Ao contrário do que parece, os impactos da informalidade nem sempre são prejudiciais e podem mesmo ser benéficos
 
 
3 JUL 2020, 08:29
 
 

Jorge está pensando em abrir um pequeno negócio, que ele estima ter potencial para gerar uma renda anual de $100. Mora no subúrbio de uma capital, é um cidadão correto e deseja legalizar a empresa. Contudo, para atender a todas as exigências da versão moderna da Hidra de Lerna — o monstro mitológico de cabeças regeneráveis e automultiplicáveis em que o Estado moderno se transformou —, além das despesas de registro, terá de desembolsar $40 todos os anos em taxas, impostos e outras tungadas do ogro estatal.

De início, surge uma dúvida: será que o governo alocará esse montante mais eficientemente do que Jorge o fará, caso este decida que é mais compensador não registrar a empresa e usar os $40, por exemplo, para abrir uma filial em outro bairro, que lhe renderia mais $100 todos os anos e geraria empregos para dois ou três balconistas? Quem pode garantir que o Estado não vai destinar os $40 que tomará de Jorge para um fundo partidário, remunerar os seguranças de um ex-presidente condenado em três instâncias ou pagar lagostas a ministros? Não será melhor para ele e para os balconistas e suas famílias — e menos desrespeitoso com todos os pagadores de impostos — que o negócio não seja legalizado? Quem, nesse caso, fere a ética, a clandestinidade de Jorge ou a prodigalidade do Estado com o dinheiro dos outros?

 
 
 
Sabe a história do pai de família que morre deixando dívidas para os filhos negociarem com agiotas? Com o Estado, não é muito diferente
 
 
29 MAIO 2020, 10:07
 
 

Há princípios econômicos que, mesmo triviais e consagrados por usos e costumes milenares, são desprezados por muitos cidadãos, entre os quais economistas que padecem de um misterioso distúrbio crônico, o de marcar qualquer verdade incômoda, por mais elementar que seja, com o carimbo de “dogma”, “simplismo” e “velharia”, que precisa de rediscussão e refinamento. Tal patologia explica o surgimento, de tempos em tempos, de teorias relativistas rocambolescas, que se esforçam na musculação para transformar periquitos em pavões, aves mais afeitas ao exibicionismo de seus proponentes.

A pandemia trouxe de volta certos seres que já se podem avistar gargalhando como hienas, prevendo o fim do liberalismo econômico. O Brasil não pode mais perder tempo com essas ideias. Não podemos permitir que políticos em geral e economistas heterodoxos, hoje na oposição, mas que já contribuíram com mérito e louvor para afundar o país, transformem as despesas transitórias, que a União será obrigada a engolir, em orgia fiscal permanente. O verdadeiro “desenvolvimentismo” é dizer não a todos eles.

 
 
 
                                 
É imoral transferir para as futuras gerações os ônus de gastos financiados por moeda, sob a aparência de caridade, pois isso significa extorsão transferida para nossos netos
 
 
10 ABR 2020, 08:22
 

Henrique Meirelles, o atual secretário de Fazenda e Planejamento de João Doria, ex-ministro da Fazenda de Temer e ex-presidente do Banco Central nos dois primeiros mandatos petistas, deu uma declaração que, embora eu prefira acreditar ser apenas política, vem provocando polêmica entre os que se preocupam com a economia.

Segundo ele, é hora de o governo federal aumentar fortemente suas despesas para conter os impactos do novo coronavírus na saúde e na economia. Até aí, nada substancialmente diferente do que boa parte dos economistas vem dizendo. Com efeito, em situações emergenciais e inéditas como a provocada pelo vírus chinês, mesmo liberais como o economista e filósofo austríaco Friedrich Hayek (1889-1992) aceitam que o governo socorra os mais necessitados, mas sob a condição de que o socorro seja transitório. 

A polêmica surge quando Meirelles afirma que “isso deve ser feito inclusive com a criação de moeda pelo Banco Central e com a captação de recursos pelo Tesouro Nacional por meio da emissão de dívida”. E ganha tintas carregadas quando acrescenta que a retração da economia será tão forte que não existe risco de inflação caso a autoridade monetária até mesmo emita moeda para o pagamento, entre outras medidas, do auxílio emergencial de 600 reais concedido aos brasileiros de baixa renda durante pelo menos três meses. Em suas palavras: “O Banco Central tem grande espaço para expandir a base monetária, ou seja, imprimir dinheiro, na linguagem mais popular, e, com isso, recompor a economia. Não há nenhum risco de inflação nessa situação”.

 
 
 
Políticas robin-hoodianas geram custos descomunais e fracassos colossais. Os pobres só perdem com isso
 
 
8 MAIO 2020, 07:50
 

Aignorância econômica no Brasil tem “estabilidade” no emprego: passado arraigado, presente turbinado e futuro aprumado. De maneira recorrente, o desconhecimento crônico das causas da riqueza e da pobreza revela-se esparramado eternamente em rede esplêndida, palco de paixões por falsos teoremas, excitantes maridanças entre a ignorância e a inveja e renovadas juras de amor eterno entre o obscurantismo e o despeito. Eis algumas dessas mônadas alheias à razão, em que P e R podem ser pessoas, regiões, países, etnias ou gêneros: (1) P é pobre porque R é rico; (2) se P é pobre e honesto, é porque R é rico e desonesto; (3) o somatório das pobrezas é igual à riqueza; e (4) a “justiça social” consiste em tirar de R e entregar a P.

Políticos populistas costumam garimpar votos estimulando os potenciais eleitores — geralmente pessoas ingênuas, humildes e de caráter reto — a crer que impostos sobre os “ricos” é algo “socialmente justo” e bom para o país. É uma visão míope, que não leva em conta o fato óbvio de que a exploração é só uma das causas possíveis de desigualdades, assim como o acesso à educação e à saúde, a dedicação ou a preguiça, a inteligência ou a estupidez, as boas ou as más instituições e até mesmo a sorte ou o azar na vida. Os adeptos dessas falácias tomam a explicação que lhes é conveniente e ignoram todas as demais, com vistas a impor experimentos de engenharia social com a vida, a propriedade e a liberdade alheias.

 
 
As medidas emergenciais que vêm sendo tomadas para salvar a economia causarão inflação, perda de renda e suicídio fiscal
 
27 MAR 2020, 16:26
 

Desde a inacreditável e asquerosa sopa de morcegos até este momento, a peste que veio do leste já se estendeu a mais de 150 países e a cinco continentes, infectou mais de 450 mil pessoas e interrompeu perto de 21 mil vidas. Não bastasse isso, vem ameaçando fulminar a economia mundial.

É costume exigir dos governos soluções para as grandes crises, porque os indivíduos, paradoxalmente, embora não gostem dos políticos, acreditam que os governos têm sempre boas intenções e que podem fazer mágicas na economia para conduzir todos ao Éden. Esses truques consistem em inflar a demanda, pela imposição de uma verdadeira olimpíada de estímulos. A saber: qual banco central é mais rápido em martelar artificialmente a taxa de juros para baixo, que governo arremessa mais longe os seus gastos, quem é melhor em despejar moeda sem lastro — medida conhecida como “helicopter money”, a distribuição de dinheiro à população a fundo perdido.