Como a economia do país resiste, apesar das adversidades e do Estado que atrapalha a produção de riquezas
 
18 SET 2020, 08:51

O avião vai lentamente se afastando do terminal de passageiros, em direção à cabeceira da pista. Dali, seu comandante, impávido, aguardará a ordem de decolar o colosso. O céu naquele momento é formoso, risonho e límpido, convidando ao voo, cujo destino é o Brasil do futuro, que todos os passageiros e tripulantes fantasiam há muitas décadas como a era em que os negócios prosperam, os objetivos se concretizam e a própria felicidade floresce.

Passa, porém, o tempo e a torre não emite a ordem. Durante a longa espera, há momentos em que todos a bordo parecem sentir, pelo barulho mais forte do motor, que a hora de alçar voo finalmente chegou, mas em seguida a intensidade e o volume do ronco caem até que a cabine emite o temido aviso de que o voo foi cancelado e todos terão de desembarcar. É como se a história, que todos ali se preparavam esperançosamente para passar a limpo no futuro, se recusasse a fazê-lo e o amanhã sorridente tivesse sido engolido, sem ser vivido, pelo ontem sisudo, reforçando a sensação falsa de que o passado é apenas um futuro de segunda mão, usado, cheio de garranchos e encontrável no brechó que cada um tem no cérebro.

Quem de nós ainda não sentiu essa inquietação, essa angústia de que somos passageiros de um avião que sempre aparenta estar pronto para decolar, mas que é obrigado a refugar, porque lá da torre os controladores — nossas instituições políticas, econômicas, morais e culturais — parecem que se comprazem no prazer mórbido de adiar a autorização?

 
A interação dos mais talentosos, capazes, diligentes e sortudos com os sem talento, incapazes ou azarados resulta em benefício para todos
 
 
28 AGO 2020, 08:31
 

Ele tem 49 anos, nasceu em Pretória, tem tripla nacionalidade (sul-africana, canadense e norte-americana) e, desde 17 de agosto, é a quarta pessoa mais rica do mundo, com patrimônio estimado, de acordo com a Bloomberg, em US$ 95,2 bilhões. É Elon Musk, fundador, CEO e CTO da SpaceX, CEO da Tesla Motors, vice-presidente da OpenAI, fundador e CEO da Neuralink e cofundador e presidente da SolarCity, e sua fortuna agora só é inferior às de Jeff Bezos, da Amazon (US$ 194 bi), Bill Gates, da Microsoft (US$ 122 bi), e Mark Zuckerberg, do Facebook (US$ 102 bi).

Notícias assim costumam provocar coices, como o desferido em janeiro deste ano pelos “progressistas” da Oxfam, antes da reunião anual do Fórum Econômico Mundial, em Davos: “O 1% mais rico do mundo tem mais do que o dobro da riqueza do resto da humanidade combinada”. Daí segue-se o conhecido clamor para que os governos adotem políticas contra as “desigualdades”.

 
 
 
Ao contrário do que parece, os impactos da informalidade nem sempre são prejudiciais e podem mesmo ser benéficos
 
 
3 JUL 2020, 08:29
 
 

Jorge está pensando em abrir um pequeno negócio, que ele estima ter potencial para gerar uma renda anual de $100. Mora no subúrbio de uma capital, é um cidadão correto e deseja legalizar a empresa. Contudo, para atender a todas as exigências da versão moderna da Hidra de Lerna — o monstro mitológico de cabeças regeneráveis e automultiplicáveis em que o Estado moderno se transformou —, além das despesas de registro, terá de desembolsar $40 todos os anos em taxas, impostos e outras tungadas do ogro estatal.

