29/11/2012

Um dos argumentos mais usados pelos arautos politicamente corretos é o que pretende convencer as pessoas desinformadas de que um Estado laico é necessariamente um Estado ateu. Nada mais errado do que isso! Errado e perigoso.

 De fato, infelizmente – e creio que tal erro seja proposital, para minar os alicerces morais das sociedades – confunde-redempse laicismo com ateísmo, que são coisas bem diferentes. Em um Estado laico, primeiro, as instituições religiosas estão separadas das instituições políticas, mas essa partição não significa que apenas os que não têm religião devem ter o direito de se manifestar. E segundo, nem de longe existe a hipótese de que qualquer manifestação religiosa deva ser proibida ou combatida, para não agredir as crenças (ou descrenças) dos que não creem em Deus.

 No Brasil, de acordo com pesquisa da Folha de São Paulo, o número dos que negam a existência do Criador é ínfimo, o que significa que a imensa maioria de nossa população, mesmo os que não professam qualquer religião, acredita na transcendência do homem.

 

 Clama por resposta à altura, com argumentos, a falácia de que o Estado laico deve ser também ateu e que, nesse tipo de ordenação social, só os que não acreditam no Criador é que poderiam estabelecer leis e regras de conduta e de convivio, proibindo quaisquer manifestações contrárias a seu ateísmo ou agnosticismo. Em poucas palavras, uma ditadura intolerável de uma minoria contra a esmagadora maioria da população! Isto é, em uma só palavra, inaceitável!

 Essa orquestração politicamente correta, que nada mais é do que um ressaibo do movimento gramsciano para tentar desmoralizar a religião, é tratada pelos países de formas distintas: a França, proibiu as burcas e a Suíça a construção de minaretes (que são as torres das mesquitas) - duas leis, convenhamos, que agridem direitos individuais básicos, como o da liberdade de credo. Na Itália, por decisão da Corte Europeia de Direitos Humanos, não se considerou atentado à laicidade do Estado (vejam a inversão de valores que essa expressão – “atentado à laicidade do Estado” - sugere!) a presença de crucifixos em escolas públicas.

 Um liberal (ou, se preferir, um libertário) deve defender não só a liberdade religiosa plena, mas também que o Estado respeite essa liberdade com imparcialidade perante os diferentes credos, reconhecendo e garantindo o direito de expressá-los publicamente e tentar fazer adeptos, desde que pelo uso da argumentação e do exemplo de vida, jamais pela imposição da força. Por trás dessa campanha para destruir a religião a maioria é de marxistas, mas infelizmente lá estão também alguns libertários que são usados pelos primeiros por sua ingenuidade, pois não sabem separar visões econômicas, como, por exemplo, as de Nietzsche e Ayn Rand em defesa do livre mercado de suas visões éticas-morais-culturais claramente ateístas. Alguns, mais radicais, parecem crer que, para se defender o livre mercado, ser ateu é condição necessária e suficiente. Se lessem os pós-escolásticos, poderiam certificar-se de que poucas crenças são tão falsas como essa.

De acordo com o eminente jurista Ives Gandra da Silva Martins, é “interessante notar que a nossa Constituição alberga três princípios básicos em matéria de relações entre Igreja e Estado, que são os de separação, cooperação mútua e liberdade religiosa (CF, arts. 5º, VI, e 19, I)”. O que se discute são as melhores formas de aplicar esses princípios, especialmente quanto às especificações para questões polêmicas que emanam desses princípios, como a das uniões homoafetivas, a do ensino religioso confessional nas escolas públicas e a da colocação de símbolos religiosos em órgãos públicos.

Para quem ainda não entendeu onde pretendo chegar: o que devemos defender é algo como um ponto de equilíbrio entre o Estado confessional e o laicismo agnóstico, ou seja, uma laicidade saudável, aquela que mantém a autonomia dos assuntos políticos, ao mesmo tempo em que respeita o direito das religiões defenderem e ensinarem seus valores morais, aqueles que, em última instância, amparam a vida em sociedade e a dignidade da pessoa humana.

Deveriam, portanto, os que se manifestam a favor da retirada de símbolos religiosos dos espaços públicos, manifestar-se também em favor da extinção de todos os feriados religiosos, começando pelo Natal e passando pela sexta-feira da Paixão e pelo dia de Finados; em favor da mudança dos nomes de todas as cidades que levam nomes de santos católicos; da destruição da estátua do Cristo Redentor no morro do Corcovado, no Rio de Janeiro; da proibição a padres, frades e freiras de saírem às ruas trajando seus hábitos, bem como de judeus ortodoxos se vestirem de negro e usarem chapéu e longas barbas; do impedimento de que, na noite do último dia de cada ano, umbandistas vistam-se de branco e realizem suas cerimônias nas praias. Tudo isso, afinal, não fere os melindres da minoria?

 mac

Mas ilude-se quem pensa que esses verdadeiros ditadores do “politicamente correto” se contentam apenas com isso, pois querem, literalmente, romper com qualquer vínculo com o passado de nossa sociedade (a não ser com os que servem a seus intentos), começando pelos inocentes livros de Monteiro Lobato, passando pelas cartas de São Paulo no Novo Testamento e atingindo até mesmo Aristóteles, Platão, Sócrates, São Tomás, Santo Agostinho...

 Aos politicamente corretos do Estado leigo-ateu só tenho uma palavra final: ora, vão pentear macacos! Deixem-me pendurar meu crucifixo e imagens na parede em paz que eu deixo vocês também em paz na sua ausência de fé!