Os grandes bancos terão de se adaptar à nova realidade dos juros e reavaliar seus serviços digitais, hoje tratados apenas como uma maneira de reduzir custos e não como um instrumento para facilitar a vida do cliente
 
 
14 AGO 2020, 08:40
 

O mundo vive uma conjuntura de taxas de juros extremamente baixas, políticas monetárias assustadoramente expansionistas e políticas fiscais desenfreadamente intervencionistas. A justificativa, para lá de conveniente, é o vírus chinês. No Brasil, no dia 5 deste mês, oito indivíduos — conhecidos na intimidade como “Copom” —, em decisão unânime, reduziram a taxa básica de juros (Selic) de 2,25% para 2% ao ano. É a menor taxa em 21 anos, desde que o regime de metas de inflação foi adotado. Foi o nono corte seguido e o quarto desde agosto de 2019. A nova taxa de juros real (a diferença entre a Selic e a taxa de inflação) está agora na casa de –0,71% ao ano. Sim, uma taxa de juros negativa. Significa que, caso o investidor bote o dinheiro na poupança, em um ano, considerando a inflação do período, sairá no prejuízo. Nossa taxa de juros, que já era uma das menores do mundo, ficou ainda mais perto da liderança no campeonato disputado pelos bancos centrais para ver qual “estimula” mais a economia.

Taxas de juros baixas, sem dúvida, gozam da simpatia de apresentadores de telejornais, políticos, torcedores de todos os clubes e até de certos economistas que seguem teorias aprendidas em livros de ficção econômica adotados em suas universidades de origem. Quem ainda não viu cenas como essas? Um popular, na passarela sobre a linha do trem: “Que bom, agora posso trocar a geladeira!”. O gerente da loja que fica ali perto: “Vou vender mais!”. A moça no telejornal: “Quando o governo diminui a taxa de juros, o investimento aumenta e a economia volta a crescer”. O “especialista” da TV a cabo: “Finalmente, o governo retomou a agenda da prosperidade”. Não é verdade? Acresça-se a essa inclinação por juros baixos — que beira a tara — o incentivo de que, em tempos pandêmicos, tudo parece ser motivo para os governos soltarem as rédeas e aquecerem a demanda.

 
 
 
Ao contrário do que parece, os impactos da informalidade nem sempre são prejudiciais e podem mesmo ser benéficos
 
 
3 JUL 2020, 08:29
 
 

Jorge está pensando em abrir um pequeno negócio, que ele estima ter potencial para gerar uma renda anual de $100. Mora no subúrbio de uma capital, é um cidadão correto e deseja legalizar a empresa. Contudo, para atender a todas as exigências da versão moderna da Hidra de Lerna — o monstro mitológico de cabeças regeneráveis e automultiplicáveis em que o Estado moderno se transformou —, além das despesas de registro, terá de desembolsar $40 todos os anos em taxas, impostos e outras tungadas do ogro estatal.

De início, surge uma dúvida: será que o governo alocará esse montante mais eficientemente do que Jorge o fará, caso este decida que é mais compensador não registrar a empresa e usar os $40, por exemplo, para abrir uma filial em outro bairro, que lhe renderia mais $100 todos os anos e geraria empregos para dois ou três balconistas? Quem pode garantir que o Estado não vai destinar os $40 que tomará de Jorge para um fundo partidário, remunerar os seguranças de um ex-presidente condenado em três instâncias ou pagar lagostas a ministros? Não será melhor para ele e para os balconistas e suas famílias — e menos desrespeitoso com todos os pagadores de impostos — que o negócio não seja legalizado? Quem, nesse caso, fere a ética, a clandestinidade de Jorge ou a prodigalidade do Estado com o dinheiro dos outros?

 
 
 
Políticas robin-hoodianas geram custos descomunais e fracassos colossais. Os pobres só perdem com isso
 
 
8 MAIO 2020, 07:50
 

Aignorância econômica no Brasil tem “estabilidade” no emprego: passado arraigado, presente turbinado e futuro aprumado. De maneira recorrente, o desconhecimento crônico das causas da riqueza e da pobreza revela-se esparramado eternamente em rede esplêndida, palco de paixões por falsos teoremas, excitantes maridanças entre a ignorância e a inveja e renovadas juras de amor eterno entre o obscurantismo e o despeito. Eis algumas dessas mônadas alheias à razão, em que P e R podem ser pessoas, regiões, países, etnias ou gêneros: (1) P é pobre porque R é rico; (2) se P é pobre e honesto, é porque R é rico e desonesto; (3) o somatório das pobrezas é igual à riqueza; e (4) a “justiça social” consiste em tirar de R e entregar a P.