De início, surge uma dúvida: será que o governo alocará esse montante mais eficientemente do que Jorge o fará, caso este decida que é mais compensador não registrar a empresa e usar os $40, por exemplo, para abrir uma filial em outro bairro, que lhe renderia mais $100 todos os anos e geraria empregos para dois ou três balconistas? Quem pode garantir que o Estado não vai destinar os $40 que tomará de Jorge para um fundo partidário, remunerar os seguranças de um ex-presidente condenado em três instâncias ou pagar lagostas a ministros? Não será melhor para ele e para os balconistas e suas famílias — e menos desrespeitoso com todos os pagadores de impostos — que o negócio não seja legalizado? Quem, nesse caso, fere a ética, a clandestinidade de Jorge ou a prodigalidade do Estado com o dinheiro dos outros?

 
 
 
 
Os grandes bancos terão de se adaptar à nova realidade dos juros e reavaliar seus serviços digitais, hoje tratados apenas como uma maneira de reduzir custos e não como um instrumento para facilitar a vida do cliente
 
 
14 AGO 2020, 08:40
 

O mundo vive uma conjuntura de taxas de juros extremamente baixas, políticas monetárias assustadoramente expansionistas e políticas fiscais desenfreadamente intervencionistas. A justificativa, para lá de conveniente, é o vírus chinês. No Brasil, no dia 5 deste mês, oito indivíduos — conhecidos na intimidade como “Copom” —, em decisão unânime, reduziram a taxa básica de juros (Selic) de 2,25% para 2% ao ano. É a menor taxa em 21 anos, desde que o regime de metas de inflação foi adotado. Foi o nono corte seguido e o quarto desde agosto de 2019. A nova taxa de juros real (a diferença entre a Selic e a taxa de inflação) está agora na casa de –0,71% ao ano. Sim, uma taxa de juros negativa. Significa que, caso o investidor bote o dinheiro na poupança, em um ano, considerando a inflação do período, sairá no prejuízo. Nossa taxa de juros, que já era uma das menores do mundo, ficou ainda mais perto da liderança no campeonato disputado pelos bancos centrais para ver qual “estimula” mais a economia.

Taxas de juros baixas, sem dúvida, gozam da simpatia de apresentadores de telejornais, políticos, torcedores de todos os clubes e até de certos economistas que seguem teorias aprendidas em livros de ficção econômica adotados em suas universidades de origem. Quem ainda não viu cenas como essas? Um popular, na passarela sobre a linha do trem: “Que bom, agora posso trocar a geladeira!”. O gerente da loja que fica ali perto: “Vou vender mais!”. A moça no telejornal: “Quando o governo diminui a taxa de juros, o investimento aumenta e a economia volta a crescer”. O “especialista” da TV a cabo: “Finalmente, o governo retomou a agenda da prosperidade”. Não é verdade? Acresça-se a essa inclinação por juros baixos — que beira a tara — o incentivo de que, em tempos pandêmicos, tudo parece ser motivo para os governos soltarem as rédeas e aquecerem a demanda.

 
 
 
Sabe a história do pai de família que morre deixando dívidas para os filhos negociarem com agiotas? Com o Estado, não é muito diferente
 
 
29 MAIO 2020, 10:07
 
 

Há princípios econômicos que, mesmo triviais e consagrados por usos e costumes milenares, são desprezados por muitos cidadãos, entre os quais economistas que padecem de um misterioso distúrbio crônico, o de marcar qualquer verdade incômoda, por mais elementar que seja, com o carimbo de “dogma”, “simplismo” e “velharia”, que precisa de rediscussão e refinamento. Tal patologia explica o surgimento, de tempos em tempos, de teorias relativistas rocambolescas, que se esforçam na musculação para transformar periquitos em pavões, aves mais afeitas ao exibicionismo de seus proponentes.

A pandemia trouxe de volta certos seres que já se podem avistar gargalhando como hienas, prevendo o fim do liberalismo econômico. O Brasil não pode mais perder tempo com essas ideias. Não podemos permitir que políticos em geral e economistas heterodoxos, hoje na oposição, mas que já contribuíram com mérito e louvor para afundar o país, transformem as despesas transitórias, que a União será obrigada a engolir, em orgia fiscal permanente. O verdadeiro “desenvolvimentismo” é dizer não a todos eles.