A América Latina segue uma marcha decidida rumo ao atraso. Seu lema parece ser: 'Avante, para trás!'

“O que tem sido a esquerda do Terceiro Mundo senão a distribuição
efetiva da pobreza, pela incompetência na criação de riquezas?”
Roberto Campos

O tempo passa, o mundo gira, debutantes tornam-se avós, velhos sobrados caem e arranha-céus brotam em seu lugar, cabelos encanecem, o futuro vai-se transformando incessantemente em presente e logo em seguida em passado, mas há lugares em que parece que nada disso acontece, em que o estoque de conhecimentos que se acumula e modifica com o tempo, em vez de evitar novos erros, os multiplica. Esse quadro de tintas kafkianas parece descrever bem a Argentina, como, de resto, a América Latina. É uma marcha decidida rumo ao atraso, a demonstrar como são esforçados os políticos da região em prol do “progresso da decadência”. Seu lema parece ser: “Avante, para trás!”.

À América Latina apetece caminhar permanentemente, a passos largos e decididos, na estrada esburacada que leva à perpetuação da pobreza e ao distanciamento do Primeiro Mundo. Não aprendeu a lição da história de que o maior dos insumos para o desenvolvimento é a liberdade, mais especificamente, a tríplice liberdade: política, econômica e de livre expressão. A região, que em 1776 tinha um PIB equivalente ao das treze colônias que originaram os Estados Unidos e que teve até agora exatos 245 anos para fazer o dever de casa, prefere insistentemente gazetear para, descalça, ir bater uma bolinha no terreno baldio e cheio de cacos de vidro do populismo. Com efeito, a região experimenta impressionantes recaídas patológicas em erros cometidos no passado, que por si só explicam a sua pobreza. É um abyssus abyssum invocat, um abismo chamando outro abismo, que por sua vez atrai outro e mais outro, em que cada erro cometido é decorado, soletrado, repetido e posto sucessivamente em prática.

As causas dessa deterioração decorrem de um coquetel

que mescla aspectos culturais, econômicos e políticos

A Argentina já foi uma potência econômica, mas vem mergulhando progressivamente na decadência há mais de sete décadas. Aquele gigante do início dos anos 30 encolheu e transformou-se em um anão, hoje o segundo mais baixo de toda a América Latina, superando em miséria apenas o gnomo da Venezuela. De fato, era um dos países mais ricos do mundo, com PIB per capita superior aos da Alemanha e da França, a economia turbinada pela agricultura que recebia levas de trabalhadores italianos, espanhóis e de vários outros países, centro intelectual, acadêmico e artístico respeitado, que atraía livremente capitais internacionais, principalmente ingleses, alemães, franceses e belgas, para desenvolverem sua indústria e o sistema de transporte ferroviário. Hoje, não é nem uma paródia de tudo aquilo.

Para compreender as causas dessa deterioração, precisamos recorrer a um coquetel que mescla aspectos culturais, como a alma bastante peculiar dos argentinos; econômicos, como o nacionalismo ingênuo, o protecionismo bravateiro e o intervencionismo pueril; e políticos, como o gosto por rupturas institucionais e pelo populismo. A mistura de todos esses ingredientes, especialmente a partir dos anos 30 do século passado, permite compreender a situação deplorável atual.

No que diz respeito ao sistema cultural que compõe o ethos nacional, há que ressaltar o estranho caso de dependência do povo — com componentes de verdadeira adoração — por ídolos e protetores da pátria, ao extremo de Evita e Isabelita, as duas mulheres de Juan Domingo Perón, serem alçadas ao altar do marido, formando uma trindade de símbolos nacionais, do populismo, nacionalismo e intervencionismo. E não foi por feminismo precoce, mas apenas um traço da cultura popular, assim como Gardel no tango, Fangio no automobilismo e Maradona no futebol.