Políticos populistas costumam garimpar votos estimulando os potenciais eleitores — geralmente pessoas ingênuas, humildes e de caráter reto — a crer que impostos sobre os “ricos” é algo “socialmente justo” e bom para o país. É uma visão míope, que não leva em conta o fato óbvio de que a exploração é só uma das causas possíveis de desigualdades, assim como o acesso à educação e à saúde, a dedicação ou a preguiça, a inteligência ou a estupidez, as boas ou as más instituições e até mesmo a sorte ou o azar na vida. Os adeptos dessas falácias tomam a explicação que lhes é conveniente e ignoram todas as demais, com vistas a impor experimentos de engenharia social com a vida, a propriedade e a liberdade alheias.

 
 
 
Sabe a história do pai de família que morre deixando dívidas para os filhos negociarem com agiotas? Com o Estado, não é muito diferente
 
 
29 MAIO 2020, 10:07
 
 

Há princípios econômicos que, mesmo triviais e consagrados por usos e costumes milenares, são desprezados por muitos cidadãos, entre os quais economistas que padecem de um misterioso distúrbio crônico, o de marcar qualquer verdade incômoda, por mais elementar que seja, com o carimbo de “dogma”, “simplismo” e “velharia”, que precisa de rediscussão e refinamento. Tal patologia explica o surgimento, de tempos em tempos, de teorias relativistas rocambolescas, que se esforçam na musculação para transformar periquitos em pavões, aves mais afeitas ao exibicionismo de seus proponentes.

A pandemia trouxe de volta certos seres que já se podem avistar gargalhando como hienas, prevendo o fim do liberalismo econômico. O Brasil não pode mais perder tempo com essas ideias. Não podemos permitir que políticos em geral e economistas heterodoxos, hoje na oposição, mas que já contribuíram com mérito e louvor para afundar o país, transformem as despesas transitórias, que a União será obrigada a engolir, em orgia fiscal permanente. O verdadeiro “desenvolvimentismo” é dizer não a todos eles.

 
 
 
                                 
É imoral transferir para as futuras gerações os ônus de gastos financiados por moeda, sob a aparência de caridade, pois isso significa extorsão transferida para nossos netos
 
 
10 ABR 2020, 08:22
 

Henrique Meirelles, o atual secretário de Fazenda e Planejamento de João Doria, ex-ministro da Fazenda de Temer e ex-presidente do Banco Central nos dois primeiros mandatos petistas, deu uma declaração que, embora eu prefira acreditar ser apenas política, vem provocando polêmica entre os que se preocupam com a economia.

Segundo ele, é hora de o governo federal aumentar fortemente suas despesas para conter os impactos do novo coronavírus na saúde e na economia. Até aí, nada substancialmente diferente do que boa parte dos economistas vem dizendo. Com efeito, em situações emergenciais e inéditas como a provocada pelo vírus chinês, mesmo liberais como o economista e filósofo austríaco Friedrich Hayek (1889-1992) aceitam que o governo socorra os mais necessitados, mas sob a condição de que o socorro seja transitório. 

A polêmica surge quando Meirelles afirma que “isso deve ser feito inclusive com a criação de moeda pelo Banco Central e com a captação de recursos pelo Tesouro Nacional por meio da emissão de dívida”. E ganha tintas carregadas quando acrescenta que a retração da economia será tão forte que não existe risco de inflação caso a autoridade monetária até mesmo emita moeda para o pagamento, entre outras medidas, do auxílio emergencial de 600 reais concedido aos brasileiros de baixa renda durante pelo menos três meses. Em suas palavras: “O Banco Central tem grande espaço para expandir a base monetária, ou seja, imprimir dinheiro, na linguagem mais popular, e, com isso, recompor a economia. Não há nenhum risco de inflação nessa situação”.