É imoral transferir para as futuras gerações os ônus de gastos financiados por moeda, sob a aparência de caridade, pois isso significa extorsão transferida para nossos netos
 
 
10 ABR 2020, 08:22
 

Henrique Meirelles, o atual secretário de Fazenda e Planejamento de João Doria, ex-ministro da Fazenda de Temer e ex-presidente do Banco Central nos dois primeiros mandatos petistas, deu uma declaração que, embora eu prefira acreditar ser apenas política, vem provocando polêmica entre os que se preocupam com a economia.

Segundo ele, é hora de o governo federal aumentar fortemente suas despesas para conter os impactos do novo coronavírus na saúde e na economia. Até aí, nada substancialmente diferente do que boa parte dos economistas vem dizendo. Com efeito, em situações emergenciais e inéditas como a provocada pelo vírus chinês, mesmo liberais como o economista e filósofo austríaco Friedrich Hayek (1889-1992) aceitam que o governo socorra os mais necessitados, mas sob a condição de que o socorro seja transitório. 

A polêmica surge quando Meirelles afirma que “isso deve ser feito inclusive com a criação de moeda pelo Banco Central e com a captação de recursos pelo Tesouro Nacional por meio da emissão de dívida”. E ganha tintas carregadas quando acrescenta que a retração da economia será tão forte que não existe risco de inflação caso a autoridade monetária até mesmo emita moeda para o pagamento, entre outras medidas, do auxílio emergencial de 600 reais concedido aos brasileiros de baixa renda durante pelo menos três meses. Em suas palavras: “O Banco Central tem grande espaço para expandir a base monetária, ou seja, imprimir dinheiro, na linguagem mais popular, e, com isso, recompor a economia. Não há nenhum risco de inflação nessa situação”.

Em resumo, Meirelles está incentivando o governo a aumentar a dívida pública e a inflacionar, embora dê outro nome à segunda dessas sugestões. Cabe de início frisar que o problema está longe de ser de falta de liquidez e que, se alguma política precisa ser executada, é preferível que seja a fiscal, especialmente por causa da taxa de câmbio, que já se encontrava bastante desvalorizada antes do desembarque do vírus em Cumbica.

Com a vênia de praxe, o risco de inflação existe e, para piorar as coisas, ele é de 100%.

Explico. Para começar, é preciso esclarecer o que é inflação. Para isso, é melhor dizer antes o que ela não é — e que, infelizmente, é exatamente o que muitas pessoas, inclusive economistas, pensam que é. Imagine que na medição da temperatura de um paciente, o termômetro acuse 38 graus de febre. Certamente, há alguma causa para isso. Digamos que ele tenha se exposto sem agasalho a um vento gelado e que por isso tenha contraído uma gripe. Logo, a causa foi o vento, este provocou a gripe e esta, por sua vez, fez subir a temperatura.

A febre, portanto, é só a manifestação, o efeito inevitável da imprudência. Da mesma forma, quando alguém observa que os índices de preços sobem mês a mês, isso tem necessariamente uma causa. Os preços estão subindo porque, certamente, algum fato sucedido antes provocou essa subida. Quase todos chamam de inflação os aumentos contínuos e generalizados de preços, mas eles não são a inflação, são simples efeitos, inevitáveis, da inflação. Vamos destrinchar isso com um exemplo simples do extraordinário economista austríaco Ludwig von Mises (1881-1973), adaptado aos dias presentes.

Considere duas mercadorias, o pão (abundante) e o álcool em gel 70% (que nestes dias é escasso). Se, por qualquer motivo, a oferta de álcool aumentar substancialmente em relação à de pães, seu preço, ou seja, a relação de troca entre álcool e dinheiro — ou entre álcool e outras mercadorias —, vai se alterar consideravelmente em relação ao atual: será possível entrar em uma farmácia e comprar álcool a preços muito menores que os praticados hoje. Da mesma forma, se o governo imprimir dinheiro sem nenhum lastro (ouro, como era no passado, ou um acréscimo de produção), o poder de compra de cada real em circulação, mais cedo ou mais tarde, vai diminuir e as quantidades de pães, de álcool, de máscaras, de hidroxicloroquina e de todas as outras mercadorias que podem ser adquiridas com 1 real também vão cair.

A emissão de moeda, a inflação, só vai se manifestar nos preços alguns meses depois.

Da mesma forma, o insensato citado acima pode ter-se exposto ao vento gelado, por exemplo, em um sábado, mas é possível que a gripe só tenha se manifestado dois ou três dias depois. Dois pontos essenciais precisam ser enfatizados, então, se o Banco Central seguisse ao pé da letra o conselho do secretário de Fazenda de São Paulo. O primeiro é que a “febre” da economia vai aparecer um dia, ou seja, os preços vão inevitavelmente aumentar. E o segundo é que esse aumento não depende de existir ou não desemprego de mão de obra e de outros fatores de produção.

“Emitir moeda sem lastro hoje” e “inflacionar hoje”, sempre, em qualquer país, com ou sem covid-19, é a mesmíssima coisa. Se houver retração econômica — e certamente isso acontecerá —, os preços vão demorar a subir, mas, assim que a recuperação tiver fôlego, eles começarão a aumentar, porque sempre que há mais dinheiro o valor do dinheiro cairá em relação ao de todos os outros bens, assim como uma supersafra de batatas, por exemplo, derrubará o preço da batata em relação aos demais. A ação humana ao longo do tempo e em condições de incerteza genuína, base de toda a economia do mundo real, simplesmente, não deixa de existir, com ou sem crise e desemprego.

Se, em vez de dar R$ 600 a cada necessitado, o governo, por exemplo, der 4 gramas de ouro, de onde virá esse ouro? Não é óbvio que ele vai ter de ser tirado de alguém? Analogamente — e que não venham dizer que isso é “simplista” —, imprimir moeda sem lastro é como tirar o ouro e — pior! — justamente dos mais carentes, que não conseguem se defender dos efeitos nocivos da inflação. É imoral transferir para as futuras gerações os ônus de gastos financiados por moeda (bem como por maior dívida), sob a aparência de caridade, pois isso significaria extorsão transferida para nossos netos.

O que escrevi não significa nenhuma subestimação dos efeitos catastróficos da “coronacrise” sobre a economia mundial. Como o gráfico do Grupo Eurasia mostra, a devastação será praticamente em todo o planeta, vai-se distribuir de modo desigual entre os países e os efeitos esperados sobre o Brasil deverão ser substanciais. Entretanto, por se tratar de algo absolutamente inédito, a incerteza é gigantesca, tudo poderá acontecer e qualquer estimativa, da mais até a menos pessimista, neste momento, será um palpite em forma de equações. Além disso, esses exercícios apresentam metodologias que diferem entre si e dependem de eventos bastante imprevisíveis, como o tempo decorrido em cada país entre o início e o fim da pandemia.

Parece que os próximos meses serão tristemente emocionantes, porque todos os países estão “chamando o Meirelles”.

 

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Ubiratan J. Iorio é doutor em Economia (EPGE/FGV), presidente do Conselho Acadêmico do Instituto Mises Brasil e professor associado (aposentado) da Uerj.