Isabelita Perón | Foto: Domínio Público

O início da deterioração econômica da Argentina remonta à década de 30, quando a Grande Depressão derrubou as exportações do país, levando a um golpe militar, o primeiro dos seis que aconteceram entre 1930 e 1983 e que conduziram a ditaduras que primavam invariavelmente pela combinação fatal de políticas nacionalistas, protecionistas e de substituição de importações, com o propósito absolutamente equivocado e inalcançável de fazer a economia ser autossuficiente. As consequências dessas políticas foram as de sempre: produtos nacionais de qualidade inferior e caros, em prejuízo dos consumidores. No entanto, não foram exclusivas das ditaduras, mas também dos governos eleitos depois.

Juan Domingo Perón, uma variante em espanhol de Getúlio Vargas, ao chegar à Presidência em 1946, não só manteve esses erros como acrescentou outro, o populismo. Aumentou os gastos públicos, fortaleceu o sindicalismo e criou uma legislação trabalhista na mesma linha de Mussolini, que Vargas implantara no Brasil. A essa altura, a inflação de preços, fomentada pela inflação monetária, já arreganhava a bocarra. Perón foi reeleito para um segundo mandato em 1952, mas foi deposto em 1955 por um golpe militar e exilou-se na Espanha, retornando à Argentina em 1973, para ser eleito, pela terceira vez, naquele mesmo ano, vindo a falecer em meio ao mandato, em 1974. Assumiu então a vice-presidente, sua esposa, Isabelita, que, entretanto, foi derrubada em 1976 por outro golpe militar, comandado por Jorge Videla.

Juan Domingo Perón e Evita Perón | Foto: Domínio Público

A ditadura encerrou-se no final de 1983, quando Raúl Alfonsín foi eleito pelo voto direto, mas os problemas estavam longe de terminar. Em 1984, a inflação alcançou 700% e o FMI decretou a falência do país, levando Alfonsín a decretar no ano seguinte o Plano Austral, com um congelamento geral de preços e salários — o crime mais hediondo que se pode cometer sobre a ordem econômica — e a primeira das cinco mudanças de moeda pelas quais passou o país em poucos anos.

Raúl Alfonsín | Foto: Domínio Público

Sucederam-se episódios que mais pareciam filmes de terror: os gastos públicos e a emissão de moeda continuaram a crescer, desembocando em uma hiperinflação, que chegou a 5.000% ao cabo de 1989, o povo revoltou-se e Alfonsín teve de renunciar em maio daquele ano, sendo substituído por Carlos Menem, que assumiu em julho. O programa de Menem era liberal, com liberdade de preços, abertura econômica (comercial e financeira), reformas tributária e administrativa e privatizações. Em 1991, o ministro da Economia, Domingo Cavallo, adotou o currency board, substituindo o austral pelo peso e ancorando este ao dólar, na razão de 1:1.

Porém, ventos adversos vieram do exterior. Primeiro, do México, que em dezembro de 1994 sofreu um ataque especulativo, com os investidores internacionais retirando seus capitais daquele país e criando a expectativa de que fariam a mesma coisa nas demais economias emergentes, levando o chamado efeito tequila à Argentina. Começou então uma fuga de capitais que ameaçava o currency board e as taxas de juros subiram fortemente, com o consequente aumento do desemprego, da dívida pública e dos gastos do governo. Sobrevieram mais dois ventos destruidores, o primeiro da Ásia, em 1997, e o segundo da Rússia, em 1998, e o que já era ruim ficou pior. Para usar a linguagem da moda, as coisas não despioravampelo contrário, desmelhoravam cada vez mais…

O mandato seguinte, de Fernando de la Rúa, iniciado em 1999, não foi menos problemático: fuga de capitais, especulações de abandono da conversibilidade, mais fugas de capitais. De la Rúa pediu socorro a Cavallo, que aumentou tarifas, tributou as transações financeiras e, em junho de 2001, acabou com o regime de conversibilidade. As coisas evoluíram para pior e, na tentativa de impedir o colapso financeiro, o governo impôs o corralitouma arbitrariedade sem precedentes, em que congelou por doze meses todas as contas bancárias, proibiu saques em dólares e limitou a 250 pesos por semana as retiradas bancárias de todas as pessoas. Um brutal confisco. O que se seguiu era previsível: o FMI perdeu a paciência e “cancelou” a Argentina, De la Rúa decretou estado de sítio, aconteceram cacerolazos em todo o país, Cavallo renunciou, as coisas ficaram tensas demais, um protesto na Plaza de Mayo resultou na morte de 39 pessoas, De la Rúa saiu pelos fundos e nos 12 dias que se seguiram houve cinco trocas de presidentes, até que Eduardo Duhalde assumisse o cargo, em que permaneceu de janeiro de 2002 até maio de 2003.

