -, que, na verdade, é o bem deles.  

São inimigos da civilização; desconstroem a razão; relativizam a Verdade cristã; subvertem os princípios, valores e instituições construídos naturalmente durante milênios; proíbem a divergência e o debate; enfim, são monstros totalitários travestidos de protetores dos pobres e das minorias.  

É interessante mencionar que há estudos sobre comportamento de massas sugerindo que minorias podem conseguir alterar comportamentos já estabelecidos como padrões, mudando dessa maneira as convenções sociais. Segundo essas investigações, para alterar o comportamento da sociedade, não é preciso que as minorias se transformem em maiorias numéricas, ou seja, em mais de 50%; é necessário apenas de 1/5 a 1/4 da população para mudar o comportamento dos restantes 4/5 a 3/4.

Ora, isso significa que as minorias intolerantes descritas representam um enorme perigo, não apenas no campo teórico das ideias, mas no funcionamento da sociedade ocidental e que, portanto, temos o dever moral de enfrentá-las em defesa da nossa liberdade. Ressalte-se que essas minorias só podem manifestar sua intolerância opressora em sistemas que lhes dão liberdade para que a usem com vistas a destruir o próprio sistema, ou seja, elas utilizam exatamente a liberdade para destruí-la por dentro. Por isso, para combatê-las, não podemos aceitar que corroam a nossa liberdade de expressão, privando-nos do direito de apontar o perigo que representam. Por menores que sejam tais minorias, dadas a sua capacidade de convencer as maiorias e a velocidade do processo de cooptação, é preciso tomar muito cuidado com elas e não subestimá-las, mesmo que inicialmente os intolerantes possam parecer pequenos em número e fracos em representatividade.

Não podemos admitir nenhuma brincadeira com a nossa liberdade.

 

 

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