Carlos Menem e Fernando de la Rúa | Foto: Divulgação

O drama, contudo, não havia terminado. Pelo contrário, com o presidente seguinte, Néstor Kirchner, que governou de 2003 a 2007 e foi sucedido por sua mulher, Cristina Kirchner, que permaneceu no poder de 2007 a 2015, veio o kirchnerismo, a versão socialista do peronismo, inclusive na corrupção. Em 2015, o povo resolveu trocar os rumos, elegendo Mauricio Macri, com uma proposta liberal que, contudo, não conseguiu levar adiante, seja por falta de audácia, seja pelas enormes resistências que encontrou. Em dezembro de 2019, com a eleição de Alberto Fernández — um “poste” de sua vice, a senhora Kirchner —, a Argentina, infelizmente, tomou a estrada rumo à venezuelização, o caminho socialista da servidão.

Néstor e Cristina Kirchner | Foto: Divulgação

Quando, no início de 2020, a peste chinesa desembarcou no país, a resposta do novo governo foi “perfeita” — sob o ponto de vista do que se deve sempre esperar de socialistas —, ou seja, desastrosa. Trancaram a população em casa a pretexto de resguardar a saúde pública e passaram a pôr em prática a cartilha do socialismo: aumento dos gastos públicos, controles fortes de preços, proibição da demissão de trabalhadores do setor privado, suspensão por um mês das exportações de carne e emissão desenfreada de moeda para pagar aos empregados de empresas privadas, esperando com isso evitar o seu fechamento. Para financiar o déficit fiscal crescente, o Banco Central argentino emitiu em 2020 cerca de 1,3 trilhão de pesos, equivalentes a aproximadamente 100 bilhões de reais, com as duas fábricas de moeda do país trabalhando 24 horas por dia. A inflação, obviamente, está em alta e descontrolada, com tendência a se agravar, o peso não para de se desvalorizar, as reservas internacionais caíram para menos de 3 bilhões de dólares (ou 16 bilhões de reais), muitas empresas estão quebrando, o governo reestatizou outras, há escassez de produtos e 40% dos argentinos vivem na pobreza.

Mauricio Macri Foto: Divulgação

O quadro argentino, em suma, é desesperador, como mostra a reportagem de capa desta edição de Oeste, embora a imprensa brasileira tradicional, em sua ânsia de bajular o socialismo e de derrubar a direita, venha se esforçando, acintosa e até mesmo criminosamente, para esconder a verdade.

Alberto Fernández, o atual presidente da Argentina | Foto: Divulgação

Nas paragens latino-americanas ainda se crê que o Estado, pretenso detentor do conhecimento e das boas intenções, pode “criar” desenvolvimento e melhorar a vida das populações, especialmente a dos pobres. Essa crença inchou o Leviatã, transformando-o em um monstro pré-histórico balofo e lerdo, incapaz de controlar os próprios movimentos. Quais os resultados positivos disso? Nossos países se desenvolveram? A miséria foi erradicada? A pobreza foi reduzida aos padrões mínimos de dignidade da pessoa humana? A renda tornou-se menos concentrada?

Definitivamente, a Argentina, a exemplo de outros países vizinhos, não aprendeu a lição e, ao optar pelo engodo do socialismo, foi como se resolvesse prescrever cachaça para um alcoólatra. Esperemos que nossos hermanos esconjurem seus “encostos”, para que a luz da liberdade volte a iluminá-los. E que o Brasil não recaia jamais na esparrela de 2003-2016.

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Ubiratan Jorge Iorio é economista, professor e escritor. @ubiratanjorgeiorio